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Krishna Mahon
Descrição de chapéu Sexo

Santa Anitta da libertação orgástica

A revolução que minha avó e Anitta podem causar no sexo que você faz

Obra da artista Adrianna eu: Existem mais de mil possibilidades de consertar as coisas entre nós - Instagram/adrianna.eu
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Se você está pedindo aos céus ou a uma estrela cadente para gozar mais e ser mais feliz, peça para Anitta. Nossa estrela-mor, num esforço hercúleo, envolveu o mundo e conseguiu chegar ao número 1 do Spotify. Só que essa amazona está puxando milhões de brasileiros nessa rede, talvez até você que, apesar de ainda não saber, ainda pode realizar seu desejo de transar mais e melhor. Calma que eu vou explicar.

Uma das mulheres que mais amo contou que seu relacionamento estava tão ruim no final que ficava seca e as relações sexuais doíam. Meu coração encolheu a ponto de caber num dedal ao ouvir isso. Imagina transar com alguém sem nenhuma vontade e sentir dor. Agora imagina quantas mulheres você conhece que ficaram e ainda estão amarradas em casamentos falidos por dependência financeira e passam por isso toda hora. Pensei na vovó.

Sabe o modelo "bela, recatada e do lar"? Minha avó materna era um poço de amor, uma mãe exemplar, daquela que você olha e sabe que nasceu para cuidar dos filhos, do marido, da casa, de todo mundo —menos dela mesma. Lembro vividamente da mamãe montadaça com roupas de lurex, estilo "Dancing Days" (novela da época), maquiagens elaboradíssimas num dia e, no outro, uma ressaca absurda.

Deixou cair de cabeça ou foi trocada na maternidade ainda bebê? Na infância e adolescência eu olhava a vovó sem entender o que ela tinha feito de errado para a mamãe sair tão... Como outros seres humanos, mamãe tem krush, sai, bebe, fuma, tem ressaca, tudo que todo mundo vive, menos as mães. Será que foi Nossa Senhora que deixou o rolê das mães um tiquinho mais complicado, ou foi só o machismo estrutural mesmo? Sei que cresci com inveja das "mães normais" como a vovó.

Vovó performava milagres com o que tinha na cozinha, enquanto minha mãe e minha tia cozinham tão mal que oferecem rindo: "está um horror, quer?", "bota uma fatia de arroz para acompanhar" —ênfase na palavra "fatia". Custei a enxergar, mas hoje vejo que esse pulo geracional não foi por acaso, e tenho certeza que vovó estaria em êxtase com o sucesso da Anitta.

Vovó discutia comigo o que hoje é meme. Se Cinderela tivesse estudado, saberia que uma advogada resolveria todo aquele perrengue, porque a casa e a herança também eram dela. De quebra ainda metia um processo por cárcere privado e trabalho escravo.

Presa financeiramente num casamento horroroso, vovó comemorava minhas notas boas como ninguém. Para as filhas ela dizia: "tenha o seu dinheiro", "nunca dependa de um homem", e outros conselhos mais paranoico como "ele não precisa saber quanto você tem".

Vovó passou anos ensinando que ser dona do próprio nariz era o segredo da felicidade da mulher. Mas e se a gente for dona do nariz e do resto do corpo? É uma felicidade imensa ver diretoras, CEOs, mulheres poderosíssimas cada vez mais ocupando espaços inimagináveis para menina que minha avó foi. Mas, entre as amigas chefonas, poucas são as que se permitem ser donas dos próprios corpos. Anitta é o exemplo da autonomia financeira, mas vai além.

Gente mal-amada vai dizer que o sucesso durou pouco, mas quem tem visão para além das bordas da terraplana sabe que esse é só o começo. O recalcado também vai dizer que Anitta abriu as portas do olimpo com o rabo. Só se for por ralar o fiofó na ostra, porque a bicha lutou, caiu, levantou, aprendeu muita coisa e, de forma muito altruísta, leva uma pá de gente no seu aprendizado. Vide suas aulas sobre política com a Gabriela Prioli, disponíveis no YouTube.

Ela fala da sua sexualidade, mostra seus vibradores, faz tatuagem no fiofó e, ainda, conta que vai levar lubrificante pro date, porque vai que dá vontade de fazer anal, né? Como uma das amazonas do filme "Mulher Maravilha", ou as descritas por Camille Paglia, nossa heroína liberta o desejo feminino em sua potência, nos diz que finalmente é permitido gozar.

Leila Diniz dizia "eu dou para todo mundo mas não dou para qualquer um", o que Marília Mendonça, Valesca Popuzuda, Tati Quebra Barraco, Jojo Todynho e tantas outras libertárias do pussy power e do empoderamento reverberam.

Infelizmente, para cada Anitta, são milhões de Micheques, ops, Michelles e Amélias em livros, filmes, séries. "Se você pode ver, você pode ser" é o lema do Geena Davis Institute, mas ONU Mulheres, Mulheres do Audiovisual Brasil, Mais Mulheres e tudo quanto é grupo de lideranças femininas no audiovisual que participo, repetem o mantra: é importante que a gente tenha outros exemplos na ficção e, principalmente, na realidade para inspirar outras jovens.

Anitta não pode ser exceção à regra. Precisamos de mais meninas periféricas, pobres e não-brancas entrando no Olimpo, numa mobilidade social que incomoda tanto, que tem gente que não se aguenta e torce contra. Mas não é só o privilegiado (que não abre mão do privilégio assim tão rápido) que fica emputecido com o sucesso dela; tem muita mulher também. Porque, como disse Contardo Calligaris, já citado aqui na coluna, "querem proibir aos outros o que eles não conseguem proibir a si mesmos".

Assim como está cheio de gays trancafiados no armário, sofrendo por não viver o próprio desejo e recriminando quem vive, tem mulher a rodo se rasgando de inveja da safada assumida, que abraça a pomba gira interior. Incomodei muita gente ao "dar certo" nas corporações americanas, mas incomodei muito mais quando passei a falar de sexo no SexPrivé Club todo sábado de madrugada na Band. Meu instagram @krishnamahon, sujinho e sem vergonha, causa siricutico numa galera.

A Phoda Madrinha está torcendo para que a luz do esplendor de Anitta, e as deusas que vieram antes dela, ilumine você, que também invada esse armário de castração tão além da ocupação máxima. E que todas as mulheres sejam donas do próprio nariz e do resto do corpo, para que abracem a piranha interior e, todos, homens e mulheres, sejam mais felizes. Dadeiras unidas!

Krishna Mahon

Jornalista e cineasta indicada ao Emmy, é apresentadora do SexPrivé Club da Band. Foi produtora da Discovery e diretora de conteúdo do History.

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