Colo de Mãe

Confinamento materno não termina; ficamos trancadas no nascimento e, agora, com Covid

Pandemia e puerpério: tudo a ver

Maternidade - Subbotina Anna - stock.adobe.com
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Agora

Neste intenso ano de 2020, que chegará ao fim logo mais, o mundo inteiro ficou trancado e todos puderam saber como as mães se sentem no puerpério. Para quem não entende o termo, puerpério é o período depois do parto, em que ficamos nos recuperando, cuidando da cria, lambendo feridas, trancadas.

Há sutis diferenças entre o puerpério normal e a pandemia. Logo depois do parto, em geral, temos ajuda nos cuidados com a casa e com o bebê. Além disso, podemos receber visitas que, alegremente, vêm saudar o novo ser humano integrante da família, tomar um café e bater um papo.

Na pandemia é diferente. Ninguém pode ter ajuda porque todos temos que ficar em casa e circular o menos possível. Todo mundo tem que usar máscara e não se pode abraçar.

Se está sendo difícil para nós ficarmos trancados por causa do vírus, imaginem o quanto é complicado para uma mãe que acabou de parir e ainda precisa alimentar um bebê. É ainda mais difícil para aquelas que estão vivendo pandemia e puerpério.

Não é o meu caso nem o de milhares de outras mães. Além dos nossos pós-partos lá atrás, em outros tempos, com entrega, dores, solidão e livre demanda da amamentação, temos agora a livre demanda da aula online. Eu, com duas filhas, posso dizer, ao final de tudo isso, que vivi quatro puerpérios, sendo dois deles, nestes últimos meses, o nível “hard” da evolução materna.

Ainda me lembro como era cansativo e, ao mesmo tempo, prazerosa a livre demanda da amamentação. Minha primeira filha, hoje com 13 anos, nasceu com peso médio (3.370 kg) e mamava de 20 em 20 minutos. Cheguei a ter feridas nas coxas de tanto que fiquei sentada, na poltrona de amamentação, sendo o alimento dela.

A mais nova, hoje com oito anos, nasceu bem mais gordinha, com 4,5 kg, e talvez por já trazer esse excesso de gordura, mamava menos. Digamos que de 40 em 40 minutos. Parece surreal, mas é assim que ocorre. E, neste caso, ainda tirei a sorte grande, pois entre uma filha e outra, o tempo de mamada dobrou. Com isso, dava tempo de lavar o cabelo.

Neste ano, com a livre demanda da aula online, não foi diferente. Embora eu consiga lavar o cabelo sempre que preciso (e quando saio na rua é essencial fazer a higiene total ao voltar), ficar cinco minutos no chuveiro pode render uma revelação da caçula na aula online ou mesmo posso encontrá-la aos prantos pelos mais diversos motivos.

Com a mais velha é um pouco mais tranquilo, mas não menos complicado. Com 13 anos, tem total autonomia, mas, nas provas, pedia minha presença como um calmante para o nervosismo. E, assim como a livre demanda do aleitamento, a dedicação na aula online tem suas recompensas. Nos primeiros puerpérios, as meninas cresciam a olhos vistos.

Agora, o crescimento é outro. É na alma, no entendimento, na sabedoria. E, mesmo tendo o meu dia completamente tomado, sem tempo nem para ir ao médico, mesmo exausta, eu agradeço ao limão da minha limonada. É uma pandemia sem precedentes, mas a profissão e a empresa me permitiram ficar em casa com minhas filhas, e isso não tem preço.

Em meio a tantas perdas e mortes no Brasil e no mundo, dores que vão além do cansaço e da exaustão materna, sei que não há como compensar o que se perdeu, mas podemos buscar uma construção em meio ao caos.

O ano está quase acabando. Agradeço ao que se passou e celebro exatamente o mesmo motivo: as coisas passadas. Se tinha alguma lição a aprender, já foi aprendida. Espero apenas um 2021 de muito mais tranquilidade, sem isolamento severo e com vacina.

Colo de Mãe

Cristiane Gercina, 41, é mãe de Luiza, 13, e Laura, 8. É apaixonada pelas filhas e por literatura. Graduada e pós-graduada pela Unesp, é coordenadora-assistente de Grana do jornal Agora, empresa do Grupo Folha. Quer ver o desenho do seu filho publicado na coluna? Envie-o para o e-mail colodemae@grupofolha.com.br com nome completo e idade da criança, nome e celular do responsável.

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