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Obra-prima de Graciliano Ramos, 'Vidas Secas' completa 80 anos e ganha edição especial

Clássico nacional, livro traz saga de família pensada por cachorra

O escritor Graciliano Ramos
O escritor Graciliano Ramos (1892-1953) - Reprodução

A edição comemorativa dos 80 anos do clássico nacional "Vidas Secas" (1938), recém-lançada pela Record, carrega na capa a figura mais emblemática do livro: a cadela Baleia. Ao acompanhar a saga de uma família de retirantes, cabe ao animal, seus instintos e até intuições, dar significado à trajetória dos personagens.  

Em meio à seca, a falta de comida torna a falta de palavras menos importante. A comunicação entre os personagens é rasa por simples falta de vocabulário. Graciliano Ramos (1892) confere ao animal a consciência que os demais não têm –humanizando-o ao mesmo tempo em que animaliza os outros. 

Os olhos de Baleia (como os da minha eterna Luna) parecem com os de gente e enchem de ternura seus companheiros de jornada.  Foi a partir de um conto que leva o nome da cachorra que a história teve início, em princípio com o título "O Mundo Coberto de Penas". 

Marco do romance regionalista brasileiro, o livro é narrado em terceira pessoa e mostra os desafios físicos e morais de Fabiano: pai de família analfabeto que caminha com a mulher, Sinhá Vitória, e os dois filhos (menino mais velho e menino mais novo) pelo semiárido em busca de uma vida melhor.

Mas suas vidas são tão secas quanto o sertão. Algumas das frases-chave da obra são: "Ele, Fabiano, seria tão ruim se andasse fardado? Iria pisar os pés dos trabalhadores e dar pacadas neles? Não iria" e "Achou-se isolado. Sozinho num mundo coberto de penas de aves que iam comê-lo". 

Extremamente atual, a obra-prima de caráter universal foi escrita quando o autor alagoano morou no Rio, na casa de amigos ou em pensões, logo após ser preso, entre 1936 e 1937, acusado de ser comunista. Ele costumava comparar o ofício de escritor ao das suas lavadeiras conterrâneas: que antes de colocar a roupa para secar na corda, batiam e torciam as peças duas ou três vezes, até "não pingar do pano uma só gota". 

Esta edição especial do livro (R$ 69,90, 320 págs.), para colecionadores, traz ilustrações e reproduções de manuscritos. Publicado pela Record desde 1975, "Vidas Secas" já vendeu mais de 1,8 milhão de exemplares e é o maior sucesso da editora nos mais de 75 anos de funcionamento. Livro fundamental para qualquer brasileiro. E pode ser encontrado mais barato, em edições mais simples, em livrarias e sebos.

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Vivian Masutti, 33, é jornalista formada pela Cásper Líbero e bacharel em letras (português e francês) pela USP (Universidade de São Paulo), onde também cursou a Faculdade de Educação e obteve licenciatura plena em língua portuguesa. No Agora, é editora do caderno Show!

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