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Cena do filme 'Fire Island: Orgulho e Sedução' Divulgação

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Kyle Buchanan
The New York Times

Joel Kim Booster estava com uma ideia na cabeça. Para que precisamos de trailers de cinema? Tudo bem, eles oferecem às pessoas uma pequena amostra de um filme, o que pode despertar sua curiosidade, mas será que não poderíamos simplesmente... não fazê-los?

Foi essa a teoria que Booster me propôs certa noite no final de abril, horas depois da divulgação do trailer de "Fire Island: Orgulho e Sedução", uma comédia romântica que ele escreveu e protagoniza. Booster estava à espera daquele momento com um nível considerável de ansiedade, e por isso, quando a manhã fatídica chegou, ele tinha um plano: depois de colocar o trailer na internet, ele voltaria a dormir, e em seguida se manteria distraído com uma visita à academia e assistindo diversos episódios paliativos de "The Real Housewives".

Poucas horas depois de o plano ser colocado em operação, com seu celular explodindo diante do número de mensagens de texto recebidas e o Twitter dissecando minuciosamente o trailer, ele enviou uma mensagem ao diretor de "Fire Island: Orgulho e Sedução", Andrew Ahn, para anunciar que ou estava sofrendo um ataque do coração ou uma série de pequenos derrames.

Assim, considerem a declaração que vem a seguir como seu pedido de desculpas: "Já fiz exatamente a mesma coisa: cheguei a veredictos definitivos sobre um filme baseado em dois minutos", disse Booster, 34, que tem cabelos tingidos de loiro e uma voz suave como a de um locutor de rádio, que parecia tornar quase supérfluo o microfone de nossa entrevista. "Mas, agora que estou do outro lado da história, minha reação é que, nossa, isso é a coisa mais ridícula do mundo".

O filme é uma versão moderna e gay de "Orgulho e Preconceito" de Jane Austen, e nele Booster estrela como o narrador, Noah, que faz observações mordazes sobre a comunidade gay de Fire Island e seus costumes sociais. (Pense nele como uma Elizabeth Bennet de sunga de banho cor de rosa.) Noah não foi a Fire Island, um polo turístico no estado de Nova York, em busca de um amor verdadeiro, mas, enquanto toma conta de seu inseguro amigo Howie (Bowen Yang) em uma viagem de férias na qual tudo sai errado, ele também começa a avaliar um pretendente arrogante e inflexível que talvez prove ser o Mr. Darcy de sua vida.

Depois que Booster respondeu às mensagens de texto dos amigos sobre o trailer e conseguiu fugir sem ler os comentários sobre o trailer na internet, ele apareceu para nossa conversa no Akbar, um bar gay histórico em Los Angeles, com iluminação âmbar, coquetéis fortes e cortinas de bambu e franjas. (Booster, que se mudou de Nova York para Los Angeles alguns anos atrás, escolheu o Akbar porque se tratava de um dos poucos bares gays da cidade que "não parece um WeHo ou um Chipotle"). Ahn, que chamou a atenção de Booster inicialmente ao dirigir o filme independente "Spa Night", em 2016, também participou da conversa. Os dois se conhecem há alguns anos, e o fato de serem ambos gays e coreanos, em um setor que raramente abre espaço para suas histórias, os aproximou.

"Nós supostamente deveríamos sair cada um para um lado e fazer cada um a sua coisa, o que ajudaria a reduzir o peso que nós dois precisamos carregar", disse Booster, enquanto Ahn ria e bebericava tequila com soda. "Mas depois decidimos que faríamos um projeto juntos, e agora temos o mesmo problema, o de precisarmos representar a todos".

Ainda que recentemente grandes estúdios de cinema tenham produzido mais comédias românticas protagonizadas por gays, isso não significa muito: elas ainda aparecem com a raridade de cometas, e os outros filmes do gênero –"Com Amor, Simon", "Alguém Avisa?" e "Mais que Amigos, Friends", com Billy Eichner, que estreia este ano– não têm elencos compostos principalmente por atores de origem asiática. Por isso, há um nível adicional de escrutínio que Booster espera ter de enfrentar, da parte de pessoas que jamais se viram refletidas pelo protagonista de um filme, até agora.

E Booster entende perfeitamente a situação, mas o fato de que seja ele o protagonista em questão pesa mais do que tudo isso, já que sua história é específica demais para que ele possa servir como representante de tanta gente. Booster foi adotado por um casal branco em Plainfield, Illinois, quando criança, e estudou em casa; ele saiu do armário na adolescência, se formou em teatro musical na universidade e se mudou para Nova York a fim de se tornar comediante stand-up. Mesmo agora, sua família conservadora mal faz ideia de que o filho esteja fazendo uma comédia gay sobre a qual a internet inteira parece determinada a expressar opiniões.

Por isso, Booster pede desculpas caso ele não possa dar atenção às preocupações alheias no momento –porque as suas preocupações pessoais é que pesam mais para ele.

"Na noite anterior ao início das filmagens, o que eu estava pensando é que o filme ou mudaria minha vida ou seria o maior fiasco de minha carreira", ele me disse. "E não acho que exista qualquer coisa entre esses dois extremos".

Na primeira vez que Booster e Yang foram a Fire Island, eles hesitaram um pouco. Na época, os dois continuavam presos aos seus empregos convencionais (Booster era gerente de projetos em uma empresa que vende meias pela internet) e, para tornar a viagem economicamente viável, tiveram de encaixar 11 amigos pobres em uma casa com apenas três dormitórios. Eles sabiam que a ilha tinha uma reputação de refúgio para homens gays ricos, brancos e musculosos, mas mesmo assim Booster ainda se incomodava quando o alguém o olhava feio, como se querendo dizer que "seu lugar não é aqui".

Apesar desses momentos, quanto mais tempo ele passava com os amigos em Fire Island, mais livre se sentia.

"Você não percebe o peso que carrega a cada dia por ter de viver em espaços hétero", ele disse. E mesmo os preconceitos peculiares da ilha se tornaram fonte de inspiração, depois que Bowen leu o romance de Austen e percebeu que a história dela sobre estratificação social poderia ser mapeada de uma forma que a enquadrasse às suas experiências.

Ao longo dos anos seguintes, a fama de Booster como comediante stand-up começou a crescer, e ele voltava frequentemente a Fire Island, para trabalhar em um roteiro sobre a ilha, a ser estrelado por ele e Yang. E no começo de 2020, a grande oportunidade de Booster finalmente apareceu, quando o projeto recebeu luz verde –do Quibi.

Não ria. Sim, é verdade que o app de Jeffrey Katzenberg para streaming de séries logo se tornou um dos fiascos mais infames da história de Hollywood, mas, naquele momento, para Booster, o apoio do Quibi era tudo que faltava. Todos os demais estúdios tinham recusado a ideia de "Orgulho e Sedução", e a outra grande oportunidade de Booster como ator –um, papel coadjuvante em "Sunnyside" sitcom da rede de TV NBC em 2019– naufragou, o que deixou a carreira dele em situação precária: "As pessoas comentavam que a série seria um grande sucesso, seria o próximo ‘The Office’, e que eu teria dinheiro suficiente para comprar uma casa, com o dinheiro das reprises depois de cinco temporadas. E fomos cancelados no terceiro episódio".

O Quibi não durou muito mais tempo.

O app foi lançado um mês depois da chegada da pandemia, desapareceu das listas de downloads de maior sucesso em apenas uma semana, e foi vendido à Roku antes do final do ano. "Quando os lockdowns estavam começando, todo mundo estava deprimido e eu tive a impressão de que minha carreira tinha terminado", disse Booster. "Para mim, era o fim. Quando aquilo terminasse, as pessoas teriam me esquecido completamente".

Por sorte, a Searchlight Pictures começou a demonstrar interesse pelo projeto, desde que Booster o reescrevesse como longa-metragem, em lugar de série. E foi nesse momento que Ahn se tornou parte da equipe.

"Não acho que eu esteja sendo pretensioso ao afirmar que, é, sou a única pessoa que poderia ter dirigido essa história", Ahn me disse. Há 10 anos ele mora no que define como "uma maloca gay asiática em Echo Park" – um edifício no qual os aluguéis são baratos, não existe ar condicionado, há muita camaradagem e muitas festas, e houve uma invasão por um gambá, que os moradores levaram um mês para expulsar do local. Ahn se sentia tão enquadrado a "Fire Island: Orgulho e Sedução" que ele poderia ter sido um personagem do filme; e para criar um quadro visual de inspiração para o projeto, ele usou fotos suas e de seus amigos.

Ahn ficou entusiasmado por o filme se tornar ainda mais asiático à medida que o elenco foi sendo formado. Quando um ator homem teve de deixar o projeto, a humorista Margaret Cho foi contratada para o papel da moradora que serve como mãe substituta para a turma de amigos. O interesse romântico de Booster, que originalmente seria interpretado por um ator não asiático, foi dado ao ator Conrad Ricamora, americano de origem filipina. ("Quando eles fizeram uma leitura do roteiro para ver se os dois tinham química, Conrad fez Joel enrubescer, e eu amei isso", disse Ahn.) Ainda que Booster tenha aprovado essas duas escolhas, ele ainda tinha algumas reservas.

"De repente o projeto se tornou não só um filme gay mas um filme gay asiático", ele disse, enquanto terminávamos nossos drinques e partíamos para um segundo bar. "A responsabilidade daquilo tudo começou a parecer mais pesada".

Mas ele sabe que oportunidades como essas são raras e preciosas. Booster ficou chateado quando não conquistou o papel de filho gay de Michelle Yeoh em "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo", que terminou ficando com a atriz Stephanie Hsu. "Eu batalhei pelo papel, eu contra um milhão de garotas, e pensei comigo mesmo: O que está acontecendo aqui?"

Booster às vezes sente a necessidade de justificar até mesmo sua escalação para seu próprio filme. Quando chegamos ao Eagle –um bar decorado em couro, com máquinas de fliperama, uma mesa de bilhar coberta de feltro vermelho e televisores que passam cenas pornô antigas—, Booster discorreu sobre os comentaristas de internet que decretaram que ele era malhado demais para se encaixar no papel de um excluído de Fire Island. "Acho que as pessoas são excessivamente ingênuas quanto à malvadeza ocasional dos homens gays", ele disse.

"Creio que existam muitas nuanças no fato de que, sim, eu sofro racismo gay, mesmo que tenha essa aparência", disse Booster. "Sei o quanto trabalhei para tentar me tornar visível em espaços como aqueles, e minha maneira de tentar fazer isso foi bastante convencional. Mas, além disso, eu também precisava me sentir bem a meu respeito antes de começar as fazer tudo isso –não foi um caso de engenharia reversa. Da primeira vez que vendi um roteiro, o que senti é que eu tinha muito mais valor por isso do que se algum desconhecido me achasse, ou não, sexualmente viável".

E, em última análise, não é possível controlar o que os desconhecidos pensam sobre você, quer se trate de comentaristas anônimos na internet ou de pessoas que falam a seu respeito em pessoa. Ahn contou uma história sobre estar filmando em Fire Island quando dois homens gays passaram por perto e perceberam Booster, que estava em pé ali perto. "Oh, aquele é o ator principal do filme", disse um dos homens.

"Ele?", o amigo respondeu.

Ahn ficou indignado mas, enquanto ele contava a história, Booster simplesmente meneou a cabeça. "Como comediante, e em tudo que fiz até este momento, eu simplesmente precisava ser engraçado, sabe?", disse Booster. "Mas nesse caso, eu faço o principal papel romântico, e é muito sério para mim, em minha vida, ser confrontado por uma situação como essa e ter de questionar se sou o cara certo para o papel, se serei crível no papel".

Booster nunca tinha se envolvido em um relacionamento antes de começar a escrever o roteiro de "Orgulho e Sedução", e tudo que sabia sobre o amor tinha sido aprendido ao assistir a filmes de Nora Ephron. Mas quando o momento de iniciar a produção de "Fire Island: Orgulho e Sedução" foi se aproximando, ele foi apresentado ao produtor de videogames John-Michael Sudsina, e alguma coisa nele se abrandou.

"Eu nunca tinha encontrado uma pessoa que me fizesse ter vontade de não estar sozinho, até que o conheci", disse Booster.

Ele começou a reescrever as cenas em que contracenava com Ricamora, se inspirando em conversações reais que teve com Kelly. E o instante final entre os dois personagens no filme, que na versão original envolvia uma tirada cortante, foi alterado para algo mais suave e romântico. "Quando comecei a escrever um filme sobre amor, era como se eu estivesse em drag", disse Booster, "mas, depois de experimentar o sentimento real, e reescrever as cenas, a sensação era a de algo muito mais real, algo vivido".

As críticas que o filme vem recebendo são excelentes, o que levou Booster a soltar um suspiro de alívio. "Quando eu estava fazendo o filme", ele disse, "pensei que, se o filme fosse ruim, eu jamais teria coragem de mostrar minha cara em Fire Island de novo. Eu teria arruinado meu lugar favorito". E, sim, ele e Yang planejam voltar à ilha no verão deste ano.

"Você acha que vai ser diferente?", perguntou Ahn. "Acha que vai ser esquisito?"

"Vai ser extremamente esquisito", disse Booster. "Vou ser ou persona non grata ou o prefeito".

E qual vai ser a sensação quando os comentários mudarem de "ele é o ator principal de ‘Fire Island: Orgulho e Sedução’" para "ele é o ator principal de ‘Fire Island: Orgulho e Sedução!’"?

Booster deu de ombros: ele saberá quando o momento chegar. "Não acho que eu ainda tenha percebido a realidade da coisa", disse. "Ninguém está me mandando mensagens sobre o filme no Grindr".

Tradução de Paulo Migliacci

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