Don Johnson Ryan Pfluger/The New York Times

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Robert Ito
Beverly Hills, Califórnia
The New York Times

Em "Miami Vice", Don Johnson, no papel do policial infiltrado Sonny Crockett, disparava tela afora em lanchas e Ferraris, capturava contrabandistas de armas e traficantes de drogas e conseguiu até a façanha de usar sapatos sem meias e parecer cool.

O sucesso da série mudou a cara, a trilha sonora e o clima dos programas policiais de TV –de acordo com o folclore de Hollywood, o projeto foi aprovado sob a rubrica "policiais MTV"– e fez de Johnson um astro internacional.

Mas existe uma segunda contribuição, talvez menos apreciada, à celebridade mundial de Johnson, que precede seus papéis coadjuvantes recentes em filmes elogiados pela crítica como "Entre Facas e Segredos" e em séries como "Watchmen".

De 1996 a 2001, ele interpretou o papel-título em "Nash Bridges", série policial da rede de TV CBS que, como "Miami Vice", se passava em uma cidade deslumbrante (São Francisco) e envolvia uma parceria de policiais –no caso o companheiro era interpretado por Cheech Marin, da dupla de humoristas Cheech & Chong, famosa pelos filmes sobre hippies chapados.

Passados 20 anos, Nash continua a ser um dos papéis favoritos de Johnson. "Eu gostava da agilidade dele, da maneira pela qual alternava momentos de humor e de completa seriedade", disse Johnson em uma conversa recente no Peninsula Hotel. "E estava curioso para ver se era possível voltar a capturar aquela faísca".

À primeira vista, o papel-título em um filme feito para TV que estrou no último dia 27 no canal USA pode não parecer a jogada mais evidente –ou necessária— para Johnson. Mas, como no caso de muitas das séries policiais da CBS, a popularidade e o retrospecto de "Nash Bridges" contrastam com a falta de atenção dedicada a ele pelos adeptos da TV cabeça.

Em seu pico, a série ocupava uma vaga importante no horário nobre da rede e tinha um orçamento de generosos –para a época– US$ 2 milhões (R$ 11,3 mi) por episódio, e atraía mais de oito milhões de espectadores por semana. Mais tarde, em reprises, ela viria a encontrar novas audiências em dezenas de países. E parece ter sido feita sob encomenda para os adeptos de programas de curiosidades com origens que remontam ao escritor Hunter Thompson.

Para Johnson, o novo filme também representou a primeira oportunidade de encabeçar o elenco de um policial em duas décadas. "Eu não teria me empolgado tanto com o projeto se tivesse de escrevê-lo para outra pessoa", ele disse.

Johnson, que escreveu o roteiro do novo filme, com Bill Chais, tomando por base a série original criada por Carlton Cuse, falou com franqueza sobre seus motivos para revisitar a série da década de 1990 em uma conversa ampla que também tratou de seus anos mais jovens e impetuosos. Os motivos dele para aceitar um retorno incluem amor, dinheiro e curiosidade. Afinal, aos 71 anos, um homem parece naturalmente inclinado a refletir sobre a maneira pela qual as pessoas mudam, ou não, com o passar do tempo.

Ele estava curioso para saber o que poderia ter acontecido com Nash –um inspetor de polícia amistoso que patrulhava San Francisco ao volante de um Plymouth Barracuda amarelo do começo da década de 1970– nos 20 anos transcorridos desde o fim da série. Não que ele não tivesse ideias quanto a isso –algumas das quais, quem sabe, derivadas de suas experiências.

"Imagino que ele ainda esteja em forma e que continue muito capaz", disse Johnson sobre Nash. "Também o imagino como mais sábio e mais sensato sobre as coisas". "Ele continuaria capaz de derrubar qualquer um em uma briga", ele disse, empregando um termo chulo. "Mas pensaria mais antes de fazê-lo para ter certeza de que estava agindo pelo motivo certo".

As décadas transcorridas desde que "Miami Vice" fez de Johnson um astro, em 1984, lhe propiciaram muito material. Na verdade, elas lhe propiciaram uma reputação lendária. Mas nem tudo que se diz a respeito de Johnson é verificável, e ele mesmo não se lembra bem de tudo que aconteceu.

O ator se casou com Melanie Griffith (duas vezes), bateu um recorde mundial de velocidade na água e lançou dois singles (um em dueto com sua então namorada Barbra Streisand). Há histórias sobre problemas com drogas. Há histórias sobre roupas íntimas femininas literalmente chovendo de janelas abertas. E havia a Miami da década de 1980.

Ao longo do caminho, Johnson teve cinco filhos, entre os quais Dakota Johnson (da franquia "Cinquenta Tons de Cinza"), ela mesma uma colecionadora recente de aventuras entre as celebridades de primeira linha. Mais recentemente, Johnson passou por uma espécie de renascimento e se transformou de galã em um versátil coadjuvante, especializado em papéis de sujeitos risonhos, mas corruptos em filmes como "Machete" (2010) e "Django Livre" (2012), e em séries de TV como "Eastbound and Down" (2009-2013).

Quando Johnson aceitou o papel de Nash Bridges, ele estava em busca de uma mudança. A despeito das semelhanças estruturais entre a nova série e "Miami Vice", os dois personagens eram muito diferentes. Sonny era atormentado, sombrio, e Nash era otimista e divertido, sempre pronto a soltar uma tirada irônica. Para Johnson, era uma mudança bem-vinda.

"Eu tinha acabado de passar por cinco anos de ‘Miami Vice’, e a série e o personagem foram se tornando mais e mais sombrios", ele disse. "Depois de algum tempo, a sensação era a de que eles estavam tentando transformar Sony em um cara sempre mais desolado e desesperado. E eu estava cansado daquilo".

"Nash Bridges" começou como uma espécie de favor de Johnson ao jornalista e escritor Hunter Thompson, o autor de "Medo e Delírio em Las Vegas", entre outros livros, que era seu vizinho e amigo em Woody Creek, Colorado, na época.

"Um dia, estávamos na casa dele e Hunter me confessou que estava falido", disse Johnson. "E eu tinha um contrato para uma série de 22 episódios na CBS. Acho que eram 3h e eu propus que a gente inventasse alguma coisa e eu conversaria com a CBS para ver se havia jeito de produzi-la".

Eles rascunharam uma ideia sobre dois policiais que estão de licença e são contratados para proteger a mulher de um senador que sofre de síndrome de Tourette. O nome do projeto era "Off Duty". Horas mais tarde, Johnson leu o que os dois tinham escrito.

"Não havia como produzir aquela história", disse Johnson, que seria um dos produtores executivos da nova série. A premissa foi alterada e passou a girar em torno de dois policiais na ativa que, em suas horas de folga, sempre se encrencam com planos mirabolantes para enriquecer rápido. Johnson instruiu os roteiristas a assistirem a "Jejum de Amor" (1940) para entender o tipo de diálogo rápido e engraçado que ele procurava.

"Na gravação dos 12 primeiros episódios, ainda estávamos ajustando o tom da série", ele disse. Thompson terminou escrevendo dois episódios e fazendo uma participação especial não creditada como um pianista em um episódio da primeira temporada.

A série contava com alguns nomes notáveis na equipe de produção. Foi o primeiro programa aprovado por Les Moonves quando ele assumiu o comando da CBS. Cuse, o criador da série, mais tarde seria o showrunner de "Lost". Os roteiristas incluíam Jed Seidel ("Terriers", "Veronica Mars", "Gilmore Girls") e Shawn Ryan, criador de "The Shield".

Damon Lindelof também teve sua primeira oportunidade em "Nash Bridges" antes de se tornar um dos criadores de "Lost" e das aclamadas séries "The Leftovers" e "Watchmen", na HBO. "Antes de ‘Nash Bridges’, eu era secretário dos roteiristas", disse Lindelof. "Dan e Carlton me deram minha primeira grande oportunidade".

A série conquistou grandes audiências por seis temporadas antes de ser cancelada sem muito alarde em 2001 como resultado de uma disputa entre a CBS e a Paramount, uma das produtoras do programa. A coisa toda "me deixou um gosto amargo na boca", disse Johnson.

O novo filme, ele disse, é uma maneira de remediar essa sensação. Johnson sente um grande amor e um senso de proteção com relação ao personagem, a tal ponto que quando os parceiros de negócios dele na Village Roadshow, uma das detentoras dos direitos de "Nash Bridges", o procuraram para propor uma versão repaginada da história, ele não conseguiu imaginar outra pessoa no papel de Nash.

"Quando Michael Mann decidiu transformar ‘Miami Vice’ em filme, ele não me ligou e eu não liguei para ele", disse Johnson. "Mas eu sabia que aquilo era um erro e uma situação impossível para Colin Farrell. Porque todo mundo no planeta me identificava com aquele personagem".

E, é claro, há benefícios financeiros em trazer de volta um produto no qual a produtora de Johnson tem grande participação, o que inclui parte do acervo de 122 episódios da série original.

"Se eu não achasse que existe algo de valor aqui, eu não me envolveria", ele disse. "Mas sem dúvida há um lado de negócios na decisão". Ele espera que o filme possa levar a uma série ou pelo menos a uma sequência de especiais de duas horas de duração.

Na retomada, reencontramos Nash 20 anos mais tarde –ele continua charmoso e ainda em São Francisco. ("Nós éramos donos de São Francisco", recorda Marin sobre a experiência de gravar a série original. "E se você quer ser dono de uma cidade, nenhuma é melhor".)

Nash e o personagem de Marin, o inspetor Joe Dominguez, evoluíram, mas não o suficiente para evitar a perplexidade diante das mudanças que o tempo e a geração milênio causaram no departamento de polícia.

A produção começou em maio, em São Francisco. Os colegas de Johnson se apressam a comentar o quanto ele é divertido e generoso como colega e chefe, e o elogiam pela atenção que conferiu a cada detalhe do filme. "Ele sabe o nome de todos os membros da equipe", disse Marin.

Outros mencionam suas capacidades especiais como a habilidade quase sobrenatural que exibe ao volante. Na maior parte das sequências que mostram atores dirigindo, o carro é posicionado sobre um trailer para que o ator não precise dirigir de verdade; ou às vezes elas são filmadas em estúdio, com telas verdes e imagens projetadas.

A cena de abertura do filme, que mostra Bridges percorrendo Los Angeles em alta velocidade, com o irrequieto Marin no assento do passageiro, foi rodada com Johnson ao volante o tempo todo.

"Ele consegue segurar o carro exatamente a 64 km/h para permitir que o carro da câmera o acompanhe, e ao mesmo tempo dizer dois minutos de diálogo sem erros", disse Greg Beeman, diretor do filme e de alguns episódios da série original. "Já tentei isso depois de ‘Bridges’ e ator nenhum consegue fazer o que ele faz".

O que os colegas não contam são histórias menos lisonjeiras, mesmo que ouvidas em terceira mão ou lidas em jornais sensacionalistas.

Mas Johnson não se incomoda em falar delas. Aquela história sobre ele ter sido mandado para o reformatório aos 12 anos de idade por roubar um carro? "Essa eu provavelmente inventei", ele disse. E aquela sobre cheirar cocaína no banheiro de uma boate em Nova York e encontrar Jimi Hendrix? "Aconteceu em um clube chamado Hippopotamus, em Nova York", ele disse.

Aquelas festas selvagens na casa de Johnson durante a era "Miami Vice", com o U2 e dezenas de modelos? Bem, Johnson não podia sair naquela época. Ele era o cara mais sexy no programa de TV mais assistido do planeta, e por isso a festa o procurava em casa. "O que acontecia por trás de portas fechadas, nem faço ideia", ele disse.

Hoje em dia, a vida de Johnson é muito mais serena. Além de sua esperança por novos filmes sobre Nash Bridges, ele tem planos para fazer um filme para a Netflix e tem outros projetos em preparo, mas prefere não falar a respeito.

Johnson pode escolher o que prefere fazer, "em alguma medida", disse, mas ainda assim gosta de receber convites como aconteceu no caso de "Nash Bridges". "Gosto da ideia de que alguém mencionou meu nome", ele disse. "Gosto da ideia de que alguém me mande um roteiro e diga que ‘queremos Don Johnson nesse projeto’".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem