Em “Prefeito de Kingstown”, Renner interpreta um defensor dos presidiários que tem ligações com os jogadores de poder da cidade

Em 'Prefeito de Kingstown', Renner interpreta um defensor dos presidiários que tem ligações com os jogadores de poder da cidade CBS Divulgação

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The New York Times

Quando sobra tempo para Jeremy Renner –o que recentemente não acontece com frequência–, ele às vezes pensa em por que os criadores de cinema e TV gostam de escalá-lo para papéis de homens durões e emocionalmente desgastados, em busca de redenção.

Deixando de lado seus desempenhos indicados ao Oscar em dramas tensos como "Guerra ao Terror" e "The Town", Renner, 50, suspeita que a tendência de contratá-lo para papéis que ele define como "personagens de molas comprimidas" tem a ver com seu rosto, distintamente áspero.

"Não tenho uma cara Disney", ele disse, com um riso rouco. Quando contempla seu trabalho de longe, ele prosseguiu, "a sensação é a de que aquele cara teve alguma experiência na vida. Passou por dificuldades. Há aspectos homicidas, no rosto dele em repouso".

Mas ainda assim, "se acho que sou capaz de fazer um filme da Disney?", ele acrescentou: "Sim, que diabos. Sou capaz de fazer um filme Disney. Não sou o rei das trevas".

As audiências podem ver essa dualidade em exibição este mês, quando Renner –que não interpreta papéis continuados na TV há mais de uma década– estrela em duas séries bem diferentes em serviços de streaming, que estrearam neste mês.

No dia 14 de novembro, Renner, entrou no ar como o desconsolado Mike McLusky, o protagonista de "Mayor of Kingstown", uma nova série do serviço Paramount+, criada por Taylor Sheridan, um dos responsáveis por "Yellowstone", sobre vidas interconectadas em uma cidade fictícia da região Meio-Oeste dos Estados Unidos que abriga uma prisão.

No dia 24 de novembro, ele retornou ao papel de Clint Barton, o arqueiro brincalhão dos Vingadores, em "Gavião Arqueiro", uma série em seis episódios do serviço de streaming Disney+.

"Gavião Arqueiro" promete o nível elevado de energia que caracteriza as produções Marvel, alternando entre gracejos secos e explosões ruidosas, acompanhados por alguma consequência narrativa. Renner se divertiu especialmente pelo contraste entre a série e "Mayor of Kingstown".

"É diversão leve e doce", ele disse. "Há um lado pesado, não me entenda mal. Mas, em termos comparativos, ‘Mayor of Kingstown’ é uma martelada para o espectador".

Que ele tenha a capacidade de estrelar as duas séries –o fato de que criadores e audiências o aceitem em projetos populares e em projetos pessoais, interpretando homens de ação decididos e homens repletos de conflitos internos– ao mesmo tempo é algo que o intriga e o deixa feliz.

Renner vem seguindo essas trilhas paralelas há muitos, muitos anos, bem antes de disparar sua primeira flecha em um filme da Marvel. Agora, uma combinação de escolhas ecléticas e circunstâncias inesperadas levaram o ator a esse par de projetos de destaque no mundo do streaming –um resultado que ele considera satisfatório, ainda que não saiba exatamente o que isso revela sobre ele ou sobre os acasos de sustentar uma carreira longa em Hollywood.

"Algumas pessoas me conhecem só como o Gavião-Arqueiro", disse Renner. "Outras vão um pouco mais fundo –‘ele interpretou Jeffrey Dahmer, foi indicado a esse ou aquele prêmio, é um ator de verdade’". "Para mim não importa", ele disse. "Qualquer que seja a maneira pela qual as pessoas me veem, é maravilhoso".

Renner falou no final de outubro, por vídeo, de sua casa em Los Angeles, tomando café de uma caneca enfeitada pelas letras TCB –abreviatura de "taking care of business", um dos lemas de Elvis Presley. Ele tinha acabado de rodar "Mayor of Kingstown" poucas semanas antes –trabalho que iniciou assim que concluiu a gravação de "Gavião Arqueiro"– e ainda estava sentindo o impacto dos dois projetos consecutivos.

"Foi sacrificante para mim", disse Renner. "Fiquei sem vida própria, completamente. Estava sempre no set, com o personagem incorporado, ou usando o figurino de uma das duas séries".

Atividade constante é o padrão, para Renner, que além do trabalho como ator se mantém ocupado com projetos de investimento imobiliário, uma coleção de carros e motocicletas, e gravando suas composições musicais.

Mas ele terminou abandonando mais um desses projetos paralelos, o app Jeremy Renner Official, plataforma online para veiculação de notícias, fotos e conteúdo a respeito dele, mas que terminou se tornando alvo de "trolls" de internet. "Ficou mais complicado do que precisava ser, em minha vida", explicou Renner. "Ainda tenho orgulho da ideia de dedicar mais tempo aos grandes fãs, e vontade de fazê-lo. Mas não tenho mais tempo ou capacidade de cuidar disso".

Ele era igualmente frenético em seus primeiros dias como ator de teatro, quando alternava entre interpretar o Espantalho em uma produção de "O Mágico de Oz" pelo Modesto Junior College, diversos papéis em "Orphans", um thriller brutal de Lyle Kessler, e um adolescente suicida na versão para teatro de "Gente como a Gente".

Quando ele começou a tentar encontrar espaço no cinema e na televisão, ainda assim relutava em contemplar quais seriam seus papéis ideais –porque não sabia se teria qualquer papel. "Uns 10 ou 15 anos atrás, lembro-me de pensar que seria bacana interpretar um caubói em um western", ele disse. "Ou que seria bacana fazer ficção científica. Mas isso é uma coisa de ego. Não passa de palavras".

Não demorou para que ele realizasse todos esses sonhos, no entanto, apresentando desempenhos memoráveis em filmes como "Extermínio 2" e "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford".

Quando a Marvel começou a pensar nele para o papel do Gavião Arqueiro, Renner vinha em maré de alta, com o sucesso de "The Town", um thriller sobre crime ambientado em Boston, e de "Guerra ao Terror", um drama repleto de ansiedade sobre a Guerra do Iraque, e o estúdio acreditava que ele tivesse a capacidade de trazer uma dose de realismo ao elenco, para contrastar com personagens fantásticos como o Capitão América, o Homem de Ferro e Thor.

Kevin Feige, presidente do Marvel Studios, disse que Renner foi escolhido para oferecer "o elemento humano dos Vingadores –o sujeito comum que se fere, se machuca, não é capaz de voar e ainda assim corre para a batalha na companhia dos demais heróis".

Ele acrescentou que "precisávamos de um herói que fosse capaz de manter os pés no chão a despeito da insanidade que o cerca, e de manter um senso de humor irônico ao fazer tudo isso".

Renner aceitou o papel e o compromisso de diversos anos de duração que ele implicava, grato porque isso lhe oferecia a oportunidade de ser mais seletivo nos demais papéis que aceitasse, além da Marvel. "Pude fazer escolhas muito específicas, escolhas mais fáceis", ele disse. "Não preciso fazer filmes de grande orçamento. Posso fazer só o que tenha sentido para mim".

Ele admite alguma frustração com o primeiro filme dos Vingadores, no qual o Gavião Arqueiro passou a maior parte da história sendo um vilão involuntário, sob o efeito de um feitiço do nefário Loki. Renner disse que se sentiu como "apenas uma pecinha da engrenagem". Mas as continuações, que tratavam do amor de Clint Barton por sua família e de seu desejo de vingança quando a existência dela é apagada, satisfizeram o desejo do ator por um personagem mais completo.

Em nossa conversa, Renner falou mais de uma vez sobre como tinha sido sacrificado saltar direto de "Gavião Arqueiro" (filmado em Nova York e Atlanta) para "Mayor of Kingstown" (filmado em Toronto e Kingston, Canadá), e que ele não teria conseguido encarar o trabalho se não tivesse podido levar com ele para as filmagens sua filha Ava, 8. (Renner divide a guarda de Ava com sua ex-mulher, a modelo e atriz Sonni Pacheco, com quem ele teve algumas disputas judiciais agudas ao longo dos anos.)

Em 2017, Renner estrelou em "Wind River", um thriller com jeito de western contemporâneo. O filme foi escrito e dirigido por Sheridan, ator transformado em roteirista ("Sicario: Terra de Ninguém", "A Qualquer Custo") e, durante a produção, ele e Renner descobriram ter muitas preferências em comum. Quando a Paramount escalou Sheridan para produzir mais conteúdo para seu serviço de streaming, ele saiu em busca de Renner para estrelar "Mayor of Kingstown". (Sheridan é um dos criadores da série, em parceria com Hugh Dillon, que também faz parte do elenco.)

"Em última análise, eu faço filmes de ação cabeça", disse Sheridan. O que faço é ‘Matador de Aluguel’ com mensagem. Preciso de alguém que tenha o lado físico, que tenha a intensidade, mas também a vulnerabilidade".

Sheridan acrescentou que "meus personagens começam machucados e se curam, e isso às vezes lhes confere uma tristeza íntima".

Em "Mayor of Kingstown", o personagem de Renner, McLusky, trabalha com seu irmão Mitch (Kyle Chandler) como intermediário entre os funcionários da prisão, os detentos e suas famílias, o que lhe oferece acesso incomum aos sistemas de poder entrelaçados da cidade. "Para poder defender realmente as causas dos mais fracos, é preciso manter relacionamentos com as pessoas que os controlam", explicou Sheridan. "É preciso manter relacionamentos com os mafiosos, com os juízes, com a polícia".

Renner disse que o que o atraiu à série foi seu comentário sobre o sistema penal americano e o setor de penitenciárias operadas como empresas privadas. Ele disse que apreciava a oportunidade de interpretar um personagem como McLusky, que pode aparentar ter alguma dose de controle sobre Kingstown mas na verdade vive à mercê de forças maiores do que ele.

"Ele está lá para servir como a voz da razão –ou pelo menos da razoabilidade – e depois precisa começar a limpar os estragos cometidos pelas pessoas que detêm o poder final", disse Renner.

Antes de filmar "Mayor of Kingstown", Renner já tinha assinado para "Gavião Arqueiro", uma minissérie em seis episódios que surgiu do projeto de um filme da Marvel especificamente sobre o personagem.

"Gavião Arqueiro", que se inspira em alguma medida em uma sequência inventiva de quadrinhos de autoria do escritor Matt Fraction, com ilustrações de artistas como David Aja, se passa primariamente depois dos eventos narrados em "Vingadores: Ultimato", grande sucesso de 2019. A série se concentra na parceria implausível que se desenvolve entre Barton e Kate Bishop (Hailee Steinfeld), uma jovem que ocupa posição central em um mistério na alta sociedade e que ele relutantemente aceita como aprendiz.

Steinfeld disse que Renner se mostrou compreensivo com a falta de experiência dela nas produções de grande orçamento da Marvel. Em uma das primeiras conversas entre eles, Steinfeld diz que lhe fez uma pergunta ingênua sobre arco e flecha. "Olha, você vai ter de me ensinar uma coisa ou duas, foi o que eu disse a ele, e ele riu e respondeu que eu não precisaria disparar flecha nenhuma e que tudo isso seria feito por computação gráfica".

Steinfeld estava trabalhando na temporada final de "Dickinson", sua série na Apple TV+, e diz que foi reconfortante trabalhar em companhia de Renner, que, exatamente como ela, estava batalhando para gravar duas séries sem pausa.

"Estamos aqui, e precisamos estar completamente aqui e agora, não temos escolha", ela disse. "Mas em algum momento você precisa começar a preparar a cabeça para o próximo trabalho. Em que momento viramos a chave, mentalmente. É bem complicado, e é bom estar com alguém que esteja passando por algo semelhante".

Emma Laird, que está no elenco de "Mayor of Kingstown", disse que às vezes trabalho de Renner na série é muito sacrificado emocionalmente. Ela apontou para o fato de que, apesar de seus anos de trabalho em filmes Marvel, repletos de efeitos especiais, Renner ainda tem uma conexão firme com seus colegas de elenco humanos.

"Houve uma cena em que ele estava me abraçando e, entre as cenas, ele simplesmente me deu um tapinha no ombro, para indicar que estava lá para mim", disse Laird. "Significou muito para mim. Se aquilo com que você mais contracena é uma bola de tênis, é fácil para um ator pensar, bem, não estou nem aí. Mas ele me apoiou em muita coisa, quando não tinha a obrigação de fazê-lo".

Entre suas duas séries novas, Renner imagina que "Gavião Arqueiro" será a mais "reluzente", mas também disse que espera que a aparência sombria de "Mayor of Kingstown" não leve os espectadores a desistir de assisti-la.

"Sempre hesito em dizer que alguma coisa é escura, sóbria, lúgubre", ele afirmou. "Soa deprimente e as pessoas perdem a vontade de assistir. Não estamos pedindo que as pessoas se interessem pelo lado áspero –mas sim pela esperança dos personagens que tentam escapar daquele lugar ou melhorá-lo. É muito bonito de se ver, na verdade".

Ele estava confiante em que haverá novas temporadas de "Mayor of Kingstown" em seu futuro e que, não importa o que aconteça com "Gavião Arqueiro", ele com certeza voltará a interpretar Clint Barton.

"Acho que consigo continuar a fazer o papel por mais uma década", disse Renner. "Enquanto o maldito uniforme ainda servir". Quanto a atuar, em termos mais amplos, ele disse que "é algo que vou fazer enquanto houver alguém que queira me ver atuando".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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