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Laura Zornosa
The New York Times

Atenção: Este texto contém spoiler do terceiro episódio da versão repaginada de "Gossip Girl".

Nós o ouvimos antes de vê-lo atravessar a tela: Aaron uiva, e em seguida late e galopa, de quatro, para o palco de arena branco, cercado em três lados pela audiência. Aquele homem enraivecido —filho de Aaron, o Mouro, de “Tito Andrônico”—, está completamente nu e coberto de sangue.

“O quê? O quê? Não lhes cheguei como presumiam chegaria? Como um cão negro, como diz o refrão?”, ele indaga, arfando e farejando, e gritando na cara dos espectadores sentados no teatro. Ele recua lentamente. “Vocês sabem quem sou, ceeeerto”?, Aaron rosna. “O cão inumano. O escravo herege”.

Essa cena intensa de uma peça vista dentro de uma série de TV atraiu a atenção dos espectadores no terceiro episódio da versão repaginada de “Gossip Girl”, na HBO Max. E tudo por cortesia do dramaturgo Jeremy O. Harris, candidato ao prêmio Tony pela peça “Slave Play”.

Pouco depois que o episódio foi lançado, porém, as pessoas começaram a especular nas mídias sociais se a peça era ou não real. Recentemente, Harris confirmou em um tuite que “The Bloody and Lamentable Tale of Aaron” é de fato uma peça real.

Depois de uma conversa com o criador da série, Joshua Safran (“Smash”, “Soundtrack”), ele começou a escrever, para um episódio de “Gossip Girl”, uma cena de uma peça que havia sonhado encenar no Public Theater.

Depois de ver a cena de abertura da peça durante a gravação, Oskar Eustis, diretor artístico do Public Theater —que participa do episódio no papel de espectador— procurou Harris e perguntou se ele não gostaria de montar a peça no teatro. Harris diz que o contrato estava assinado um dia mais tarde.

“Eu sonhei a existência dessa peça”, disse Harris em uma entrevista. Ele vinha pensando a respeito dela há sete anos, desde que começou a estudar “Tito Andrônico”, sua favorita entre as peças de Shakespeare.

“Tito Andrônico”, que é vista como a primeira tragédia de Shakespeare, conta a história sangrenta da queda do general romano Tito. Ele retorna ao lar, da guerra, trazendo Tamora, rainha dos godos, como prisioneira para o imperador romano. O amante dela, Aaron, o Mouro, os acompanha.

Tamora dá à luz uma criança, filha de Aaron, que em seguida mata a criada para manter a raça do menino em segredo, e foge com ele para salvá-lo do imperador. Mas Lúcio, filho de Tito, captura Aaron e ameaça matar a criança.

Para salvar o filho, Aaron confessa um plano de vingança. Lúcio, mais tarde proclamado imperador, ordena que Aaron seja enterrado até o peito, e deixado para morrer. Mas o bebê sobrevive.

A peça de Harris toma a história do ponto em que Shakespeare a deixou. Encontramos Aaron (interpretado por Paul James no episódio de “Gossip Girl”) já na casa dos 20 anos. Ironicamente, quem o criou foi Lúcio Andrônico, que está na casa dos 60 anos. E Aaron está sedento de vingança.

“O que torna Aaron um personagem complexo na literatura é que aquilo que se ouve sobre ele é que é mau por ser negro”, disse Harris sobre a peça de Shakespeare. “Mas agora, ele diz, não, sou mau porque vocês é que me socializaram assim. Socializaram regras em torno do que significa ser negro, e do que significa ser másculo”.

Quando surgiu a oportunidade de gravar a cena no Public Theater, Harris sabia duas coisas. Ele queria fazer uma cena de Aaron. E queria que a diretora fosse Machel Ross, que também dirigiu sua peça “Black Exhibition”, no teatro Bushwick Starr, em 2019.

Lila Feinberg escreveu e Jennifer Lynch dirigiu o episódio de “Gossip Girl”, no qual diversos personagens tentam determinar como compreender a desafiadora obra. “Amei, mas transferi-la seria cometer seppuku [o ritual do suicídio] teatral”, resmunga um crítico de teatro a um colega, na festa pós-peça.

O outro responde: “A temporada mal duraria uma semana, especialmente sem astros. Se pelo menos o texto não fosse tão confrontador”.

Ross disse em entrevista que ela “sabia que o texto evocava uma forma de confronto muito específica entre a audiência e o artista”. Como é que eles conseguiriam colocar o elenco e universo de “Gossip Girl” na peça desde o momento em que começa, ela tentou imaginar. A resposta: Paul James, nu.

“E eu pensei que eu teria de me sentir bem confortável, e de fazer com que as outras pessoas se sentissem desconfortáveis, e dominar o palco, ser muito físico”, disse James em entrevista.

Harris descreveu a peça a Safran, criador e showrunner da série, como o pior pesadelo para uma audiência: um homem negro e nu, coberto de sangue, se aproximando dos espectadores e pedindo que o tocassem.

Era uma ideia de confronto, com a qual Zoya Lott, um dos personagens da série, recém-chegada ao mundo do glamour e luxo descrito em “Gossip Girl”, seria capaz de se identificar.

“Você está de brincadeira? Uma peça provocante como ‘Aaron’ é exatamente o que a Broadway precisa depois de um ano de pausa”, dispara Zoya (Whitney Peak) na direção dos resmungões.

“O que não é preciso é mais uma revisão de qualquer coisa, especialmente desenvolvida por gente branca, sobre gente branca e estrelada por gente branca”. “É por isso que o teatro foi inventado, certo? Para desafiar os espectadores a pensar além de suas narrativas. Vocês nunca leram Shange? Albee? Fornés?”

Sobre esse diálogo, Safran disse em entrevista que “é isso que Zoya tem em mente ao ingressar no mundo daquelas pessoas. Posso falar o que penso, ou preciso ficar na minha caixinha e só observar?”

Na série, Harris entra na sala, interpretando a si mesmo. “Ei, quem é você”?, ele pergunta a Zoya. “Você certamente parece alguém, na minha opinião. Vamos encontrar um espaço menos confrontador e conversar”, ele diz.

“Zoya é uma das poucas pessoas que pode observar o mundo deles, processar o que vê e dar às coisas o nome que elas de fato têm”, disse Harris. “E ela causa um pouco de desordem no caminho ao fazê-lo”.

Harris vai voltar a interpretar a si mesmo na série, na segunda metade da primeira temporada, no episódio 10, como uma espécie de fada madrinha de Zoya. Quanto à situação da peça? “Acho que vai estar pronta quando estiver pronta”, disse Harris.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci. 

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