O ator Jason Sudeikis NYT

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Jeremy Egner
The New York Times

Jason Sudeikis estava levando o lixo para fora quando descobriu que “Ted Lasso” tinha encontrado uma audiência, no final do ano passado. “Melhor dizer reciclando”, ele corrigiu em uma entrevista recente. “Provavelmente é melhor para minha marca dizer reciclando”.

O que quer que fosse, foi a primeira vez que uma pessoa o parou para dizer o quanto gostava da série. Talvez você tenha passado por uma experiência semelhante, durante sua quarentena, ou em alguma interação acidental na mídia social em que uma pessoa disse: “Sabe que aquela série baseada nos velhos comerciais de futebol é muito boa? Especialmente em um momento como este”.

“É o tipo de série de que a gente precisa agora” se tornou um dos motes que define a ascensão de “Ted Lasso” como um dos sucessos inesperados da televisão em 2020. É um programa leve e sentimental que Sudeikis estrela como o ensolarado treinador americano de futebol, dotado de um bigode invejável, que por uma dessas coincidências que só acontecem em filmes sobre esportes termina contratado para comandar um time fracassado da Premier League inglesa.

Recorrendo a muita positividade e a uma coleção de aforismas caseiros —“vestiários são como o maiô da minha mãe: todos os problemas precisam ficar cobertos”—, o técnico novato transforma um bando desorientado de veteranos céticos em, se não vencedores, pelo menos uma família coesa e confiante de atletas.

O personagem surgiu em 2013 em uma série de comerciais para a NBC Sports criados por Sudeikis e dois velhos amigos da época do humor improvisado, Brendan Hunt e Joe Kelly, agora produtores executivos da série (Hunt também estrela como Beard, o assistente de Lasso). Os comerciais eram inteligentes, e os personagens eram divertidos.

Mas ao chegar em forma de série à Apple TV+, em agosto de 2020, em meio à pandemia do coronavírus, a uma campanha presidencial amargamente divisiva e a uma temporada de violência policial e protestos pela justiça racial nas ruas dos Estados Unidos, Ted Lasso, um sujeito profundamente decente e sempre otimista, serviu como uma espécie de bálsamo cultural.

“Foi como se Sudeikis tivesse previsto o caos e o terror da metade de 2020 e quisesse provar que os Estados Unidos eram capazes de fazer algo de certo”, escreveu Mike Hasle, crítico do The New York Times, em sua resenha sobre a série.

Sentimentos semelhantes foram expressados por muita gente, e a série repetiu a trajetória de seu protagonista, conquistando as pessoas com seu charme e uma profundidade emocional surpreendente, por sob o exterior trapalhão.

Este ano trouxe as recompensas que costumam surgir quando a série certa chega na hora certa; Sudeikis ficou com o Globo de Ouro como ator e a série conquistou um Peabody Award. Na semana passada, ela recebeu 20 indicações ao Emmy, o maior número conquistado por uma série de humor este ano, entre os quais indicações como melhor série e melhor ator de comédia (Sudeikis).

“Ted Lasso” voltou no dia 23 de julho para uma segunda temporada com 12 episódios. E o contrato para a terceira já foi assinado. Os novos episódios encontram Lasso e seus amigos (interpretados por um elenco de indicados ao Emmy, com Hannah Waddingham, Brett Goldstein, Nick Mohammed, Jeremy Swift e Juno Temple, entre outros) encarando o desastre do rebaixamento do time na temporada passada e lidando com a chegada de uma terapeuta esportiva interpretada por Sarah Niles.

Mas os tempos mudaram, agora. Diferentemente de outros sucessos da era da pandemia, como “O Gambito da Rainha” (Netflix, 2020), “Ted Lasso” terá de descobrir em que medida seu sucesso se deveu a uma audiência cativa e que sentia necessidade de ser consolada. Os espectadores vão continuar a curtir uma visão ensolarada da vida agora que estão menos deprimidos?

Em uma conversa por vídeo, Sudeikis, Hunt e outro dos criadores da série, o veterano das sitcoms Bill Lawrence (“Scrubs”, “Spin City”) discutiram esse e outros tópicos, entre os quais a expectativa deles sobre a duração de “Ted Lasso” e a figura pública com jeito de “vilão de Batman” que deu relevância adicional à série. Abaixo, trechos editados da conversa.

A série estreou na metade do ano passado, mas os espectadores demoraram um pouco para encontrá-la. Quando vocês perceberam que ela estava pegando?
Sudeikis:
Em Londres, estávamos em lockdown. Percebi só quando voltei a Brooklyn e fui a um jogo do Nets com meu filho, e ouvi gente dizendo “yo, amo a série”. Eles me mostraram-no telão, com um vídeo de Ted colando um cartaz que diz “acredite”, e aí percebi que, é, as pessoas estavam vendo a série.

Lawrence: Minha coisa favorita sobre a estreia da série foi procurar por “Ted Lasso” na mídia social e encontrar mensagens de pessoas dizendo que “nem acredito que a série é mesmo boa”, ou “essa série não é uma porcaria completa”.

Hunt: Bem-vindo ao Museu Bill Lawrence de Expectativas Baixas!

As expectativas eram baixas em toda parte, em parte graças a séries anteriores baseadas em comerciais, como “Cavemen”, da Geico. Como é que vocês transformaram aqueles comerciais da NBC em série?
Sudeikis:
O segundo comercial revelou um elemento chave do personagem: seu entusiasmo e otimismo. Ele se apaixona pelo futebol; se apaixona por Londres. E era divertido interpretá-lo, e divertido trabalhar com Brendan, como Ted e seu assistente, ao qual demos o inteligente nome de “coach Beard” [treinador barba].

Por isso, Brendan, Joe e eu pensamos que, se fôssemos fazer uma terceira coisa com esses personagens, o que seria? Um comercial? Um filme? Nós propusemos um monte de histórias; usamos a versão britânica de “The Office” como modelo e delineamos um piloto e ideias para episódios de primeira e segunda temporada. E essa ideia ficou adormecida por três anos. E aí o universo acrescentou Bill Lawrence à receita e ele fez a coisa toda acontecer.

O que os convenceu de que o personagem e o conceito eram capazes de sustentar uma história mais longa?
Sudeikis:
O tema e tom da coisa eram algo que eu tinha em minha cabeça. Eu não queria uma daquelas histórias em que um cara escroto se torna santo; Ricky Gervais já tinha ocupado esse território como David Brent. E por isso pensei que talvez eu devesse interpretar um cara que é bom sujeito desde o começo.

O que Bill e eu discutimos antes de apresentar a proposta era a antítese daquele coquetel de um cara humano, mas ao mesmo tempo ignorante e arrogante, aliás exatamente como o sujeito que havia se tornado presidente dos Estados Unidos, se bem que em versão vilão do Batman, bem naquela época.

Mas e se tivéssemos um cara ignorante que fosse curioso de verdade? Quando alguém usasse uma palavra difícil em uma reunião, como “vernáculo”, ele não fingiria que sabia o que ela quer dizer, mas interromperia para perguntar: “Mas o que isso quer dizer?”

E também a ideia de dizer “por favor” e “obrigado” --lembro-me de segurar a porta para as pessoas, quando fui contratado em “Saturday Night Live”, e elas paravam e ficavam me olhando, achando que eu fosse lhes dar um tapa na bunda ou algo assim. Isso foi sempre engraçado para mim, e a ideia da série teve como base essas observações sobre o que estava acontecendo na sociedade, em nosso discurso, e com os bons modos, tudo isso junto.

Mas vocês também tratam de coisas mais sombrias que Ted enfrenta, como ataques de pânico. Por que isso era importante para você?
Sudeikis:
Era preciso olhar para trás, porque, se vou interpretar um cara legal em uma certa idade, um cara casado, por que ele aceitaria aquele emprego? Bem, as coisas não podem ir muito bem em casa. Foi sempre uma questão de como revelar.

Vou estragar uma citação de Mark Twain, mas a vida de cada pessoa é uma comédia, um drama e uma tragédia. Por isso tínhamos de honrar os dois outros elementos, porque a parte de comédia já estava incorporada à premissa do peixe fora da água, do idiota desavisado que não faz ideia do que está fazendo. E no bigode, claro.

Mas Ted tem mais profundidade do que aparenta, e o mesmo se aplica aos demais personagens. A ex-mulher amargurada que o contrata para arruinar o time favorito do ex-marido, o influenciador cabeça oca, o atleta arrogante —quase todo mundo incorpora um estereótipo que termina subvertido.
Lawrence:
Seria fácil decidir que “essa personagem feminina é a vilã clássica. Ela quer destruir o time. É uma megera”. Mas nós queríamos mostrar o que a levou a isso, o abuso emocional que ela sofreu. Vamos levá-la a uma encruzilhada, e vamos contar que os espectadores torçam para que ela faça a escolha certa.

O que essa série teve de maravilhoso, para mim, como um cara que já fez muita TV, é que cada roteirista era capaz de relatar a jornada completa de cada personagem antes mesmo de começarmos a escrever a segunda temporada.

Se a história já está mapeada, quantas temporadas ela vai durar?
Lawrence:
Agora é hora de brigar. A resposta fácil é oito.

Hunt: Está no The New York Times! Agora é fato!

Sudeikis: Foi concebida como uma estrutura em três atos. Tivemos sorte por o primeiro ato fazer sucesso. E pelas boas graças e bolsos fundos da Apple, que evidentemente faz mais do que televisão, poderemos contar essa história até o fim.

Lawrence: Mesmo que eu brinque a respeito, essa história específica de Ted Lasso e as pessoas que o cercam vai terminar no fim da terceira temporada. Depois, se houver outra história a contar, teremos uma nova história a contar.

Hunt: O elemento da fórmula que nunca poderíamos ter calculado é o grau de apreciação das pessoas pela série. Fomos todos pegos de surpresa por isso. Portanto, veremos.

Um dos temas que cercam a primeira temporada é a ideia de que “essa é a série de que precisamos agora”. Quase um ano depois, as coisas melhoraram, de muitas maneiras. Vocês acham que isso pode mudar a maneira pela qual a segunda temporada será recebida?
Lawrence:
Houve uma resposta à cultura tóxica e cínica que temos por aí, especialmente na mídia social, no discurso político, na forma pela qual as pessoas falam umas com as outras. Não acho que isso tenha sido resolvido, a menos que isso tenha acontecido durante o final de semana quando eu não estava prestando atenção. Por isso acredito que “Ted Lasso” esteja ecoando.

Sudeikis: Na verdade, a quarentena removeu o ruído das outras opções que as pessoas tinham em suas vidas. “Não consigo ver ‘O Gambito da Rainha’ de novo. Acho que vou assistir a essa série idiota sobre futebol”.

Hunt: Foi nosso slogan por algum tempo. “’Ted Lasso’: porque ‘O Gambito da Rainha’ vai acabar”.

Vocês cuidaram para evitar o sentimentalismo, se não barato mas no mínimo não justificado?
Lawrence:
Foi curioso ver “Ted Lasso” definido como uma “lavagem intestinal de otimismo via televisor”. A série é sobre um cara cuja mulher não o quer mais, e sofre ataques de pânico severos. Um jogador arrogante, mas com um pai abusivo. Uma mulher que sofreu abusos emocionais do marido e foi abandonada. E aí a descrição era a de que “essa é a série mais positiva que você já viu!” Evitar a tentação dos abraços e da celebração não foi assim tão difícil.

Sudeikis: Um dos temas é que existe o mal –“bullies”, masculinidade tóxica, narcisistas malignos – e não há como destruí-lo. O que importa é como lidar com essas coisas. É aí que a positividade e algumas das lições se aplicam; temos de controlar aquilo que é possível controlar.

Fizemos a primeira temporada dentro de uma bolha, e escrevemos as histórias para a segunda temporada também na bolha, antes que a série fosse lançada. A história não mudou em nada por conta do sucesso. Mas creio que a terceira temporada vá ser um pesadelo; só clichês otimistas. Aposto que tudo vai até rimar.

Hunt: É bacana que as pessoas considerem a série inspiradora, mas nossa intenção era só fazer comédia. E continuamos a ter a mesma intenção. Se tentássemos deliberadamente ser inspiradores, provavelmente não conseguiríamos.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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