Cena da animação

Cena da animação "Luca", da Pixar, dirigida por Enrico Casarosa Divulgação

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Laura Zornosa
The New York Times

Em um pequeno barco de pesca nas águas cintilantemente azuis do Mediterrâneo, os olhos de Alberto Scorfano pousam por alguns segundos no braço direito de Massimo Marcovaldo, que não se estende muito além do ombro. Massimo o apanha olhando, e os olhos de Alberto se arregalam. Massimo volta o olhar na direção da manga de sua camisa, presa com um anzol de pesca.

“Foi comido por um monstro marinho”, ele resmunga. “Hein? O quê?”, Alberto pergunta, boquiaberto. Massimo relaxa e ri. “Ma, não. Foi assim que vim ao mundo”. Ele recolhe a rede de pesca, segura um pedaço errante de madeira entre os dentes e o remove da rede com o braço esquerdo. “Uau”, exclama Alberto.

A cena, que acontece mais ou menos na metade de “Luca”, o mais recente filme da Pixar, disponível no serviço de streaming Disney+, opta por retratar um personagem que tem um braço diferente –o que é uma raridade– e faz dessa diferença uma das características que o definem.

Passado em Portorosso, uma cidade costeira fictícia da Riviera italiana, o filme de animação conta a história de Luca Paguro (Jacob Tremblay) e Alberto (Jack Dylan Grazer), dois jovens monstros marinhos que estão explorando o mundo humano.

Em Portorosso, Luca e Alberto conhecem Giulia (Emma Berman), uma ruiva desajustada que está determinada a vencer a prova anual de triatlo da cidade.

É aí que surge Massimo (Marco Barricelli) –o pai solteiro de Giulia–, um pescador imponente que canta junto com as árias que tocam no rádio enquanto limpa peixes para o jantar. À primeira vista, sua estatura e os arpões de pesca que ele carrega intimidam muito os dois meninos. Depois da cena no barco, porém, a maré começa a virar: Luca e Alberto começam a conquistar um lugar no grande coração de Massimo.

Desde o lançamento do filme, no mês passado, a internet vem aplaudindo o personagem Massimo por retratar com muito realismo uma pessoa portadora de um braço diferente. Os realizadores disseram que a decisão de que o pescador havia nascido com um só braço foi muito deliberada.

“Nós realmente pensamos muito sobre como criar uma representação fiel ao lugar e à era”, disse Enrico Casarosa, o diretor do filme. “E por isso, quando surgiu a ideia de Massimo, nós a acatamos muito rápido”.

O filme se passa na Itália do pós-guerra, onde Casarosa passou a infância, e originalmente o diretor imaginou que Massimo, que toma por modelo o jornalista italiano antifascista Italo Calvino, tivesse combatido na resistência de seu país durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez fosse esse o motivo da perda de um braço, imaginou Casarosa.

Ou talvez ele tivesse nascido assim. Ao contemplar os detalhes do personagem, a equipe de “Luca”, que inclui Casarosa e a produtora Andrea Warren, decidiu consultar o documentarista Jim LeBrecht, um ativista pelos direitos dos deficientes físicos.

“Foi uma conversa realmente substanciosa”, disse LeBrecht, um dos diretores de “Crip Camp”, documentário indicado ao Oscar e lançado no ano passado.

Juntos, eles chegaram à conclusão de que o diálogo “foi assim que eu vim ao mundo” parecia a solução certa. Como Luca e Alberto, Massimo nasceu diferente. O pescador lidou habilidosamente com sua deficiência a vida inteira, e nunca deixou de ser uma parte amada, respeitada e vital de sua comunidade.

“Vamos deixar para trás as histórias trágicas, os velhos clichês, de que uma pessoa deficiente só pode estar em uma história se esta estiver centrada em sua deficiência”, disse LeBrecht. “E vamos fazer o que fizemos por outras comunidades marginalizadas ao longo dos anos e dizer, ‘veja, somos parte da comunidade’”.

LeBrecht nasceu com espinha bífida, um problema que afeta o cordão espinhal, e hoje se movimenta em cadeira de rodas. “Crip Camp” acompanha sua trajetória e a de outros frequentadores do acampamento de verão em Camp Jened, no interior do estado de Nova York, criado para receber adolescentes deficientes físicos, em sua luta por leis que garantam o acesso dos deficientes a espaços públicos, anos mais tarde.

Cenas do filme "Luca", da Pixar - Divulgação

“Jim nos contou muitas histórias difíceis sobre as reações de pessoas à sua presença física e sobre perguntas de crianças”, disse “Mas também há interações com crianças que parecem estar tentando imaginar sua situação”.

As histórias ajudaram a dar forma à resposta de Massimo quando Alberto reage à sua deficiência. E não representam uma experiência incomum, para os portadores de membros diferenciados.

Sheriauna Haase, 14, viu “Luca” no dia em que o filme foi lançado, durante uma visita às Cataratas do Niagara com sua família, no Dia dos Pais. Os dois irmãos dela, de quatro e cinco anos, estavam insistindo o dia inteiro em assistir ao filme.

Haase, que está na segunda série do segundo grau e é dançarina, nasceu sem a mão esquerda. Ela reparou imediatamente na cena no barco de pesca, e riu com o diálogo do “foi comido por um monstro marinho”. Ela às vezes experimenta dar respostas inusitadas para a pergunta “o que aconteceu com seu braço?”.

Haase disse que “se pessoas estão encarando, eu às vezes digo que fui atacada por um tubarão, um tubarão comeu meu braço”, disse Haase. “Mas depois me sinto mal, porque a expressão das pessoas é de muito choque e susto. Como se elas lamentassem muito por mim. E eu logo acrescentou que é brincadeira, e que nasci assim”.

A representação importa para Haase. E já que há quase dois milhões de pessoas vivendo sem um dos membros, nos Estados Unidos, Hollywood começa a prestar atenção. Mas há uma linha sutil entre uma representação orgânica e maneiras forçadas de fazê-lo, como explica Warren, a produtora de “Luca”.

“Não podemos ticar a lista toda em cada filme”, ela disse. “É preciso autenticidade para que a coisa tenha significado. Aquela conexão e reconhecimento não vão acontecer se o personagem parecer ter sido adicionado só para marcar presença, um elemento incluído na história meio que à força”.

Mas a autenticidade retratada em filmes como “Luca” só acontece quando pessoas das comunidades representadas também estão trabalhando por trás das câmeras. LeBrecht ouve a cada semana histórias da e sobre a comunidade dos deficientes físicos, e muitas delas poderiam servir de base a filmes empolgantes para a TV e cinema.

“A indústria tem de aplicar à comunidade dos deficientes os mesmos esforços de diversidade e inclusão que adota para outras comunidades marginalizadas”, disse LeBrecht. “Não é um favor. Não é caridade. É um bom negócio”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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