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Taylour Paige revela que filme 'Zola' a ajudou a entender sua personalidade

'Ainda sou um ser humano tentando entender como me comportar'

A atriz Taylour Paige - NYT
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Candice Frederick
The New York Times

De acordo com sua própria estimativa, Taylour Paige tem cerca de 48 vozes dentro dela prontas para qualquer situação. “Tenho uma voz de tia, uma voz de aluna educada de escola branca, minha escola de segundo grau”, começa, em conversa por vídeo da Bulgária, onde está filmando “The Toxic Avenger”.

Antes que possa prosseguir, uma dessas vozes interfere para um esclarecimento. “Quando digo ‘educada de escola branca’ não quero dizer que ser branco é ser educado. Estou dizendo que estudei em uma escola muito branca. Convivi com muita gente branca, e essa é uma voz”.

E depois há a voz que observava seus amigos brancos fazendo loucuras, “aquela voz com que eu digo ‘não acredito nisso! Vocês brancos são todos malucos’”.

A capacidade de alternar códigos –ou de “assimilar para sobreviver”, na descrição da atriz– veio a calhar em seu retrato da personagem título em “Zola”, a nova comédia dramática da diretora Janicza Bravo.

No filme, inspirado pela conta de Twitter da verdadeira Zola, que virou sucesso viral, Paige interpreta uma stripper que não demora a fazer amizade com Stefani (Riley Keough), uma stripper branca que usa um penteado em trancinhas e fala com inflexões negras.

“Acho que Zola pensou que era legal ter uma nova amiga”, disse Paige. “E elas duas trabalhavam na mesma coisa”.

Mas quando Stefani leva Zola para a Flórida para tentarem ganhar mais dinheiro dançando, as coisas escapam perigosamente ao controle da segunda. Há um esquema de prostituição, um cafetão alucinado (Colman Domingo) e outras transações escusas.

Zola tenta sobreviver a essas circunstâncias cada vez mais caóticas e ao mesmo tempo expõe à audiência seu diálogo interior sobre o quanto tudo aquilo é perturbador. “Acho que em última análise a tragédia do filme é que existe uma traição”, disse a atriz, em referência à suposta amiga de Zola que arma contra ela.

Paige agora é conhecida como atriz (seus créditos no cinema incluem “Ma Rainey’s Black Bottom”), mas em sua adolescência em Inglewood, Califórnia, ela dançou sob a tutela de Debbie Allen, e mais tarde trabalhou como cheerleader do Los Angeles Lakers.

Ela pensa nesses anos em que era uma jovem lutando contra a “a autodepreciação geracional”, de modo mais compassivo, agora. “Porque eu me perdoei, estou disponível de um modo diferente para os papéis que sempre quis. Antes eu fazia audições para ver se aprovavam minha personalidade, além de fazer a audição para um papel. Ou seja, todo mundo estava mentindo”.

Paige falou sobre “Zola” e sobre como o filme a ajudou a chegar a um entendimento com sua personalidade real. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Desde o ano passado, você apareceu em diversos filmes “Ma Rainey’s Black Bottom”, “Boogie” e agora “Zola”. Qual é a sensação de ser uma legítima estrela de cinema?
Ainda sou um ser humano tentando entender como me comportar dia a dia. Tento viver minha verdade nas histórias que conto, em minha vida e em minha espiritualidade. Não há solavancos no processo do que estou tentando aprender como ser humano.

Quando me dizem que me tornei um sucesso, minha reação é “tudo bem, mas o que esperam de mim? O que esperam das mulheres negras?” Quero ser uma ponte para o que acontece quando você mantém o foco, a paciência, a gentileza, e diz a verdade.

De onde vem sua espiritualidade?
Sempre saí em busca de alguma coisa, sempre filosofei e sempre gostei de pensar profundamente. Pensar em "o que estou fazendo aqui?" Desde que tinha cinco anos de idade, penso na morte e na existência. Nasci quando minha mãe tinha quase 40 anos e por isso ela é de uma geração completamente diferente, cujo pensamento é caracterizado muito mais pelo medo.

Minhas inseguranças foram projetadas em mim por conta da autodepreciação de minha mãe. Eu só queria ter começado mais cedo a ser mais gentil comigo mesma, e que eu tivesse sido capaz de distinguir que voz era a minha.

Ver a maneira pela qual minha mãe se afirmou e viveu me afetou de um modo bom e de um modo ruim. Porque eu pensava que "o tempo está passando e tenho de compreender isso". Mudei aquele medo para "o tempo é eterno, mas o que você vai fazer com ele?"

Interpretar Zola a ajudou a compreender alguma coisa sobre a maneira pela qual você se movimentava no mundo antes, em seu corpo, como dançarina?
Danço desde que sou muito pequena. É algo que sempre amei. Mas cheguei a uma idade em que existia pressão, e eu estava cansada. Queria parar. Mas tinha uma bolsa de estudos. Minha mãe não permitia. Um dia, sua bunda começa a crescer, de repente você está passando pela puberdade e é preciso batalhar para se manter muito magra, como todo mundo mais.

A dança, por mais que fosse meu escape da vida em casa, começou a me causar ressentimento. Começou a parecer uma coisa que eu fazia pela minha mãe ou porque algumas pessoas achavam que eu tinha talento. Eu ainda estava envolvida com Debbie Allen, mas deixei isso um pouco de lado.

Em "Zola", foi como voltar para casa para a capacidade inata de balançar o traseiro. Não é algo tão técnico, algo que precise ser tão pensado. É mais ou menos como uma menina negra dançaria em seu quarto, mas ela o faz em uma casa noturna. Como voltar àquilo sem a necessidade de ser perfeita? Eu queria desmontar tudo aquilo para a personagem e para mim.

A atriz Taylour Paige - NYT

Você tinha alguma reserva sobre a maneira pela qual seu corpo seria visto na tela?
Fiquei muito nervosa e assustada, é claro. Zola é uma força tão grande e se sente tão confortável e confiante em seu corpo, enquanto eu sempre fui muito autocrítica. Mas estava preparada para deixar de odiar a mim mesma e não queria voltar àquela idade. Meu corpo funciona, meu coração bate sem ajuda, tenho dez dedos nas mãos, dez dedos nos pés. Preciso deixar a chatice para trás. E eu uso isso no filme.

É a maneira pela qual Zola se movimentava no mundo. Conversamos sobre como ela vivia assustada. Mas ela faz o que faz, de qualquer jeito, porque é uma mulher negra e precisa pagar as contas. Ninguém vai fazê-lo para ela. E além disso Janicza foi muito protetora desde o começo. Dizendo, "ninguém vai ver os seus seios". E eu respondia que "ei, se for preciso para a história...". Mostramos cadáveres e violência na TV. Não sei por que tanta preocupação com seios e nossos corpos naturais.

Isso se enquadra ao voyeurismo do filme. Zola faz comentários sarcásticos para os espectadores enquanto suas experiências chocantes se desenvolvem. Como foi contar esse tipo de história estando dentro dela?
Eu sabia que o filme existia em estado de hipérbole, que era essa a interpretação de Janicza. Não quero dizer ‘interpretação’ em tom condescendente. Mas quando estamos processando e observando alguma coisa que aconteceu a nós, existem múltiplas verdades. É a interpretação de Zola sobre o que aconteceu a ela, a interpretação de Janicza sobre a escrita brilhante de Zola. Viver as situações é diferente de ter tempo para processá-las e colocá-las no Twitter. Assim, são múltiplas coisas acontecendo ao mesmo tempo enquanto você as assiste.

Janicza deixou muito claro que eu deveria servir como escada naquela dupla. Ela tratou o filme como se fosse uma peça ou comédia em que existe uma escada e um bufão. Riley é como um menestrel em "blackface". E eu estou observando, de modo que não precisamos de dois bufões para entender aquele tipo de atmosfera e reagir a ele. O público assiste à situação pelos meus olhos. Por isso, em boa parte da minha atuação no filme, o diálogo que tenho acontece dentro de minha cabeça.

Imagino que você tenha sentido alguma pressão para transmitir as múltiplas camadas da história de um modo ao mesmo tempo satírico e crítico.
Eu sempre questionava se estava fazendo o suficiente. Mas compreendo que estou lá a serviço de Zola. A serviço das mulheres negras. Mulheres brancas, mulheres negras. É satírico, psicológico. São os sistemas que estão instalados. É o racismo. Está em um corpo branco. Mas em um corpo negro, você na verdade não acreditaria nela.

Mesmo que esteja sendo gentil e terna, o espectador vai questionar se ela está dizendo a verdade. Estamos a serviço de uma verdade maior, a forma pela qual nós, como mulheres negras, passamos pelo mundo, e as coisas que temos de encarar. É por isso que entendi o filme como tão brilhante, por proteger a voz de Zola. Zola não é uma palhaça do gueto que se deu bem no Twitter. Ela sempre agiu de modo muito estratégico e sabia exatamente o que estava fazendo e dizendo.

“Zola” também é engraçado em alguns momentos. As mulheres negras muitas vezes usam o humor para se proteger, processar as coisas. Por conta de suas experiências pessoais, foi fácil para você abraçar os momentos de comédia?
Encontro humor nas coisas mais simples. A maior parte das coisas, mesmo quando são ruins, são bem engraçadas. Como, "uau, nossa a vida é absurda. Isso é coisa de gueto". Eu tenho uma tatuagem que diz "ria", em meu braço, porque, cara, eu rio muito. Quando você ri, é como se dissesse que continua vivo, continua lá.

Tradução de Paulo Migliacci

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