Edie Falco, Sarah Paulson, Beanie Feldstein e Annaleigh Ashford estão em "Impeachment" Celeste Sloman/ NYT

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Alexis Soloski
The New York Times

“American Crime Story”, uma série de Ryan Murphy que conta histórias diferentes a cada temporada, estreou em 2016 com “The People v. O.J. Simpson”. Uma segunda temporada, “The Assassination of Gianni Versace”, surgiu dois anos mais tarde. Nas duas temporadas, que conquistaram 16 prêmios Emmy, os crimes em questão eram evidentes: o assassinato de Nicole Brown Simpson e Ron Goldman e a morte de Versace.

Em “Impeachment: American Crime Story”, que estreia dia 7 de setembro nos Estados Unidos, pelo canal FX —ainda não há confirmação de quando chega ao Brasil—, os delitos são mais ambíguos. Passada na década de 1990, a temporada de 10 episódios revisita o miasma de escândalos e insinuações que cercavam a Casa Branca na presidência de Bill Clinton.

Ele passa pelo processo de assédio sexual de Paula Jones contra o presidente; o relacionamento sexual entre ele e Monica Lewinsky; a amizade de Lewinsky com Linda Tripp; e o emaranhado de mentiras, meias-verdades e gravações ilícitas que terminou detalhado no Relatório Starr, o infame e lúrido documento preparado pelo procurador independente encarregado de investigar Clinton, Kenneth Starr.

O relatório levou a Câmara dos Deputados americana a votar pelo impeachment de Clinton em 1998, por acusações de perjúrio e obstrução da justiça. O Senado considerou o presidente inocente e se recusou a removê-lo do cargo. Mas os crimes e delitos daquele período interessavam pouco aos criadores da série.

“Para mim, o crime era que Monica, Linda e Paula não tinham controle sobre a maneira pela qual eram percebidas”, disse Sarah Burgess, produtora executiva e roteirista da maioria dos episódios da temporada. A dramaturga Burgess estudou a maneira pela qual a mídia cobriu essas mulheres: as piadas sobre elas nos programas noturnos de entrevistas, os programas de rádio matutinos, as colunas de opinião desdenhosas. “O ódio por elas era inacreditável”, ela disse.

Conversei com Burgess em uma tarde recente de segunda-feira; ela estava na reluzente sala de leitura localizada na adega do Whitby Hotel, na região central de Manhattan. Murphy também participou, em companhia dos produtores executivos Brad Simpson e Alexis Martin Woodall, e de quatro das atrizes da série: Annaleigh Ashford (Jones), Edie Falco (Hillary Clinton), Beanie Feldstein (Lewinsky), e Sarah Paulson (Tripp). Lewinsky, uma das produtoras de “Impeachment”, não estava presente. (Nenhuma outra pessoa envolvida no governo ou nos escândalos participou da realização da série. Tripp morreu em 2020.)

A série trata a fundo das vidas de Lewinsky, Tripp e Jones –e, em menor medida, da vida de Hillary Clinton. O objetivo não é necessariamente a reabilitação, mas os criadores e as atrizes querem compreender as ambições, medos e desejos que motivavam essas mulheres. “Todos sabemos o que aconteceu”, disse Murphy, “mas não sabemos como aconteceu”.

Em uma entrevista conjunta, os criadores e o elenco discutiram como o torvelinho de política e partidarismo e os conceitos tênues de verdade da era Clinton ecoam até hoje, e falaram sobre os motivos para que esses escândalos ainda nos cativem, a perseguição da mídia às mulheres retratadas, e sobre se elas seriam tratadas melhor agora. Abaixo, trechos editados da conversa.

O que vocês se lembram de ter vivido na época dos escândalos?
Ashford: Lembro-me da época da perspectiva dos programas de humor de final de noite. Eram realmente sombrios e chauvinistas, terríveis para as mulheres envolvidas, grotescamente sexuais e inapropriados. E muito engraçados. Todos aplaudíamos.

Murphy: Monica, Linda e Paula –lembro-me de ter sentido de que as vidas delas lhes foram tiradas. Sentia muita simpatia por elas, talvez porque, na escola, eu fosse perseguido. Vê-las sendo atacadas e sendo alvo de constante zombaria —era como que um esporte nacional—, eu me sentia mal por elas. E continuo a me sentir mal por elas. Encontrei Monica em uma festa, logo depois de anunciarmos a série. Ela se aproximou e eu disse que queria que ela fizesse parte disso.

Por que essa história ainda nos fascina?
Burgess: O Relatório Starr é parte disso; continua a ser chocante, o quanto o texto era explícito. E Monica –não me lembro de qualquer outra pessoa que tenha experimentado o ódio que ela experimentou, aquele prazer em dilacerá-la.

Simpson: Os Clinton continuam conosco. Todos nós lembramos daquele momento em que Donald Trump trouxe as mulheres que fizeram acusações contra Bill Clinton para participar de debates. É algo que continua a nos assombrar como cultura.

Martin Woodall: E no fim, continua a ser uma conversa sobre mulheres. Estamos em 2021 e continuamos a falar de Monica e Linda e Hillary. Bill não é parte verdadeira da conversa.

De algumas formas, o julgamento do impeachment prefigurou a política atual. A esquerda argumentou que Bill Clinton foi vítima de uma vasta conspiração direitista. A direita argumentou que tinha o dever de investigar um líder fundamentalmente desonesto. Como a série lida com essas duas narrativas opostas?
Murphy: Mostramos os dois pontos de vista. É a coisa interessante sobre a série: ela vive em um mundo cinzento.

Simpson: As duas coisas podem ser verdade. O que realmente nos interessa são os indivíduos falhos e sua intercessão com os sistemas de poder, especialmente os sistemas de poder masculino.

Recentemente, parecemos estar reexaminando a maneira pela qual tratamos mulheres que foram vítimas de escândalos nas décadas de 1990 e 2000 –Tonya Harding, Britney Spears. Essa série é parte dessa reavaliação?
Burgess: Sim, é claro. Pensamos muito sobre isso. Não havia um grupo de interesse que defendesse Monica. Ninguém estava do lado dela. Houve uma vaga manifestação de, sei lá, três feministas, em algum lugar. Ver Beanie interpretá-la, passar pelo que ela passou, talvez nos ofereça um ponto de vista que permita compreender o quanto ela era jovem, e reorientar a maneira pela qual as pessoas pensam nela. Mas será que as coisas seriam muito diferentes hoje?

Murphy: Se você considerar o caso de Britney Spears, acho que mais gente teria saído em defesa de Monica hoje.

Paulson: Acho que haveria mais defensores. Mas os ataques contra ela seriam iguais. Há tantas plataformas de onde fazê-lo agora.

Martin Woodall: Pessoas que conheço bem continuam a fazer piadas, quando falo da série. E eu peço que elas parem com as gracinhas.

A popularidade de Bill Clinton cresceu demais, e Lewinsky se tornou alvo de piadas. Por que odiávamos tanto aquela mulher?
Ashford: Parte disso tem a ver com o desconforto que as pessoas sentem com relação a sexo. As pessoas não aguentam não fazer piadas a respeito.

Paulson: Fico imaginando se é por estarmos pouco dispostos a olhar para nós mesmos, como explicação para esse ódio por Monica. Eu teria entrado naquela sala [o estúdio de Bill Clinton no Gabinete Oval, onde ele e Lewinsky fizeram sexo], sem dúvida.

Murphy: E eu também.

Paulson: É aquela história patriarcal de sempre, de aceitar o desejo dele, celebrá-lo e compreendê-lo. E Lewinsky é punida por ceder aos desejos dela. Há uma tendência a vilificar esse tipo de coisa quando vem de uma mulher.

Feldstein: Para crédito de Monica, mesmo na entrevista a Barbara Walters, ela não se esquiva. Não se desculpa. Só declara os fatos. E defende seu território, dizendo que foi uma decisão mútua. Hoje, com certeza vemos um forte desequilíbrio de poder e uma situação muito nuançada. Mas por que ela teve de passar vergonha por aquilo quando ele, o presidente dos Estados Unidos, não passou por vergonha semelhante? Fico meio comovida, porque eu a amo muito. Acho que o que aconteceu foi devastador. E não se torna menos devastador por estarmos falando mais a respeito. Espero que a série sirva para amenizar parte da dor.

Não vemos o sexo que o Relatório Starr detalha. Mas vemos a famosa revelação da tanga.
Simpson: O momento da tanga (em que Lewinsky ergue a blusa para que Bill Clinton possa ver o topo de sua roupa de baixo por sobre a cintura da saia) não estava no roteiro original. Monica pediu que incluíssemos a cena.

Burgess: Ela disse que todo mundo sabia que tinha feito aquilo, e sei que vocês querem me proteger, mas a cena precisa estar na série.

Mas por que não mostrar o sexo?
Murphy: O comportamento que conduziu ao ato era mais importante que o ato. Passamos muito tempo discutindo essas questões e também perguntando a Monica o que ela achava, o que ela queria.

E o que Lewinsky queria? Qual foi seu envolvimento na série?
Murphy: Nós examinávamos os roteiros página a página. Em, alguns casos, ela tinha muitos comentários; em outros, nada. O processo me pareceu fascinante e necessário. Ela jamais procurou a escolha fácil. Sempre queria o mais complicado, o mais nuançado.

O que vocês queriam deixar claro sobre o relacionamento entre ela e Bill Clinton?
Feldstein: Monica, naquele momento, era um pacote de contradições. Ingênua mas ardilosa, sensual mas inocente. E foi uma luta maravilhosa –interpretar esses dois lados. Como qualquer jovem de 22 anos, ela achava que conhecia o mundo. E teve de aprender sobre o mundo. Foi esse o seu aprendizado.

Simpson: O ponto de vista de Hillary também é complicado.

Burgess: Era e continua a ser. Há um mistério no centro da história, que é o que acontece quando [Hillary e Bill] estão juntos e sozinhos em algum lugar. Não existe gravação de Tripp sobre isso.

Falco: É algo sobre o que todo mundo que conheço já pensou: como é que foi a situação, quando ela descobriu? Como aquela mulher compreendeu tudo aquilo? Nada do que ela fazia era considerado certo –seus óculos, seu sobrenome, a maneira pela qual ela falava.

Vocês estão interpretando mulheres que os espectadores acreditam conhecer. Qual foi a importância de aperfeiçoar o jeito de andar e de falar, e os gestos delas?
Feldstein: O lado emocional dela me importava mais que o lado físico. Tentei manter meu foco no que estava sentindo, o que a motivava, e desconsiderar tudo mais. Mas uma coisa é interpretar uma pessoa real e outra interpretar uma pessoa real para quem você pode ligar ou enviar mensagens. Eu queria que ela visse a série e se sentisse validada.

Falco: Hillary é uma mulher que foi imitada em programas noturnos de TV e no "Saturday Night Live" praticamente pelo elenco inteiro. Isso me incomodava. Não estava interessada em criar mais uma interpretação. E com os anos ela mudou muito –seu sotaque, sua maneira de andar, sua maneira de se comportar–, enquanto evoluía como personalidade na vida pública. Imaginei que o importante seria descobrir quem era aquela mulher. Para mim, o que mais importa é sua vida interior.

Paulson: Trabalhei com um professor de movimento, que me ajudava todos os dias, para tentar criar um formato físico diferente do meu, em termos de postura. Era útil olhar no espelho e não me ver. Ainda considero o que [Tripp] fez moralmente questionável. Não estou tentando humanizá-la; estou tentando ser quem ela era, naquela situação e circunstâncias. Eu me conecto facilmente a uma certa forma de raiva interior que ela tem, e que é fácil para mim acessar.

Feldstein: É o mergulho na Tripp.

Ashford: No caso de Paula, é ela tentando satisfazer o marido, tentando satisfazer alguém mais. É parte do motivo para a voz dela ser tão aguda, e para que ela pareça sempre tentar se encolher. É um lado infantil. Também trabalhei com um professor de movimento.

Murphy: Também quero um professor de movimento.

Havia muito material de arquivo para pesquisar: gravações, os registros do Congresso, a resposta da mídia. O Relatório Starr, sozinho, tem mais de 112 mil palavras. Como decidir o que incluir?
Burgess: Primeiro os personagens. Na década de 1990, Linda e Monica foram desconsideradas, na maneira pela qual a história foi percebida e noticiada. Eram duas idiotas que falavam sobre a Macy’s no telefone. Os homens e os advogados é que eram considerados importantes.

Simpson: A maneira pela qual a história foi contada, tradicionalmente, é um relato sobre homens grandes e poderosos em duelo: Bill Clinton versus Kenneth Starr, Newt Gingrich versus Bill Clinton. E lá no canto estão aquelas mulheres loucas. Decidimos desde o princípio que começaríamos por elas.

Feldstein: São personagens que, de diferentes maneiras, nunca foram tratadas com a humanidade que deveriam. O que a série faz é priorizar a humanidade em lugar da trama.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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