Cenas da série "Physical", com Rose Byrne Divulgação

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Alexis Soloski
The New York Times

Nos momentos iniciais de “Physical”, série que estreou em 18 de junho na Apple TV+, Sheila (Rose Byrne), dona de casa em San Diego, Califórnia, se olha no espelho. Ela não gosta do que está vendo. “Olhe para você”, ela diz em uma narração em off amarga. “Falando sério. Você acha mesmo que vai conseguir? Esse look de gatinha discoteca? Com a sua idade?”

Uma comédia muito sombria sobre a necessidade de manter as aparências, “Physical”, cuja história começa em 1981, acompanha a descoberta da aeróbica por Sheila. Os exercícios lhe oferecem uma nova maneira de habitar seu corpo. (Uma maneira que envolve o uso de polainas mereceria ser definida como “melhor”? Tenho minhas dúvidas.)

A série explora a pressão constante que é exercida sobre as mulheres —e especialmente a pressão que as mulheres exercem sobre si mesmas— para atingir um ideal impraticável.

“Não é só uma história sobre o tamanho do corpo, sobre a pressão por ser magra”, disse Annie Weisman (“The Path”). “É dizer a verdade sobre o trabalho necessário para manter uma certa aparência e corpo, e esse é um assunto que realmente me interessa”.

“Physical” trata de empoderamento e das ilusões associadas a isso, mas também é uma das raras séries —cômicas ou dramáticas— a contemplar de maneira profunda os distúrbios de alimentação.

Ainda que pareça descontraída e segura de si, bem ao estilo do sul da Califórnia, Sheila luta contra uma bulimia severa. “O projeto é levar esse assunto tão a sério quanto outras séries de TV a cabo levam outros vícios”, disse Weisman.

Em uma conversa recente —era noite em Los Angeles, onde vive Weisman, e manhã na Austrália, onde Byrne está morando atualmente—, a criadora e a estrela da série se uniram em uma conversa descontraída por vídeo para discutir ambição, trauma e a dificuldade de usar collants muito cavados. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Annie, até que ponto essa história é pessoal?
Weisman: Cheguei a um ponto em minha vida em que percebi nunca ter escrito sobre um dos meus segredos mais vergonhosos. E o mais vergonhoso é que sofro há décadas de um distúrbio alimentar. Eu nunca tinha visto essa experiência descrita da forma que a senti —como uma doença secreta, perigosa e difícil. E aí comecei a escrever o roteiro.

Você estava em recuperação há quanto tempo, quando começou a escrever?
Weisman: Há muita coisa que parece ser recuperação. Eu me apaixonei e me casei. Senti-me melhor por algum tempo. Mas a doença voltou. Tive um filho. Senti muito poder em meu corpo. E ela voltou de novo. É um problema que consegue se perpetuar com facilidade, porque diz mentiras a você o tempo todo. Por exemplo, “se as pessoas descobrirem que isso acontece, você será rejeitada”. Não é verdade. Foi só quando comecei a escrever a respeito que me senti liberada, recuperada. O oposto de qualquer forma de vício é a conexão. Foi essa a verdadeira recuperação para mim.

Rose, o que você pode nos dizer sobre Sheila?
Byrne: Nós a encontramos em um momento silencioso de crise. Ela está enfrentando uma doença vergonhosa. Seu casamento é incrivelmente disfuncional. Ela se sente ambivalente, na melhor das hipóteses, quanto a ser mãe. Nós a encontramos em um momento no qual seu diálogo consigo mesma é muito ruim.

Seu último papel foi como Gloria Steinem em “Mrs. America”. Isso influenciou sua forma de pensar sobre Sheila, uma mulher que parece muito distante da libertação?
Byrne:
“Mrs. America” termina em 1980. “Physical” começa em 1981. Para mim, como atriz, foi realmente informativo, por ter passado por aquela década e aprendido muito sobre o movimento. Sheila é filha do movimento, mas se sente desiludida, em última análise. Ela tem ideias. Tem ambições. Tem desejos que não consegue colocar em prática.

A série captura o cruel monólogo interno de Sheila. Por que você nos permite ouvir as conversas dela consigo mesma?
Weisman: Muitos dos sentimentos realmente naturais que temos são vistos como pouco atraentes em uma mulher. As meninas aprendem desde muito cedo que essas coisas são tabus. São coisas que guardamos dentro de nós. A jornada da personagem é a de descobrir como aproveitar aquele diálogo interno muito, muito doloroso e descobrir que ele na verdade é um poder que você pode colocar em uso no mundo, se parar de usá-lo para atacar a si mesma.

O Manual de Diagnóstico de Distúrbios Mentais só passou a incluir distúrbios de alimentação em 1980. Em 1981, como vocês acham que Sheila compreende seu distúrbio alimentar?
Byrne:
Em 1980, na verdade não havia onde discutir a questão. Não havia um espaço seguro. Agora, evidentemente, existe uma linguagem para tratar disso, existe um diálogo sobre isso. O reconhecimento da questão é muito maior, enquanto na época não era algo que tivéssemos.
Weisman: Ela estava presa dentro daquela compulsão. Sabe que precisa fazê-lo. E como muitos viciados, se convence a cada vez que aquela será a última vez. Ela não vai voltar a fazê-lo. E por isso não há problema. É só um dia ruim. E amanhã será melhor.

O que a fascinou na aeróbica?
Weisman: São as endorfinas. A força. O suor. O poder. Quando Sheila descobre a aeróbica, isso se torna uma forma de conexão com seu corpo; um antídoto para muitos dos valores que alimentam seu distúrbio alimentar. Em San Diego na década de 1980, quando eu era adolescente, estive na primeira onda de mulheres que descobriram o exercício —dediquei boa parte da minha adolescência a isso. A aeróbica é uma atividade na qual você finca os pés no chão, faz barulho e ganha tamanho, e é realmente maravilhoso pensar em mulheres realizando isso juntas.
Byrne: Cresci em Sydney na década de 1990, e fazia os exercícios de Cindy Crawford na sala de minha casa. Foi esse meu relacionamento com a aeróbica até que que comecei a treinar com [a coreógrafa] Jennifer Hamilton para a série. E é viciante. A aeróbica dá uma sensação fascinante, dá um barato. Percebi que a compreendia de um ponto de vista puramente físico. Conversando com pessoas que viveram aquela época, muitas me diziam que a aeróbica era como um culto. Era essa a sensação.

Quanto você precisou treinar?
Byrne:
Eu não tenho coordenação motora alguma! Jennifer Hamilton teve muita paciência comigo. Eu estava em Byron Bay e ela em Los Angeles, e nós fazíamos sessões via Zoom, duas ou três vezes por semana, antes de eu voltar para começar a rodagem. Bobby [Cannavale, o companheiro de Byrne] passava por mim na sala e eu estava completamente imersa no exercício, sem fôlego. É maravilhoso.

Você continuou com a aeróbica depois que as filmagens terminaram? Ficou viciada?
Byrne:
Não. Você está brincando? Sou muito preguiçosa.

Como é interpretar um papel no qual você passa a maior parte do tempo de collant?
Byrne: O figurino é todo feito sob medida, milimetricamente. Assim, tentar calcular todas as proporções foi uma experiência épica. Quando avançamos para as coisas cada vez mais cavadas, eu comecei a imaginar como é que as pessoas conseguiam fazer sequências de exercícios usando aquilo. Mas as peças de compressão, de dança, são incríveis. Você as veste e fica coberta e ao mesmo tempo comprimida, como se fosse um corpete para as pernas, até lá em cima. Bastava colocar aquele figurino e eu me sentia preparada.
Weisman: Kameron Lennox, nossa figurinista, é do sul da Califórnia. Ela mergulhou nos detalhes da evolução da roupa de exercício. Não existia um uniforme verdadeiro para isso, ainda. Os materiais nem existiam. As pessoas faziam seus collants, e os que usamos na série são feitos a mão e com materiais de época.

E como foi viver com a gloriosa permanente de Sheila?
Byrne:
Para ser honesta, no começo eu fiquei meio incomodada com o tamanho do cabelo, mas no final das rodagens eu pedia para que ficasse cada vez maior. Realmente adotei o penteado.
Weisman: Eu achava que precisávamos ocupar o quadro todo com o cabelo dela. O que fazemos é um mergulho profundo na mente daquela mulher, que por acaso está cercada por cabelos grandes, bastos e cacheados.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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