Naomi Ackie em Londres Adama Jalloh -8.mai.2021/The New York Times

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Salamishah Tillet

Criada por Aziz Ansari e Alan Yang, “Master of None” começou como uma comédia sobre as dificuldades pessoais, os percalços de carreira e os hábitos gastronômicos de Dev Shah, interpretado por Anzari, um ator de 30 e poucos anos radicado em Nova York.

No começo, Dev buscava conselhos de um grupo de amigos desajustados que incluíam o esquisitíssimo Arnold (Eric Wareheim), o charmoso e contido Brian (Kelvin Yu) e a sensata e elegante Denise (Lena Waithe).

Com a evolução da série, o papel de Denise foi crescendo, especialmente em "Thanksgiving", um episódio da segunda temporada. Inspirado pela vida de Waithe, o episódio trata do passado de Denise e do apoio de Dev à amiga quando ela reconhece que se sente atraída por mulheres, e por fim se assume diante de sua mãe (Angela Bassett).

Ansari e Waithe ganharam o Emmy como roteiristas pelo episódio, o que fez de Waithe a primeira mulher negra a conquistar um prêmio nessa categoria.

Agora Denise tem o papel central. A terceira temporada da série, que estreou na Netflix no mês passado e traz o subtítulo "Momentos no Amor", gira em torno de Denise, uma roteirista bem-sucedida, e de seu casamento com Alicia, uma decoradora de interiores que está em busca do sucesso profissional, interpretada pela atriz britânica Naomi Ackie.

Embora Ansari tenha dirigido todos os episódios e escrito os roteiros da temporada com Waithe, ele aparece na tela apenas brevemente. Quando a série mudou de ponto de vista, mergulhou fundo em questões como abortos espontâneos e infertilidade, que afetam desproporcionalmente as mulheres negras.

De acordo com um estudo publicado pela revista Lancet em abril, o número de abortos espontâneos é 43% mais alto entre as mulheres negras que entre as mulheres brancas. Um estudo anterior da Universidade de Michigan revelou que mulheres negras têm probabilidade quase duas vezes mais alta de enfrentar infertilidade do que mulheres brancas, e probabilidade duas vezes menor de receber tratamento para isso.

"Não acho que já tenhamos visto uma história de amor complexa e longa como essa entre duas mulheres negras", diz Waithe. "Muitos artistas negros me disseram que o que querem é simplesmente ver pessoas negras existindo. E o bacana é que podemos ver pessoas negras que por acaso são ‘queer’ –e isso às vezes é difícil e complicado."

A atriz britânica Naomi Ackie
A atriz britânica Naomi Ackie - Adama Jalloh-8.mai.2021/The New York Times

Mas embora Denise sirva como ponto de partida para a história, é Ackie que carrega o maior peso dramático. Ao enfrentar problemas românticos e de fertilidade, Alicia, como mulher negra homossexual, também precisa encarar uma interseção de opressões que inclui homofobia, racismo e sexismo. (Em determinado momento, sua médica diz que o plano de saúde de Alicia não tem um código que enquadre uma mulher gay que quer engravidar.)

O episódio mais poderoso e introspectivo da temporada é uma história quase separada do restante da narrativa, como a de "Thanksgiving", na qual Alicia, depois de enfrentar um aborto espontâneo devastador com Denise, decide passar por um tratamento de fertilidade sozinha.

Embora Ackie reconheça que fazer esse episódio específico foi pesado em termos físicos e emocionais, o esforço valeu a pena porque "nunca tinha visto duas mulheres negras queer e tratamentos de fertilidade em posição central numa história", diz.

"Era como se existisse uma lacuna ali, na qual faltava uma história, e se conseguíssemos contar aquela história, com qualidade e cuidado, era aquilo que devíamos fazer", ela diz.

Ackie, que trabalhou em "The End of the F***ing World" (algo como "o fim da p*a do mundo"), uma série britânica de humor sombrio, em “Star Wars: A Ascensão Skywalker” e em “Small Axe”, de Steve McQueen, continua a ser relativamente desconhecida nos Estados Unidos.

Mas seu papel em “Master of None” e o trabalho que fez como protagonista de “I Wanna Dance With Somebody”, uma cinebiografia de Whitney Houston, certamente vão mudar essa situação.

Ackie, que também é uma das produtoras executivas da série nesta temporada, conversou comigo por vídeo de sua casa em Londres, sobre sua abordagem quanto a uma personagem tão emocionalmente aberta, como ela vê o foco da série nas mulheres negras, e por que a história de amor entre Alicia e Denise deveria ser vista como uma obra em progresso.

A seguir, trechos editados de nossa conversa.

Assisti à primeira e segunda temporadas, e gostei muito do tom da série. Adoro o humor deles, e a sensação de que não estão tentando forçar a comédia. Também é um trabalho sem muito enfeite, e eu nunca tinha visto um homem asiático no papel romântico central. Foi refrescante. Por isso, quando fui chamada para um teste, minha reação foi a de que aquele pessoal era engraçado, e eu não sou comediante. Sou uma atriz conhecida pela minha cara de choro. Mas quando descobri a mudança de direção que eles planejavam, pensei que aquilo era minha praia.

A temporada inteira parece ter sido inspirada pelo episódio “Thanksgiving”. Foi assim que Lena e Aziz apresentaram a linha narrativa e a personagem Alicia a você?
Eu sabia que a história giraria em torno de Denise e de sua mulher, e foi isso que me atraiu. Mas não percebi inicialmente que seria um estudo verdadeiro de um casamento, algo que eu nunca tinha feito no passado. Até agora, eu costumava interpretar personagens fortes, interpretei uma assassina serial em "The End of the F***ing World", Jannah em “Star Wars”, figuras que têm um lado decidido nelas. Assim, a série foi a primeira vez em que tive de procurar um desempenho mais controlado.

O relacionamento entre Denise e Alicia é tão complicado –há o casamento, a dissolução da relação, e o momento em que elas se reconectam.
Para mim, era uma história com a qual as pessoas poderiam se identificar, e se parecia com experiências em minha vida nas quais um ex deixa de ser ex. O fato de que você não consegue manter um relacionamento com uma pessoa não quer dizer que não queira estar com ela. O amor é complicado, confuso. Minha mãe sempre diz que se uma pessoa não consegue superar seus problemas termina derrubada por eles. Assim, para Alicia a sensação é que ela não pode parar, e tem de continuar tentando conseguir o que deseja mesmo que para isso precise abandonar parte da bagagem no caminho. Já para Denise, a história é completamente diferente.
É uma imitação boa da vida, não? Você encontra alguém por acaso; sente uma conexão maravilhosa. Tenta construir uma vida com a pessoa, e aí percebe que vocês têm necessidades diferentes, e é preciso negociar isso. Cada capítulo, na verdade, parece uma pequena vinheta, um instantâneo das vidas delas. O que Aziz, Lena, eu e Alan discutimos foi que aquilo não era o fim, para as personagens. É parte de sua história. Mas não vamos ver o que acontece a seguir.

Você mencionou sua mãe. O desejo de Alicia de ter um filho é parte muito importante do conflito dela com Denise, e tem importância crítica na jornada dela para a autoaceitação. Por que você acha que ser mãe era tão importante para ela?
Acho que Alicia queria criar raízes. Ela orquestrou uma bela casa, e em seguida fica tentando descobrir o que mais pode criar, o que mais ela pode amar para fazer do casal uma unidade mais forte. Ou descobre que existe uma distância entre ela e sua parceira, e calcula que um bebê é uma boa maneira de preenchê-la. O verdadeiro conflito, para Alicia é a negociação das prioridades de Denise, que àquela altura giram mais em torno de si mesma e da carreira que ela deseja. O quanto uma pessoa deve esperar para fazer o que realmente quer? Por quanto tempo você aceita um compromisso em benefício de outra pessoa? Há tudo aquilo acontecendo no casamento delas, e as duas terminam se separando depois do aborto espontâneo de Alicia.

O episódio que se concentra em Alicia e seus tratamentos de fertilidade foi muito sofrido e vulnerável. Como você se preparou para um desempenho que exigia tanto?
Gravamos o episódio em muito pouco tempo —acho que foram duas semanas e meia. Eu não senti que precisasse me preparar demais, porque Alicia não sabia o que estava por vir. O que foi ótimo é que Aziz trouxe especialistas em fertilização in vitro, nos dias de gravação, e a coisa aconteceu naturalmente. E filmar aquilo de modo intenso, em um prazo curto, era sacrificado, em termos de energia. Você termina o trabalho esgotado, o que reproduzia a jornada de Alicia. Por isso, não precisei recorrer a memórias. A empatia por pessoas que tinham passado por aquilo bastou, e o cansaço físico que eu sentia àquela altura foi suficiente para me ajudar a dizer aqueles diálogos.

Apesar da discriminação que vai enfrentar como mulher negra e homossexual, Alicia decide fazer aquele caro tratamento de fertilidade, sem ajuda. Por que essa história importava para vocês todos?
Caminho pelo mundo como mulher negra, e as interseções significam alguma coisa, e ainda mais se você é uma mulher negra queer. Se eu queria que as pessoas aprendessem alguma coisa com isso é que as interseções importam. A maneira pela qual Aziz e Lena falaram comigo a respeito foi: “Essa história nunca foi contada”. Acho bacana ver duas mulheres negras vindas de partes diferentes do mundo e tendo tantas semelhanças, mas obviamente com histórias ligeiramente diferentes.

Embora viva sozinha em Nova York, Alicia tem um belo relacionamento com sua mãe, em Londres, e também com a enfermeira da clínica de fertilidade. O que você esperava que a audiência extraísse dessas interações e representações?
Uma de minhas cenas favoritas é a conversa por telefone com a mãe de Alicia, quando ela está se aplicando a injeção, porque me lembrou do que eu faria, falar com minha mãe e meu pai. O nome da enfermeira é Cordelia —o da personagem e da atriz. Quando as cenas do tratamento estavam acontecendo, Cordelia [Blair] estava lá como figurante. E em uma das cenas, ela confortava Alicia, e a energia dela era linda. Aziz estava assistindo e disse: “Essa mulher acalma! Ela é maravilhosa”. Ela tinha experiência no ramo de saúde. E por isso ele escreveu novas cenas para Cordelia, e ela arrasou em todas.
A presença de mulheres negras na série é especialmente agradável, e familiar, da mãe de Alicia e Cordelia a Denise. Para mim, a sensação, ao assistir, era a de estar em meu lar. É adorável ver mulheres negras representando esses diferentes arquétipos: mãe, profissional, cônjuge. Fico feliz por termos conseguido dar vida àquilo.

The New York Times

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci.

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