Cena do filme "Pieces of a Woman" Netflix

Bianca Giaever
The New York Times

No cinema, nascimentos em geral são tratados como emergências. A cena começa com a bolsa da mulher se rompendo no pior momento possível. Ela mal parece estar em trabalho de parto, mas é carregada urgentemente para o hospital, em meio ao trânsito congestionado.

Ao chegar, ela perde a paciência, e a dor é culpa de seu marido. Ela grita com ele, e às vezes até bate nele, e manda que ele faça uma vasectomia. Depois, pede uma anestesia aos médicos, mas por algum motivo não pode recebê-la. Ao fim de quatro minutos de intensa gritaria, alguém lhe entrega um bebê que parece saído de um comercial.

O recente filme “Pieces of a Woman”, da Netflix, que conta com um desempenho que valeu a indicação de Vanessa Kirby para o Oscar de melhor atriz, tenta subverter essa narrativa, com uma cena de parto caseiro naturalista que ocupa quase um quinto da duração do filme.

A longa sequência, cujo fim termina por ser trágico, gerou conversa entre as parteiras, especialmente porque o cinema e a televisão podem influenciar profundamente as expectativas de casais que ainda não tiveram filhos.

Em entrevistas, parteiras de diversas regiões dos Estados Unidos aplaudiram a cena naturalista de parto como uma nova fronteira nas descrições cinematográficas do assunto, ainda que tenham argumentado que diversos dos detalhes ficaram aquém da experiência plena.

Quando a cena de parto começa, Martha (Kirby) está inclinada, apoiada ao fogão, e suas contrações se intensificam. Seu companheiro, Sean, interpretado por Shia LaBeouf, corre ao seu redor, perguntando repetidamente se ela quer água. Eles acabam indo para a sala, onde ele a acomoda em seu colo.
Ela diz: “Acho que vou vomitar”, arrotando e engasgando.

Hannah Epstein, enfermeira e parteira em San Francisco, diz que aquilo que a impressionou na cena foi algo que a maioria dos filmes deixa de fora: “Nunca vemos o trabalho de parto, e sim só o nascimento”. Ela afirma que algumas pacientes se preocupam por talvez não perceberem que estão em trabalho de parto, e que outras acham que parto é simplesmente o esforço de empurrar o bebê para fora.

“Pieces of a Woman” ajuda a corrigir essas percepções incorretas. “O filme faz uma boa descrição do começo do trabalho de parto, aquele sentimento de enjoo e desconforto”, ela diz, ao apontar que náusea e vômito são bastante comuns no trabalho de parto.

Depois de oferecer palavras de encorajamento, a parteira de Martha (interpretada por Molly Parker) sugere que eles se encaminhem à banheira. Angelina Ruffin-Alexander, parteira em Atlanta, ficou satisfeita por a cena de parto do filme incluir água, uma técnica que reduz o estresse causado pelas dores do parto.

“Você tenta criar um senso de calma e de paz”, diz. Na banheira, Martha pede que Sean coloque música e explica que quer pouca luz no banheiro. Stephanie Tillman, enfermeira e parteira, e pesquisadora de ética médica em Chicago, elogia o diálogo.

“Nem sempre acontece um retrato positivo de como os pais interagem”, diz. “Eu gostei de ver seu parceiro lá para apoiá-la, e a acompanhando enquanto ela se movimenta pelo espaço”.

Com música ambiente ao fundo, Martha encosta sua testa na testa de Sean e eles conversam baixinho. De acordo com Epstein, esse tom discreto é uma representação mais exata do que acontece em um parto do que o caos que ela costuma ver nas telas.

Ela descreve o processo de parto e nascimento como “repleto de sussurros, respiros, suavidade, sem incluir uma tonelada de palavras”, porque a mulher está tentando conservar sua energia. Depois de cerca de três minutos na banheira, Martha começa a tremer, e seus gemidos baixos se transformam em um rugido grave, quase animal. A parteira pergunta se ela está sentindo que é hora de fazer força.

Para Tillman, “essa foi uma descrição boa da fisiologia”. Ela acrescenta que “as pessoas vão da náusea para os tremores —o corpo treme, as pernas. É o resultado de uma mudança natural nos hormônios”.

Martha se transfere para a cama, mas antes de começar a forçar para ajudar a saída do bebê, a parteira examina sua pélvis. “Vou verificar o colo do seu útero e ver em que ponto você está, está bem?”, ela pergunta, mas vai adiante com o exame antes de receber uma resposta.

“Ai!”, Martha responde, e a parteira diz: “Eu sei, eu sei. Desculpe, baby”, e continua o exame. Mais tarde, a parteira diz: “Tente relaxar, querida”, e enquanto Martha força para ajudar o bebê a sair, a parteira a elogia: “Boa menina!”.

Tillman, que pesquisa sobre questões de consentimento nos tratamentos de saúde íntima, diz considerar esse diálogo como “muito desanimador”, e também como uma oportunidade desperdiçada de mostrar como um exame pélvico deve ser conduzido devidamente. “É exatamente o que eu tento ensinar aos médicos que eles não devem fazer."

O consentimento para exames pélvicos precisa funcionar exatamente como o consentimento para sexo, explica Tillman. Os responsáveis pelo tratamento precisam obter um consentimento claro antes de iniciar o exame. Se a paciente expressar dor, eles precisam parar e examinar a causa.

Tillman também considera que os termos carinhosos usados pela parteira como “condescendentes, misóginos e diminutivos”, ainda que seu uso seja comum. “Isso reforça a dinâmica de poder entre os pacientes e os provedores de serviços de saúde."

“Implica que tenho mais conhecimento que você, e portanto tenho poder sobre você, ou status social superior ao seu, em lugar de indicar que ‘eu e você estamos trabalhando juntos’”. Para Epstein, a linguagem usada pela parteira foi “muito repelente”.

Diversas parteiras criticaram a cena que mostra Martha deitada de costas na cama para o nascimento, quando mulheres podem fazê-lo de cócoras, de quatro, deitadas de lado, na água, ou mesmo em pé, apoiadas em um objeto.

Roberto Caldeyro-Barcia, um médico pioneiro no campo dos partos, certa vez escreveu que, “com exceção de estar pendurada de cabeça para baixo, a pior posição possível para o parto é o decúbito dorsal".

Vicki Elson, antropóloga e educadora que estuda partos e sua descrição na mídia, disse que seu interesse pelo tópico surgiu em 1995, em um episódio da série “ER” sobre a morte de uma mãe durante o trabalho de parto, o que vem acompanhado por uma alta na consulta a parteiras por pais preocupados.

“Meu trabalho é desmontar o medo que as pessoas adquirem em seus contatos com a cultura”, ela disse em entrevista. “A mídia de massa é bem perigosa”, ela acrescentou. “Leva as pessoas que estão esperando filhos a imaginar que passarão por algo perigoso e assustador. E isso pode ter efeitos físicos sobre o trabalho de parto. Se você fica com medo, seu corpo fica tenso, e não trabalha tão bem quanto deveria com os hormônios naturais."

Retratos como esse, assim como cenas que mostram as mães como completamente passivas, surgem regularmente na tela, seja em “Mãe!” (2017), no qual o trabalho de parto de Jennifer Lawrence acontece em meio a um grupo de pessoas horrendas, ou em um episódio de “Grey’s Anatomy” em 2019 no qual uma mulher chega ao hospital em um carro de polícia e passa o parto gritando com seu companheiro e com a equipe médica.

Assim, de que maneira os cineastas podem descrever um parto natural, saudável e ordenado, mas ao mesmo tempo manter a tensão e o drama? “É dramático ver alguém contorcendo seu corpo em dez direções diferentes”, diz Tillman. “É dramático ajudar um parceiro ou uma pessoa de sua família.”

Outras parteiras descreveram diversas cenas potenciais de parto que gostariam de ver retratadas, por exemplo, as que envolvem mulheres que fizeram seus partos cercadas por pessoas de sua família, ou que passaram por eles sozinhas.

Epstein também aponta que, embora “Pieces of a Woman” retrate a experiência desumanizadora de uma mulher branca, quando o assunto são partos com resultados trágicos, “é notável que eles sejam muito mais comuns entre pessoas não brancas”. Epstein e outras parteiras dizem que partos envolvendo mulheres não brancas precisam ser retratados com mais frequência.

As parteiras entrevistadas expressaram a esperança de que futuros filmes e programas de TV retratem as mulheres como agentes de seu destino, em lugar de como personagens fora de controle e dependentes de terceiros.

Em última análise, diz a parteira Allison Sander, de San Francisco, o que cria uma cena de parto forte, na verdade, é algo bem simples: que as pessoas presentes na sala “ouçam as mulheres e façam o que elas querem”.

Tradução de Paulo Migliacci

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