Vanessa Kirby no papel de Martha em "Pieces of a Woman" Netflix

Eleanor Stanford
Londres
The New York Times

Vanessa Kirby, 32, não tem filhos, mas, depois de rodar seu primeiro papel principal, em “Pieces of a Woman”, a sensação dela é a de ter passado por um parto. “Agora, sempre que vejo uma mulher grávida, ou quando alguém me conta que acabou de dar à luz, eu sorrio”, ela disse, em uma conversa via vídeo. “Compartilho dos sentimentos dessas mulheres”.

Os dois dias inteiros que ela passou gravando uma cena dilacerante para o filme talvez sirvam para explicar essa confusão psíquica, e o mesmo poderia ser dito sobre a imersão completa de Kirby no papel.

Em “Pieces of a Woman”, que estreou em 7 de janeiro na Netflix, depois de uma passagem limitada pelas salas de cinema em dezembro, a atriz interpreta Martha, uma mulher grávida cujo parto caseiro sai horrivelmente errado.

Esse evento transformador, no início do filme, transcorre em uma sequência contínua de 24 minutos que começa com as primeiras contrações de Martha e termina em tragédia. A câmera acompanha Martha, seu parceiro (Shia LaBeouf), e uma parteira, Eva (Molly Parker), pelo apartamento do casal, condensando as agonias do parto em menos de meia hora.

O filme estreou em setembro no Festival de Cinema de Veneza, onde Kirby conquistou o prêmio de melhor atriz, e começou a ser mencionada como candidata ao Oscar. Kirby disse que tentou retratar o trabalho de parto de Martha do modo mais realista possível. “Foi aterrorizante, porque eu não queria deixar uma imagem negativa das mulheres”, ela acrescentou.

E por isso ela decidiu pesquisar. Assistir aos vídeos de muitos partos não fez com que Kirby se sentisse mais próxima da experiência, disse ela, porque eles costumam ser censurados e saneados. “E aí fiquei ainda mais assustada, porque percebi que minha responsabilidade era mostrar um parto como ele é, e não como costuma ser editado, mesmo em documentários”, disse Kirby.

Ela conversou com mulheres que passaram por partos e mulheres que sofreram abortos espontâneos, bem como com parteiros, obstetras e ginecologistas em um hospital londrino. Em uma dessas ocasiões, uma mulher chegou, sentindo contrações, e permitiu que Kirby observasse o parto. A experiência de assistir ao trabalho de parto, que durou seis horas, “me mudou muito profundamente”, disse Kirby. “Eu absorvi cada segundo do que estava acontecendo com ela”.

E Kirby começou a compreender de que maneira interpretar Martha. A mulher no hospital entrou em um estado primal, animalesco, disse Kirby. “Seu corpo assumiu o controle e estava cuidando da tarefa, o que me ajudou muito na cena”, ela acrescentou.

Durante dois dias, aquela longa sequência foi filmada seis vezes. Em entrevista por telefone, o diretor, Kornel Mundruczo, que também trabalha com teatro e ópera, declarou que prepará-la foi como preparar uma cena que envolva trabalho de dublês: “Muito planejamento, mas você não sabe o que de fato acontecerá”.

No fim, cada uma das tomadas foi diferente, disse Kirby. As conversas entre Martha e Sean mudavam, a forma pela qual o corpo de Martha reagia às contrações era distinta a cada tomada. “Foi provavelmente a melhor experiência que já tive em minha carreira”, disse Kirby sobre aqueles dois dias de filmagem. Inspirada pelo trabalho de parto que observou, ela tentou pensar o mínimo possível, disse ela, e não julgar o que seu corpo estava fazendo na cena.

Depois de uma década de trabalho, “Pieces of a Woman” é o primeiro papel principal de Kirby em um longa-metragem, e é um papel audacioso e memorável, que a mostra exibindo todo o seu potencial. Mundruczo disse que precisava de uma atriz que estivesse exatamente no ponto em que Kirby está em sua carreira, “aquele ponto no qual todo o talento e técnica já estão presentes mas o medo ainda não”, ele afirmou. “Quando uma carreira está muito estabelecida, a pessoa se torna mais e mais cautelosa”.

Kirby vem aperfeiçoando sua técnica desde a adolescência. Ela cresceu em um subúrbio próspero do oeste de Londres, estudou em uma escola feminina particular, e escapava das pressões sociais da vida adolescente no palco, em peças e em clubes de teatro para jovens. “Sempre que eu entrava naquele espaço, sentia subitamente que ninguém me julgava. Sentia-me aceita”, disse Kirby. “Você não precisa ser coisa alguma, ou fazer coisa alguma certo”.

Depois de se formar na universidade, onde estudou literatura inglesa, Kirby foi aceita na prestigiosa Academia de Música e Arte Dramática de Londres, em 2009. Poucos meses antes de as aulas começarem, porém, ela recebeu um convite para três papéis em produções teatrais de David Thacker, ex-diretor residente da Royal Shakespeare Company e então diretor artístico do Octagon Theater, em Bolton, uma cidade no norte da Inglaterra.

Ele a convidou a ir a Bolton e aprender mais com aqueles papéis –que incluíam Helena em “Sonho de Uma Noite de Verão” e Ann Deever em “All My Sons” –do que em três anos de escola de teatro. Kirby aceitou, e agora descreve aquela temporada como seu treinamento.

“Aprendi tudo lá”, disse Kirby. Trabalhar com Thacker a ensinou a confiar em si mesma, a descobrir seu caminho como atriz por conta própria, em lugar de esperar que outras pessoas lhe digam o que fazer, afirma Kirby.

Ela vem trabalhando constantemente desde então, com papéis principais no teatro londrino e papéis coadjuvantes de destaque em filmes e séries de TV de época britânicos. Ela interpretou a princesa Margaret nas duas primeiras temporadas de “The Crown”, um desempenho que lhe valeu um prêmio Bafta. A Margaret de Kirby fervilha com energia irreprimível, e oferece um contraste ideal com a controlada ranha Elizabeth 2ª de Claire Foy.

Em “Missão Impossível – Fallout”, de 2018, ela interpreta a Viúva Branca, uma glamorosa corretora de mercado negro que leva uma navalha na liga e sabe como usá-la. Kirby deve aparecer em dois novos filmes da série.

Esses papéis coadjuvantes lhe trouxeram elogios da crítica e prêmios, mas Kirby não parecia ter pressa de encontrar seu primeiro papel principal nas telas. No palco, ela interpretou muitos personagens complexos: mulheres como Rosalind, a heroína ferozmente inteligente de “Como Gostais”, de Shakespeare. Ela estava à espera de um papel principal no cinema que lhe oferecesse parte da “magia” de Rosalind, disse Kirby, que causa uma sensação “como a de voar, quando você pisa no palco”.

“Eu jamais tinha conseguido encontrar papéis assim nas telas”, ela disse. E por isso decidiu esperar, usando os papéis menores como oportunidades para observar e aprender, e para perguntar a Anthony Hopkins sobre seus métodos, quando trabalharam juntos em “The Dresser”, um drama para a TV britânica, e observar a generosidade de Rachel McAdams no set durante o filme “Questão de Tempo”, ela disse.

É apropriado, dados os antecedentes teatrais de Kirby, que “Pieces of a Woman” tenha começado como peça, escrita por Kata Weber, a parceira de Mundruczo, que se baseou na experiência do casal ao perder um filho. A peça, que se passa na Polônia, consiste de duas cenas: a do nascimento, e um explosivo jantar com a família de Martha que, no filme, ocorre mais ou menos na metade da história. A estreia teatral, dirigida por Mundruczo em 2018, no teatro TR Warszawa de Varsóvia, foi um sucesso, e a produção continua no repertório da companhia.

Quando Mundruczo completou 40 anos, cinco anos atrás, ele decidiu procurar audiência maior para seu trabalho, afirmou, e optou por deixar de trabalhar em alemão, húngaro e polonês; “Pieces of a Woman” é seu primeiro filme em inglês. Ao adaptar a peça para o cinema, Mundruczo escolheu situá-la em Boston, segundo disse, por sentir que a cultura irlandesa e católica da cidade espelhava o panorama social conservador da Polônia.

A perda de um filho no parto é algo raramente exibido em uma produção de entretenimento para as telas. Mundruczo diz que espera que assistir às experiências de Martha encoraje as pessoas a “terem a coragem de buscar respostas para suas próprias perdas”.

Nos últimos meses, a modelo Chrissy Teigen e Meghan, duquesa de Sussex, escrevendo para o The New York Times, compartilharam suas experiências ao sofrerem abortos espontâneos. Kirby disse que, ao pesquisar para o papel antes da filmagem, ela descobriu que as mulheres que passaram por isso “na verdade se sentiam aliviadas por poderem falar a respeito”, e apreciavam que alguém desejasse compreender.

“Pieces of a Woman” foi rodado em apenas 29 dias no final de 2019, mas Kirby disse que precisou de meses para se afastar da experiência de interpretar Martha. “Eu sabia que meu trabalho era sentir aquilo, sentir o que ela sentiu”, disse a atriz. Ter um grau de empatia tão grande “foi realmente difícil e perturbador”, ela acrescentou, dizendo que o privilégio de poder absorver as experiências alheias é o que ela ama sobre seu trabalho.

O próximo projeto de Kirby a verá interpretando Tallie, uma mulher casada com um fazendeiro que se apaixona por outra mulher, em “The World to Come”, um meditativo filme passado nos Estados Unidos do século 19 e dirigido pela norueguesa Mona Fastvold, com lançamento marcado para o mês que vem.

E depois? Kirby disse que está lendo roteiros, em busca do próximo papel que a assuste. Ela está em busca de “uma história não contada, sobre mulheres”, que lhe pareça tão urgente quanto as de Martha e Tallie. “Como é mesmo aquela expressão?”, ela disse. “Sinta o medo, mas faça mesmo assim”.

Tradução de Paulo Migliacci

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