Cenas da serie WandaVision Divulgação

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The New York Times

No período em que passaram interpretando heróis da Marvel juntos, Elizabeth Olsen e Paul Bettany aprenderam a se sentir confortáveis na companhia um do outro. Nem mesmo um filete de muco mal direcionado, durante as filmagens de sua nova série para o serviço de streaming Disney+, “WandaVision” –um incidente que eles descrevem carinhosamente como Snotgate [ranhogate]– os incomodou por muito tempo.

Aconteceu quando seus personagens –uma mulher dotada de poderes psíquicos chamada Wanda Maximoff (Olsen) e um androide sintético chamado Vision (Bettany) –estavam se beijando, em um dia especialmente frio. Restam alguns desacordos sobre o que realmente aconteceu.

“Paul não aceitou bem quando brinquei sobre seu ranho”, disse Olsen em entrevista por vídeo com Bettany, no mês passado. “Foi a primeira vez que o vi realmente na defensiva sobre alguma coisa”.
E então Bettany se inclinou na direção da câmera e acrescentou, em tom confidencial: “O ranho era dela. De qualquer modo."

Os dois concordaram em que suas diferenças fossem rapidamente resolvidas, e agora riem a respeito. “Terminou tão rápido quanto aconteceu”, disse Bettany. Esses são os perigos de interpretar uma mulher problemática e um robô sofisticado que se apaixonam –personagens que vimos pela primeira vez em “Vingadores: Era de Ultron”, “blockbuster” da Marvel de 2015, e que depois retornaram para diversas continuações e agora receberam a chance de estrelar uma série de TV: “WandaVision” estreou nesta sexta (15).

Como seus personagens centrais, “WandaVision” é, não há outra maneira de dizer, esquisita. Não é estritamente um espetáculo de ação, ao modo de filmes como “Vingadores: Ultimato”; trata-se de uma mistura de drama e comédia que homenageia “sitcoms” clássicas como “The Dick Van Dyke Show”, “A Feiticeira” e “Family Ties”.

Agora, por conta de circunstâncias sobre as quais pessoa alguma tem controle, “WandaVision” tem uma tarefa ainda maior a realizar. Quando a pandemia levou a Marvel a reordenar seu calendário de lançamentos, “WandaVision” se tornou a primeira tentativa do estúdio para transformar a grande novela dos super-heróis do Universo Cinematográfico Marvel em uma série original para o canal Disney+, na esperança de que ela realize, para seus protagonistas oriundos dos quadrinhos, o mesmo que “The Mandalorian” fez por “Star Wars”, outra das franquias de fantasia controladas pela Disney.

Ou seja, há muito em jogo, inesperadamente, mas, como os protagonistas apaixonados e fora de esquadro que interpretam, os astros de “WandaVision” consideram que tudo isso é motivo para que sejam mais compreensivos um com o outro, apesar do ranho.

Como explicou Olsen, “é uma tarefa intimidadora levar esses personagens de cinema à telinha. Há muitas coisas que ainda não tínhamos feito, e que podem ser um pouco assustadoras para um ator”.
Bettany concorda. “Precisamos nos sentir seguros um com o outro”, ele acrescentou, “para fazer o que estamos fazendo".

Os dois chegaram à família Marvel por caminhos incomuns. Bettany, astro de filmes como “Uma Mante Brilhante” e “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, foi escalado para “Homem de Ferro”, o primeiro filme do universo Cinematográfico Marvel, como a voz de J.A.R.V.I.S., o sistema de inteligência artificial criado por Tony Stark.

“Eu aparecia para um dia de trabalho, e resolvia os problemas de todo mundo”, disse Bettany. “Dizia algo como ‘os bandidos estão chegando, senhor’, e no fim do dia eles me davam um saco de dinheiro e eu podia voltar para casa. Foi uma experiência adorável”.

Bettany terminou recebendo um papel com presença na tela em “Era de Ultron”, que também introduziu Olsen (de “Martha Marcy May Marlene”), como Wanda. Na época, disse Olsen, “eu sempre estava sendo escalada para papéis de mocinhas emocionalmente complicadas, em filmes pequenos Acho que a ideia foi “vamos colocá-la em um filme grande e fazer dela uma heroína com complicações mentais”.

Ainda que os holofotes ficassem mais voltados a colegas de elenco como Robert Downey Jr. e Chris Evans, Bettany e Olsen fizeram amizade, por um senso compartilhado de o quanto seu trabalho é estranho, por exemplo ao assistirem a um debate sobre se Vision deveria ou não ter uma genitália robotizada (e por sorte a resposta foi não).

Ao trabalharem juntos em filmes como “Capitão América: Guerra Civil”, eles descobriram que ambos apreciavam disciplina e preparação, mesmo em sets frenéticos como os da Marvel. Em certo ponto daquele filme, disse Olsen, “perguntei a Paul se ele queria ensaiar comigo o diálogo da semana seguinte. E ele já tinha decorado suas falas da semana seguinte. Pensei comigo mesma que aquela seria uma excelente relação de trabalho”.

Mas Vision aparentemente é morto em “Vingadores: Guerra Infinita”, e, no ano seguinte, “Vingadores: Ultimato” encerrou os arcos narrativos de grandes heróis como o Homem de Ferro e o Capitão América. A Marvel estava estudando histórias para seus próximos filmes quando a Disney lançou o serviço de streaming Disney+, com a expectativa de que a subsidiária também fornecesse conteúdo para ele.

Kevin Feige, o presidente da Marvel Studios, disse que uma série para a Disney+ oferecia uma oportunidade de aprofundar o relacionamento entre Wanda e Vision, do qual vimos apenas um vislumbre nos filmes. “Toda a história de amor entre Wanda e Vision foi basicamente exposta em uma tomada em “Era de Ultron”, quando ele aparece para resgatá-la e os dois trocam um olhar e voam para longe”, disse Feige. “Depois um pouquinho mais em ‘Guerra Civil’, um pouquinho mais em ‘Guerra Infinita’, mas tudo passa rápido demais naquele filme”.

Em diversas décadas de quadrinhos, Wanda e Vision tiveram um romance muito mais intrincado. Namoraram, se casaram, tiveram dois filhos, se separaram e se reconciliaram. (Além disso –e aí as coisas se complicam– Wanda descobriu que seus filhos eram na verdade as peças que faltavam para um vilão demoníaco, que os reabsorve; depois ela perde e recupera a memória sobre seus filhos desaparecidos; e por fim libera todos os seus poderes para reescrever a realidade por inteiro.)

Com “WandaVision”, Feige disse que ele desejava honrar a complexidade dos personagens centrais e a capacidade de Wanda de alterar a realidade, mas também adensar a história com elementos de “sitcom”. Ele disse que “acho que isso justifica todo o tempo que passei brincando com bonecos de ação, no quintal de minha casa. Todo o tempo que passei assistindo Nick at Nite e velhas séries de TV e que eu não havia justificado ainda. Essa série me ajuda a fazer isso”.

A trama encontra Wanda e Vision –que aparece vivo– morando no subúrbio e felizes, sem saberem exatamente por que estão circulando por diversas eras da história da televisão e encontrando veteranos intérpretes da Marvel, como Kat Dennings (no papel de Darcy Lewis, que ela fez em “Thor") e Randall Park (retomando seu papel como Jimmy Woo, de “Homem-Formiga e a Vespa”), além de novas adições ao grupo, como Teyonah Parris (Monica Rambeau) e Kathryn Hahn (interpretando uma vizinha intrigantemente curiosa chamada Agnes).

Como no caso de muitos dos filmes da Marvel, também existe um mistério central em “WandaVision”, que leva os espectadores a ponderar a realidade constantemente mutável em que vivem os protagonistas.

Jac Schaeffer, a roteirista-chefe, disse que o exterior cômico da série tinha por objetivo atrair a audiência para as intrigas internas mais densas. “Uma pessoa começa a assistir a um episódio de série de humor com a expectativa de que vai se divertir e tudo acabará bem”, disse Schaeffer, que trabalhou também em “Capitã Marvel” e “Viúva Negra”.

O que “WandaVision” acrescenta a essa fórmula, ela diz, é um elemento bizarro –a ideia de que aquela segurança está sendo esmagada, e de modo calculado. Matt Shakman, que dirigiu os nove episódios de “WandaVision”, disse que a série conta, por fim, uma história de “pesar e trauma, e do que fazemos para manter a esperança”.

Wanda provavelmente é “a pessoa que mais sofreu no Universo Cinematográfico Marvel”, ele acrescentou. “E por isso a série sempre tem esse fator em posição central. Mesmo que você esteja vendo séries de TV do passado fielmente recriadas, há muito mais coisas acontecendo do que o espectador consegue perceber de imediato”.

Shakman já tinha dirigido episódios de séries como “Game of Thrones”, “Succession” e “It’s Always Sunny in Philadelphia”, e trabalhou como ator infantil em “sitcoms” de TV como “Diff’rent Strokes” e “Just the Ten of Us”. Dirigir “WandaVision”, ele disse, foi “um trabalho gloriosamente esquizofrênico”, que em certos dias exigia comandar sequências de ação filmadas em tela verde e em outros dias usar cenários muito parecidos com os das séries em que ele um dia trabalhou como ator.

Para essas sequências que homenageiam a TV do passado, Shakman e sua equipe trabalharam cuidadosamente a fim de reproduzir o design de produção e os figurinos de séries como “Jeannie é um Gênio” e “A Familia Dó-Ré-Mi”, usando equipamento de iluminação e lentes de época, e filmando diante de audiências.

Ainda que os atores de “WandaVision” tenham passado por duas semanas de treinamento quanto a “sitcoms” clássicas antes de começar a rodagem, eles não precisaram de muita orientação para entrar no espírito da coisa. Olsen, é claro, é a irmã mais nova de Mary Kate e Ashley Olsen, as duas estrelas de “Full House”; ela trabalhou com as irmãs em alguns de seus projetos posteriores, e cresceu como fã de séries, a exemplo de “Laverne & Shirley”, e de filmes como “A Very Brady Sequel”.

Bettany disse que séries de TV clássicas americanas eram parte de sua dieta televisiva, em sua infância e adolescência na Inglaterra. Ele especula que parte da experimentação de sua família com religiões quando ele era criança pode ter aparecido porque “minha mãe assistia a ‘Little House on the Prairie’– e por que não seguir a série em tudo mais?”

Se os acontecimentos tivessem transcorrido de acordo com o planejamento anterior da Marvel, a estreia de “WandaVision” teria acontecido depois da estreia de filmes como “Viúva Negra”, “Eternals” e “Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings” nos cinemas, e da estreia de “The Falcon and the Winter Soldier”, uma série de ação da Disney+ que se enquadra mais ao clima dos Vingadores.

A pandemia forçou a Marvel a reorganizar seus lançamentos, mas Feige disse que a narrativa mestre cuidadosamente planejada pelo estúdio, e abarcando seus filmes e séries de TV, não havia sido afetada de modo significativo.

“Se nossas operações tivessem sido desordenadas dessa maneira em 2018 e 2019, quando estávamos a caminho de ‘Ultimato’, a dor de cabeça teria sido maior”, ele disse. “Mas as coisas funcionaram bem, com esses projetos”, ele acrescentou, afirmando que as datas de estreia das séries de TV mudaram, “mas apenas por algumas semanas”.

A criação de “WandaVision” também foi afetada pela pandemia; os atores encerraram a primeira etapa do trabalho em um ambiente em que podiam conviver livremente com os colegas de trabalho e, meses depois, voltaram a um ambiente no qual “assim que você termina sua cena, se encaminha a uma bolha hermeticamente selada”, disse Bettany.

“Isso foi difícil para mim”, disse Olsen, exagerando a voz para demonstrar raiva. “Eu reclamava que gostava de conversar com a equipe, que era um caso de apoio moral”. Nesse sentido, os atores disseram que talvez seja adequado que “WandaVision” chegue às audiências em um momento como esse, quando tanto sua mensagem narrativa quanto seu processo de realização refletem o desejo humano de seguir adiante, não importa o quanto o mundo se tenha tornado irreconhecível.

“Estamos todos experimentando uma versão extrema do mundo, agora”, disse Olsen. Mas, por algum tempo, enquanto ela e os colegas estavam concluindo o trabalho na série, “criamos um microcosmo de humanidade e de solução conjunta de problemas”, ela acrescentou. “Havia algo de ótimo em poder trabalhar e experimentar isso”.

O que a Marvel sempre buscou, coerentemente, para seus personagens, seus elencos e a audiência, é “criar um lar para pessoas que não necessariamente encontrariam umas às outras”, disse Bettany.
No caso especifico de “WandaVision”, ele acrescentou, “trata-se de um grupo de pessoas encontrando umas às outras –pessoas que realmente deixam o que tem de mais estranho transparecer, em uma situação na qual é aceitável ser realmente diferente”.

Tradução de Paulo Migliacci.

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