Cinema e Séries
Descrição de chapéu The New York Times Cinema

Projetos audaciosos da DC Films complicam administração de super-heróis nos cinemas

Walter Hamada, que comanda estúdio, planeja novos títulos e universos paralelos

Ben Affleck retornará no papel de Batman - Warner/Divulgação
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Los Angeles
The New York Times

Walter Hamada não é o domador de super-heróis típico. Não é um “fanboy” de personalidade exuberante. O modesto home office em que ele trabalha, pelo menos de acordo com que se pode ver via Zoom, não ostenta uma profusão de objetos de coleção temáticos. Hollywood não era sua vocação inicial: o plano de Hamada era se tornar engenheiro mecânico.

Como presidente da DC Films, no entanto, Hamada, 52, administra as carreiras cinematográficas da Mulher-Maravilha, Batman, The Flash, Super-Homem e todos os demais super-heróis de quadrinhos da DC Comics. E o novo percurso que traçou para eles é estonteante.

Os filmes mais dispendiosos já produzidos pela DC (até quatro títulos por ano, a partir de 2022) foram concebidos para lançamento em salas de cinema. Filmes adicionais estrelados por super-heróis (dois títulos ao ano é a meta, talvez centrados em personagens de maior risco, como Batgirl e Static Shock) serão lançados com exclusividade pela HBO Max, o serviço de streaming controlado pela WarnerMedia.

Além disso, a DC Films, que é parte da Warner Bros., vai trabalhar com cineastas para desenvolver derivados dos filmes –séries de TV para exibição na HBO Max, e que se interconectem com as empreitadas da companhia na tela grande.

“No caso de todos os filmes que estamos planejando agora, uma das coisas em que pensamos é qual seriam os potenciais derivados para a HBO Max”, disse Hamada.

Se você achava que já havia produções demais envolvendo super-heróis, espere só para ver.

Para fazer com que todas essas linhas narrativas funcionem, a DC Films vai apresentar às audiências de cinema um conceito dos quadrinhos conhecido como “multiverso”: mundos paralelos nos quais diferentes versões de um mesmo personagem existem simultaneamente. A Warner Bros. planeja, por exemplo, duas sagas cinematográficas diferentes envolvendo o Batman, interpretado por dois atores diferentes, que estarão em cartaz ao mesmo tempo.

O complicado plano envolve uma aceleração acentuada na produção. Em 2019, a Warner Bros. lançou dois filmes de super-heróis, “Coringa” e “Shazam!”. Em 2018, lançou só “Aquaman”. Os três filmes foram imensos sucessos, o que deixou claro que produzir mais títulos representa uma oportunidade financeira.

Por diversas razões, entre as quais dificuldades criativas e trocas frequentes de comando na ala executiva da DC Films (Hamada assumiu o posto em 2018), a Warner Bros. ficou em séria desvantagem diante da Marvel, controlada pela Disney, na guerra das bilheterias. Nos últimos 10 anos, a Warner gerou US$ 8 bilhões (R$ 42,7 bi) nas bilheterias mundiais (“Mulher-Maravilha 1984” vendeu US$ 36 milhões (R$ 192 mi) em ingressos nos Estados Unidos no final de semana do Natal). Já a Marvel faturou US$ 20,6 bilhões (R$ 110 bi).

Podemos resumir afirmando que a Warner, que inventou o filme de super-herói de grande orçamento ao lançar “Super-Homem” em 1978, está sob pressão para recuperar terreno.

O sucesso da Disney se deve em parte a uma colaboração entre suas divisões que não costuma acontecer na Warner, uma empresa muito mais compartimentada. Mas isso está mudando. A AT&T dispôs que deve haver mas sinergia entre as partes da empresa, ao assumir o controle da WarnerMedia em 2018.

“No passado, nós éramos sigilosos demais”, disse Hamada. “Para mim foi um choque, por exemplo, descobrir que não muitas pessoas da empresa tinham autorização para ler os roteiros dos filmes que estamos produzindo”.

Mais que nunca, os estúdios estão se apoiando em personagens e marcas preestabelecidos –especialmente nos casos em que as empresas controladoras estão buscando construir serviços de streaming. A HBO Max tem 12,6 milhões de assinantes, ante 195 milhões para a Netflix. Como deliciar Wall Street e reduzir rapidamente essa disparidade? O primeiro passo é colocar os super-heróis para trabalhar.

Este mês, a Disney anunciou 100 filmes e programas novos para os próximos anos, a maioria destinada diretamente ao serviço de streaming Disney+, que tem 87 milhões de assinantes. A Marvel vai contribuir com 11 filmes e 11 séries de TV, entre os quais “WandaVision”, que estreia em 15 de janeiro e traz Elizabeth Olsen retomando seu papel de Feiticeira Escarlate, da franquia Vingadores.

A Warner tem um número semelhante de filmes baseados em histórias em quadrinhos sendo preparados, entre os quais uma sequência para “Esquadrão Suicida”; “The Batman”, no qual Robert Pattinson (“Crepúsculo”) interpreta o homem-morcego; e “Black Adam”, com Dwayne Johnson como o vilão que dá título ao filme.

Derivados televisivos de “The Batman” e “Esquadrão Suicida” estão sendo produzidos para a HBO Max. A divisão de TV tradicional da WarnerMedia tem cerca de 25 produções adicionais envolvendo super-heróis, tanto de animação quanto “live action”, em preparo, entre as quais “Superman e Lois”, que estreia na rede CW em fevereiro.

A Sony Pictures Entertainment tem sua agenda de super-heróis, igualmente, com pelo menos dois novos filmes da série “Homem-Aranha” em preparo; “Morbius”, com Jared Leto como um pseudo-vampiro; e uma continuação de “Venom”, cujo original custou US$ 100 milhões (R$ 534 mi) em 2018 e arrecadou US$ 856 milhões (R$ 4,5 bi) nas bilheterias mundiais. A Sony também tem um pacote de séries de super-heróis que será lançado pelo serviço de streaming Amazon Prime Video.

E não se pode esquecer a Valiant Entertainment, que está transformando quadrinhos como “Harbinger”, sobre adolescentes dotados de superpoderes, em filmes, por meio de parcerias com aliados como a Paramount Pictures.

Os super-heróis há muito tempo são a fonte mais confiável de faturamento em Hollywood, especialmente se incluirmos as vendas de mercadorias relacionadas. (Tiaras da Mulher-Maravilha para gatos estão disponíveis por US$ 59,50 --R$ 319.) Mas será que ainda existe muito mais mercado para imagens de pessoas musculosas em roupas colantes passando por aventuras que envolvem efeitos visuais gerados por computador?

Mais do que você talvez imagine, disse David Gross, que comanda a Franchise Entertainment Research, uma consultoria de cinema. “Se as histórias forem bem escritas e os valores de produção forem fortes”, ele disse, “não haverá muitos sinais de fadiga”.

Talvez o maior desafio que a Warner precise enfrentar envolva a recente priorização da HBO Max. “O risco é o de que assistir a esses filmes primeiro na TV degrade a experiência de entretenimento, e consequentemente o valor desse acervo”, disse Gross. “Para um filme individual, não existe modelo de negócios de maior sucesso que um lançamento bem-sucedido nas salas de cinema –criando o maior evento possível em termos de cultura pop. Essa é a locomotiva que puxa o trem inteiro: mercadorias, licenciamento de parques temáticos, outras receitas”.

“Mulher-Maravilha 1984” saiu no dia do Natal na América do Norte, e o filme faturou US$ 16,7 milhões (R$ 89,2 mi) em seu primeiro dia de exibição. Invocando a pandemia do coronavírus (apenas 39% das salas de cinema dos Estados Unidos estão funcionando), o estúdio lançou o filme simultaneamente nos cinemas e na HBO Max. A Warner Bros. lançará todas as suas produções programadas para 2021 da mesma maneira híbrida.

A WarnerMedia divulgou informações vagas sobre o desempenho da continuação na HBO Max, afirmando em um release que “milhões” de assinantes assistiram ao filme na sexta-feira (25/12). Andy Forssell, gerente geral de produções direto ao consumidor da WarnerMedia, disse que o filme “excedeu nossas expectativas em todos os nossos indicadores relacionados ao número de espectadores e assinantes”.

O faturamento inicial de “Mulher-Maravilha 1984” foi de US$ 85 milhões (R$ 454 mi) em todo o mundo, com US$ 68,3 milhões (R$ 365 mi) vindos de salas de cinema em países nos quais a HBO Max ainda não opera. A produção do filme, estrelado por Gal Gadot e dirigido por Patty Jenkins, custou pelo menos US$ 200 milhões (R$ 1 bi), e mais US$ 100 milhões (R$ 534 mi) em verbas mundiais de marketing. As críticas foram muito menos positivas do que as recebidas pelo predecessor.

Toby Emmerich, presidente do Warner Bros. Pictures Group, disse no domingo que ele tinha “aprovado com urgência” a produção de um terceiro filme da série Mulher-Maravilha. “Nossas mulheres-maravilha reais –Gal e Patty– retornarão para concluir a trilogia cinematográfica que tínhamos planejado desde sempre”, disse Emmerich.

Hamada chegou ao posto depois de passar pela New Line, uma divisão da Warner que produz principalmente filmes de terror e comédias com orçamento médio. Entre outras realizações, ele trabalhou com o diretor James Wan e outros colaboradores para transformar “Invocação do Mal” (2013) em um “mundo” de seis filmes que faturou US$ 1,8 bilhão (R$ 9,6 bi) nas bilheterias mundiais. (“Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio” será lançado em junho.)

“Muitas vezes, em reuniões de estúdio, os executivos se limitam a repetir chavões, e isso é motivo de piada”, disse Wan. “Walt sempre traz alguma coisa construtiva, útil e importante à mesa. Ele fala comigo em uma linguagem que compreendo”.

Quando Hamada chegou à DC Films em 2018, a divisão estava precisando urgentemente de estabilidade.

Dois filmes apavorantemente caros, “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça” (2016) e “Liga da Justiça” (2017), os dois dirigidos por Zack Snyder, foram classificados pelos críticos como quase impossíveis de assistir. Ben Affleck, que interpretou o Batman nos filmes, queria deixar o papel, o que complicava os planos para continuações. E os realizadores também estavam preparando outros projetos para a DC que nada tinham a ver com as histórias existentes –e na verdade contradiziam algumas delas.

Hamada e Emmerich tinham duas escolhas: descobrir como fazer com que as diversas narrativas e encarnações dos personagens convivessem, ou recomeçar do zero.

A resposta é o multiverso. Em resumo, isso significa que alguns personagens (a Mulher-Maravilha interpretada por Gadot, por exemplo) continuarão suas aventuras na Terra 1, enquanto novas encarnações (Pattinson como Batman) povoarão a Terra 2.

“The Flash”, filme que deve sair nos cinemas em 2022, combinará os dois universos e envolverá dois Batmans, com Affleck retornando como um deles e Michael Keaton como o outro. (Keaton interpretou o Batman em 1989 e 1992.)

Para complicar ainda mais as coisas, a HBO Max deu a Snyder US$ 70 milhões (R$ 370 mi) em orçamento adicional para alterar o seu “Liga da Justiça” e expandi-lo com novas cenas. Snyder e a Warner entraram em confronto devido à visão original dele para a história, que o estúdio considerou como sombria demais, o que resultou em alterações comandadas por um diretor diferente, Joss Whedon. (E as alterações não funcionaram bem, tampouco.) “Zack Snyder’s Justice League”, agora com quatro horas de duração, será exibido em episódios pela HBO Max, a partir de março.

Pelo menos por enquanto, Snyder não é parte dos novos planos da DC Films, e executivos do estúdio descrevem seu projeto para a HBO Max como um beco sem saída narrativo.

O conceito do multiverso funcionou na televisão, mas é uma estratégia de risco no cinema. Esses filmes precisam atrair a maior audiência possível, para justificar seu custo, e exagerar nos traços nerds associados aos quadrinhos pode desestimular as audiências mais amplas. Mas múltiplas Gotham coexistindo nas salas de cinema?

“Não creio que alguém já tenha tentado isso”, disse Hamada. “Mas as audiências são sofisticadas o bastante para compreender. Se fizermos bons filmes, elas assistirão”.

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