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Descrição de chapéu The New York Times Cinema

Kristen Stewart viu a si mesma em 'Happiest Season', comédia romântica natalina entre mulheres

Atriz confessa que a palavra lésbica tem uma 'conotação negativa' para ela

Cena do filme 'Happiest Season'

Cena do filme 'Happiest Season' Divulgação

Melena Ryzik

Ninguém imagina que uma comédia romântica natalina possa ser rebelde. Mas "Happiest Season" (no Brasil o título ficou "Alguém Avisa?"), sobre um casal interpretado por Kristen Stewart e Mackenzie Davis, consegue ser ao mesmo tempo profunda e calidamente convencional e surpreendentemente radical, ao se concentrar no relacionamento de um casal de mulheres.

"Queria que o filme tivesse muita empatia, mas também que fosse algo de completamente novo", diz Clea DuVall, diretora e uma das roteiristas do filme, com Mary Holland, que também faz o papel de irmã maluca. DuVall, que também é atriz (“Veep”), disse que seu papel na seminal comédia "Nunca Fui Santa", em 2000, na qual ela interpreta uma adolescente lésbica que é enviada a um acampamento de “cura gay”, a ajudou a sair do armário.

Ela assumiu ser gay em uma conversa natalina com a mãe, e modelou a personagem de Stewart, Abby, em sua experiência. A produção inclui outros atores LGBTQ, por exemplo Daniel Levy como o melhor amigo de Abby (ele rouba todas as cenas), e uma trilha sonora produzida por Justin Tranter e executada por artistas “queer”. O filme foi rodado no frio de Pittsburgh –DuVall insistiu naquela luz de inverno—, em apenas duas semanas, antes que a Covid-19 virasse a vida de cabeça para baixo.

Em uma recente entrevista por vídeo, DuVall, Stewart, Davis e Holland –cada qual falando de um local diferente, e com os cachorros de Stewart ocasionalmente latindo ao fundo– falaram sobre sentirem saudades umas das outras e sobre os problemas que ainda encontram ao dar entrevistas via Zoom. ("Ontem, eu estava em Gallery View, e passei o tempo todo olhando para minha própria cara", admitiu Davis.)

"Happiest Season", que estreou no serviço de streaming Hulu em 26 de novembro [no Brasil tem previsão para janeiro de 2021], foi o último grande projeto do ano para todas elas –uma mistura de cápsula do tempo e celebração de festas. "Filmes de Natal são muito específicos, e se tornam parte de nossas vidas de uma maneira que para outros filmes é impossível", diz DuVall. "Nenhum de nós tinha qualquer ideia de o quanto estaríamos precisando ser reconfortados, quando o filme enfim saísse."

Abaixo, trechos editados da conversa.

*

Kristen e Mackenzie, seus personagens no começo parecem ter um relacionamento doce e ótima química. Vocês discutiram os antecedentes das personagens, para desenvolver essa intimidade?
Stewart -
Pouco antes de começarmos a filmar, eu e você conversamos uma ou duas vezes. Tentamos definir se nos conhecemos na universidade, qual de nós duas era mais velha.
Davis: Falamos muito sobre nossos relacionamentos atuais e passados, coisas bem específicas de nossas vidas. Para mim, isso é mais relevante do que determinar quando nos conhecemos, e como eram nossos grupos de amigos antes de eles se combinarem. Isso tudo é importante em algum grau, mas não é tão importante quanto, digamos...
Stewart - A maneira pela qual você atrai a atenção de uma pessoa.
Davis: Exatamente.
Stewart - Sempre achei que, desde que sentíssemos uma solidez já desde o começo, poderíamos ser um desses casais ambiciosos, confiantes, livres de qualquer desconforto ou da homofobia interna que são inegavelmente aplicados aos casais homossexuais, em projetos comerciais de cinema. Por exemplo, nós parecemos ser lésbicas? Ou somos só duas mulheres apaixonadas e aí fazemos um filme de Natal?

Falem mais sobre sua experiência ao caracterizar personagens “queer” nas telas, em comparação com a representação histórica deles.
Stewart -
Tive muitas vezes a experiência de confundir as pessoas, e de isso ser visto como se eu é que estivesse confusa. Desculpe, mas as pessoas precisam ficar espertas. Quando eu era mais moça, às vezes não usava saltos altos, e isso era comentado. Opções de guarda-roupa –se torna mais e mais evidente que a impressão visual realmente importa, porque isso foi usado violentamente contra mim.
O fato é que a palavra “lésbica” tem uma conotação negativa para mim, que agora eu tento eliminar porque, quando eu era mais jovem, vivia me dizendo que não era lésbica. Porque eu ainda não tinha namorado com meninas. Mas isso foi violento, de alguma forma. Em retrospecto –e só porque eu tive mais ou menos todos os outros privilégios–, isso não significa que eu tenha de não reconhecer que essa situação era péssima e causava uma sensação física desconfortável.
Assim, foi importante para mim, no filme, reconhecer o fato e agir como se estivesse convidando alguém gentilmente a se aproximar de mim, em lugar de sentir como se eu estivesse alimentando uma alienação à qual fui sugada durante toda minha vida.
DuVall - Acho que as pessoas não percebem o quanto a homofobia é gritante, o quanto ela é casual. E que ela tem um impacto duradouro. Eu apreciei muito fazer esse filme com Kristen, porque senti que ela era capaz de compreender a situação de uma maneira que não muita gente é capaz. Tive a sorte, no começo da minha carreira, de trabalhar em “Nunca Fui Santa” e de interpretar pela primeira vez uma personagem parecida comigo, e de ver aquilo pela primeira vez em uma tela –foi importante demais. Criar Abby era na verdade um desejo de voltar a oferecer essa especificidade em um filme.

Mary, você e Clea trabalharam juntas em “Veep”. Como vocês avançaram disso para escrever uma comédia romântica juntas?
Holland -
Nossas personagens em “Veep” jamais tinham cenas juntas, e por isso nunca convivíamos no set. Mas nas leituras de roteiro pelo elenco, nós logo nos aproximamos e tínhamos uma química. Ela me falou dessa ideia, e eu embarquei mil por cento. Clea fez uma aposta no escuro, ao me convidar. Nós mal nos conhecíamos, quando ela me convidou para escrever com ela.


Vocês tinham uma lista de elementos obrigatórios em filmes de Natal, como a imagem de uma porta decorada com uma guirlanda gigante, que parece presente em todos os filmes natalinos?
Stewart -
Eu já assisti ao filme três vezes, agora – [brincando] porque sou obcecada por mim mesma. Mas quando a porta se abre, sinto que o filme se ergue e começa a correr. E a resposta do espectador é, nossa, será que devo correr com o filme? Adoro isso.
DuVall - Quando estávamos escrevendo, não assistimos muita coisa –construímos aquele mundo sem muita consulta. Mas quando comecei a trabalhar com a designer de produção, Theresa Guleserian, e o diretor de fotografia, John Guleserian, foi então que desenvolvemos aquelas imagens emblemáticas para criar um clima de Natal sem precisamos de um monte de brilhos e luzinhas.

A trilha sonora também é bem natalina. Mas por que não Mariah?
Duvall -
Porque a canção de Natal de Mariah é cara demais.

Kristen e Mackenzie, como vocês encontram o equilíbrio entre serem engraçadas e a trajetória emocional maior das personagens?
Davis -
Clea nos dizia isso o tempo todo – não tente fazer da história algo que ela não é. Não tente evitar os grandes momentos românticos, porque todas essas coisas juntas são parte do gênero. Assim, mesmo que seu instinto como atriz seja trabalhar de um jeito um pouco mais contido, todas essas coisas realmente prosperam se você investe o máximo em cada um desses elementos.
Stewart - Alternar entre comédia e emoção ou mágoa foi meio traumático para mim. Eu acordava furiosa com Mackenzie.

Dan Levy tem uma cena memorável em que ele fala sobre o processo de sair do armário. Como ela foi desenvolvida?
DuVall -
A fala dele foi meio que um acréscimo. Eu precisava criar textos para audições, para determinar se os atores eram capazes de momentos dramáticos.
E comecei a escrever e de repente percebi que aquela poderia ser a parte mais importante do filme. E era algo que eu nunca tinha articulado para mim mesma. Porque quando eu saí do armário, não dei muita importância a isso. Mas quando pensei a respeito, foi aquele o texto que surgiu. E ele o diz de um jeito tão bonito que eu chorava ao assistir cada tomada.
Stewart - E eu estava muito nervosa, sobre Dan. Ele é tão engraçado. Eu não o conhecia. Ficava imaginando se ele ia me achar burra ou otária. Se íamos gostar um do outro. Porque tive experiências com humoristas que, no começo, achei que seriam ótimas, mas mais tarde percebi que me sentia burra ao lado daquela pessoa. E há um lado competitivo que algumas das pessoas mais engraçadas têm.
Dan é muito caloroso, muito receptivo, um grande observador, uma pessoa neurótica e engraçada, mas ele nunca rebaixa os outros ou se comporta de um jeito esquisito e negativo. Quando o conheci, pensei que amar aquele cara seria fácil demais.
O filme me fez perceber que uma certa dose de tensão e relaxamento pode ser boa, mas que o melhor trabalho das pessoas acontece quando elas se sentem respeitadas e vistas, em lugar de terem de batalhar por essa sensação –o que eu também adorava fazer, mas agora não me interessa mais. Não tenho mais a energia necessária. E é gostoso ver um filme no qual o humor é tão familiar para mim e meus amigos, e que trata de um relacionamento entre duas garotas. Parece maravilhoso poder zombar de coisas que magoam, porque desse jeito você se liberta delas.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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