Cinema e Séries
Descrição de chapéu Cinema

JP Gadelha, do The Circle, diz que 'se houver revolução no país, líderes serão nordestinos'

Bombeiro desafia estereótipos e diz que omissão de brancos reforça racismo

JP Gadelha, do The Circle Brasil

JP Gadelha, do The Circle Brasil Divulgação

São Paulo

Após fazer sucesso no reality show The Circle (Netflix), do qual saiu como terceiro colocado, JP Gadelha despontou nas redes sociais e tem sido considerado um novo influenciador digital. O bombeiro de 31 anos chamou a atenção por quebrar estereótipos durante o programa, demonstrando ser extremamente engajado politicamente e em relação às pautas sociais.

“Enquanto cidadão, observo um governo federal absolutamente desconectado dos anseios populares, sobretudo dos mais vulneráveis. É um governo cuja cúpula parece viver enclausurada num nicho radicalizado, incapaz de agregar”, desabafa JP.

“O presidente vem colecionando erros desde o início da pandemia, a ponto de a Suprema Corte ter de delegar aos prefeitos e governadores a liderança e protagonismo da crise. Ele menosprezou a agressividade da doença, declarou ser contra o isolamento horizontal, defende o uso de um medicamento que ainda não tem respaldo científico, respondeu com ironia quando questionado sobre o número de mortes e errou previsões e números”.

Como militar da ativa, JP não tem (e nem pode ter) qualquer filiação a partidos políticos, mas se considera um “social-democrata defensor do estado de bem-estar social”. Ele não concorda, por exemplo, com o título de “nova voz da esquerda” que já recebeu, pois afirma que sua figura não representa todas as pessoas desta posição política.

Diz, ainda, que não tem capital teórico e prático para receber essa definição, e que não representa as pautas diversas e plurais defendidas pela esquerda. Na opinião de JP, há muitas pessoas mais engajadas e que merecem essa visibilidade.

“Eu sequer me considero ‘militante’ no sentido pleno da palavra: apenas uso minha visibilidade nas redes sociais para expor aquilo que julgo coerente e necessário ao país”, diz. “Apoio um estado que, inserido no sistema capitalista, intervenha econômica e socialmente para promover justiça social e minimizar os efeitos nocivos desse sistema”.

Ele avalia que recebeu esse título porque as últimas eleições presidenciais intensificaram a polarização e retomaram ideais maniqueístas nas redes sociais. “Além disso, o fato de eu ser militar também traz uma série de representações e subcamadas, já que os militares que ganham evidência geralmente estão mais ligados às pautas da direita.”

Uma outra pauta defendida pelo bombeiro é a da luta contra o preconceito aos nordestinos. Nascido no Recife, JP participou da “aliança Norte-Nordeste” criada durante o período do The Circle, junto a Duma, Marina, Luma e Ray.

“Eu sempre digo que, se houver uma revolução no país, os líderes serão nordestinos. O nordestino é um sobrevivente e, por isso mesmo, um revolucionário. Faço questão de reafirmar e exaltar minhas raízes”, afirma ele, acrescentando que “fica retado” quando pessoas o dizem que, para fazer sucesso no meio artístico, é preciso neutralizar o sotaque. “Ora, se esse for o preço, prefiro não pagá-lo”.

Ele ressalta a importância de, nos últimos anos, nordestinos terem ganhado espaço no meio artístico, dando visibilidade a mais uma quebra de estereótipos. “É primordial que os nordestinos ocupem espaços que antes lhes eram negados. É, inclusive, uma questão política. Paira sobre o Nordeste uma espécie de unidade sociopolítica e cultural bastante limitada e castradora, como se não existissem individualidades”, avalia.

“Assim, quando nós, nordestinos, ocupamos esses espaços e nos mostramos plurais, diversos, únicos, automaticamente quebramos esse ciclo de estereótipos alimentados por décadas pelo cinema, novelas, literatura e artes visuais em geral.”

JP também faz uma reflexão sobre lugar de fala, e revela que tem aprendido muito nas últimas semanas sobre as questões do racismo, em decorrência dos protestos ocorridos no Brasil e em todo o mundo. Hoje ele entende que “lugar de fala” não é sobre proibições ou silêncios, e que, como branco, pode e deve falar sobre o racismo a partir de sua branquitude e privilégios.

“Em meu entender, o branco que não fala sobre o assunto pode não ser racista, mas sua omissão reforça, em certa medida, o racismo estrutural”, declara. “Por outro lado, um branco jamais poderá representar uma pessoa negra e assumir o protagonismo da luta antirracista. O primeiro passo é romper esse ciclo de privilégios para que possamos enxergar para além deles. E o mais curioso é que essa consciência só me atingiu agora, enquanto adulto. Eu nunca fui uma criança ou adolescente que observasse tais questões –e até isso é um privilégio.”

VIDA EM CONFINAMENTO

JP Gadelha foi o terceiro colocado no reality The Circle. O programa, apresentado por Giovanna Ewbank, reproduz o modelo inédito criado na Inglaterra, no qual participantes anônimos são confinados separadamente em apartamentos de um prédio no Reino Unido, e a comunicação é apenas através de uma plataforma digital –o Circle.

A ideia é atualizar seu perfil digital com conteúdos verdadeiros ou falsos, e interagir com os demais participantes ao mesmo tempo em que os classifica (ou os bloqueia, dando espaço para novos entrarem), formando um "ranking de popularidade" a cada semana. O jogador mais popular ao longo da maioria das semanas vence a disputa, e ganha um prêmio de R$ 300 mil. Na edição brasileira, a grande ganhadora foi Marina Gregory, seguida de Rayssa (Ray) Santos.

“Fui rotulado como estrategista, tanto pelos participantes quanto por parte do público. Alguns me chamaram até de manipulador –que, particularmente, me deixa muito ofendido. Sou militar desde os 19 anos de idade, portanto tenho uma tendência natural a racionalizar meus movimentos, medi-los, pesá-los, mas não é algo que forjei para The Circle. Tentei ser no reality o que sou na vida”, avalia ele, lembrando que começou o jogo como penúltimo colocado, o que o fez se aproximar mais das pessoas e formar alianças que garantissem sua sobrevivência.

Um fator curioso é que o reality foi gravado em 2019 e começou a ser exibido em março de 2020, de modo que o bombeiro pôde acompanhar, em tempo real, a repercussão de sua participação. A exposição, segundo ele, foi mais positiva do que negativa: apesar de levantar questões como a segurança, ele diz que tenta extrair o máximo de elementos positivos de sua fama. Ele levou para a vida, por exemplo, todas as pessoas com quem se relacionou no programa, e mantém contato com todos os participantes, especialmente por um grupo de WhatsApp chamado "Mamilo Brasil".

Fora do reality, JP continua atuando no Corpo de Bombeiros Militar da Bahia, onde trabalha há cerca de dois anos, após ter passado oito anos como tenente do Exército Brasileiro. Desde que saiu do Exército, o jovem escolheu permanecer na carreira militar e foi aprovado no concurso público. Quanto às projeções futuras na carreira, ele ainda pretende fazer o Curso de Formação de Oficiais e ascender na corporação.

“Recebo muitos elogios pela participação, mas, na prática, nada mudou. Como é uma instituição regida pelos pilares da hierarquia e disciplina, com atribuições bem definidas, continuo exercendo a mesma função”, conta o ex-The Circle. “Algo curioso aconteceu há um tempo, quando foram disponibilizados os últimos episódios do reality. Eu pedi uma comida pelo delivery e, quando o entregador chegou, ele olhou para mim e exclamou: ‘JP!’ Eu, muito feliz pelo reconhecimento, perguntei-lhe se havia assistido o The Circle. Ele, confuso, apenas disse: “Não. É assim que está escrito no pedido.”

Em sua nova casa em Feira de Santana (BA), JP tem passado o período de isolamento social com sua cadela, a Maria Quitéria, e tem saído de casa para trabalhar apenas em situações necessárias e para cumprir a escala operacional, mas dispondo de uma série de equipamentos de proteção individual específicos para esse período, além de haver atendimentos a protocolos específicos.

Para ele, o confinamento do The Circle e o da pandemia do novo coronavírus provocam sensações opostas. Ainda assim, ele avalia que o reality foi “visionário” ao retratar uma realidade que enfrentaríamos meses depois, e mostrou que as interações virtuais podem ser tão verdadeiras e profundas quanto as presenciais. E deixa um alerta final: “Embora lá o confinamento tenha sido uma escolha, hoje é uma obrigação legal e moral”.

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem