Cinema e Séries

Como patricinha rebelde, Maísa faz sua 1ª antagonista no cinema em 'Ela Disse, Ele Disse'

Adaptação do livro de Thalita Rebouças estreia nesta quinta-feira

Maísa Silva interpreta a estudante Júlia em

Maísa Silva interpreta a estudante Júlia em "Ela Disse, Ele Disse" Mariana Vianna/Divulgação

Caroline Feijó
São Paulo

Primeiro amor, bullying, muitos beijos e lições de empatia e amizade. A nova trama adolescente de Cláudia Castro, baseada no livro homônimo “Ela Disse, Ele Disse”, de Thalita Rebouças, 44, chega aos cinemas na próxima quinta-feira (3). Com elenco de peso, o romance conta as experiências de Léo (Marcus Bessa) e Rosa (Duda Matte) em uma nova escola.

Mas “Ela Disse, Ele Disse” pretende ir além do convencional drama adolescente. Com mulheres em praticamente todos os papéis de destaque e com dois beijos gays, o longa é necessário para os dias de hoje, segundo a escritora e roteirista Thalita Rebouças. "É um filme sobre primeiro amor, adolescência, mas é muito sobre empatia, e estamos precisando falar sobre isso esses dias.”

Maísa Silva, 17, vive a primeira antagonista de sua carreira. A patricinha Júlia disputa a atenção de Léo com a novata Rosa e estimula essa competição intimidando a personagem de Duda Matte. A atriz afirma que demorou a compreender uma personagem com uma personalidade tão oposta à sua, mas diz que o desafio de dar voz ao diferente a levou a entender a história de Júlia, que é sobre amadurecimento e aprendizagem.

"No começo eu pensava que não concordaria em nada com o que a Júlia fala. Em tempos em que uso minha voz para falar sobre sororidade, empatia e empoderamento, a Júlia vai contra tudo aquilo que eu prego como Maísa", diz a atriz.

"Ao mesmo tempo, é muito importante separar o meu trabalho dos meus valores pessoais, porque faz parte de ser atriz. É tudo sobre levar a mensagem da empatia e sororidade com uma personagem que não prega isso. Acho que quem assistir com esse olhar, vai ficar incomodado com o que a Júlia faz ou diz contra a Rosa, mas é justamente quando a pulga atrás da orelha começa a surgir", completa.

Para a atriz e apresentadora do SBT, o cinema nacional tem muito a oferecer neste gênero de filmes adolescentes: "Cresci com filmes de high school americano, e hoje em dia até eles já estão meio saturados. Primeiramente, fazer uma versão brasileira é ter a garantia de que não vai ser igual ao deles. Apesar de estarmos falando sobre o ensino médio, fundamental, a nossa maneira de falar sobre isso é muito diferente”, acrescentou.

O livro de Thalita Rebouças é de 2010 e o principal desafio da adaptação para as telonas foi a inclusão dos aparelhos digitais e redes sociais. "A essência da história não muda. O que muda é que na época não tinham redes sociais nem vídeo que viralizava, porque não tinha celular direito. Mas foi muito tranquilo fazer essa transição para os dias de hoje."

Para construir um retrato fiel da vida adolescente de hoje, a intensa conexão digital não pode ficar de fora. Com um elenco em que grande parte dos atores está na faixa etária de 14 a 20 anos, a influência da vida em rede marca presença dentro e fora das câmeras.

"A internet está o tempo inteiro com a gente, no trabalho, na vida social. É interessante como o elenco jovem consegue sair do mundo online e vir para o profissional, eles não pecam em nada. Acho até que eles conseguem agir melhor que as pessoas da minha idade em relação a ir para a internet e voltar para o profissional”, afirma a diretora, Cláudia Castro.

O elenco principal conta ainda com nomes como Fernanda Gentil, 32, Bianca Andrade, 24, e Matheus Lustosa, 17. Para filmar com o núcleo jovem do longa, foi preciso conciliar as gravações com os horários das aulas.

UM FILME DE PRIMEIRAS VEZES

“Ela Disse, Ele disse” retrata o primeiro amor de Léo e Rosa. Mas também é a primeira vez de seus intérpretes no cinema. Para Marcus Bessa, 19, o papel de Léo veio na hora certa. "Foi um grande presente que eu recebi. Eu sabia que tinham mais dois meninos fazendo teste para o Léo. Costumo dizer que fiquei com ciúmes do papel antes de ter ele na minha vida. Pensava: ‘Meu Deus, quero muito esse personagem’."

Este foi não só o primeiro trabalho do ator no cinema, mas o primeiro personagem principal. Apesar de confessar ter adorado viver um protagonista, Bessa afirma que daria o mesmo valor se fosse para um papel coadjuvante. “Tenho na minha base como ator que é preciso dar o amor e a dedicação da mesma forma para um e para o outro”.

Em comparação com outras áreas de atuação, o ator, que também trabalha atualmente em seu primeiro lançamento musical, dividiu os desafios da preparação para o papel de Léo: “Eu vim do teatro, e lá a gente passa o sentimento pelo movimento corporal. Na televisão, o movimento tende a diminuir um pouco. Já no cinema, não tem quase nada. Tem que expressar tudo pelo olhar e pela voz”.

Apesar das dificuldades de ser um iniciante nas telonas, o ator declarou que essa foi uma das melhores experiências que já viveu. Ele conquistou o papel em um momento de dúvida sobre a carreira, após não passar no teste para a novela “Malhação”. “Quando o mosquito do cinema pica, não tem escape. Foi a coisa mais legal que já fiz na vida. O Léo veio em uma fase crítica”, disse.

Para Duda Matte, a primeira experiência não poderia ter sido melhor. A adaptação do livro “Ela Disse, Ele Disse” é ainda mais especial para a atriz, que é fã da obra de Thalita Rebouças. Apesar disso, interpretar a personagem foi uma grande responsabilidade. "Esse livro é muito adorado. As mensagens que recebo são muito bonitas, do tipo ‘A Rosa participou de tal momento da minha vida’."

A atriz afirma que carinho do público é resultado da grande identificação que têm com a personagem. Rosa é uma “adolescente normal”, que passa por situações que todos já viveram na juventude –ou que ainda vão viver. “A escola nova, o primeiro amor, o relacionamento com a mãe, a inimizade com a amiguinha. Já ouvi muitos relatos de pessoas que se identificaram com ela.”

Além dos atores, essa também é a estreia de Cláudia Castro como diretora. Envolvida com o meio cinematográfico mesmo antes da produção, Castro contou que amou a experiência e tem muito a agradecer a toda sua equipe. A identificação com Thalita Rebouças desde o primeiro encontro também facilitou o trabalho da diretora. “Amor à primeira vista”, afirma Castro. 

O elenco conta com pessoas já estabelecidas em outras áreas de atuação. É o caso da jornalista Fernanda Gentil, que interpreta Paloma, a mãe de Rosa, e Bianca Andrade, digital influencer também conhecida como Boca Rosa, que viveu a professora Fátima.

“Nunca tinha feito cinema, não sou atriz, mas foi um papel muito interessante porque tem muito em comum comigo. Também sou mãe, não de menina, mas sou, e Paloma tem a essência da mãe. É muito carinhosa, tenta participar muito da vida da Rosa, acompanhar a velocidade da vida dos adolescentes, que tudo passa e transforma tão rápido”, explica Gentil.

Bianca já teve experiências anteriores com atuação, mas no teatro. Para ela, interpretar a professora Fátima foi muito importante para mostrar um lado diferente, que não tem nada a ver com a Boca Rosa. “Era uma hora por dia para cobrir a tatuagem. Foi muito legal mostrar um pouco de um outro lado meu, sem maquiagem."

Apesar de não ser a primeira vez nas telonas, Matheus Lustosa faz seu primeiro antagonista. Ele dá vida à Rafa Confusão, o valentão da escola. “Tem gente que já encontrou comigo e disse ‘Você está ruim demais no filme, hein?’ e eu fiquei superfeliz, porque se tivessem gostado de mim eu não teria feito o Rafa direito.”

BEIJO GAY E A DIVERSIDADE

Recentemente, a exclusão de uma cena do filme “Minha Mãe é uma Peça 3” gerou polêmica e mobilização entre internautas. A decisão de Paulo Gustavo, roteirista e protagonista do longa, de não incluir um beijo gay entre os personagens Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Thiago (Lucas Cordeiro) para selar a união do casal foi amplamente criticada.

O próprio intérprete de Dona Hermínia é homossexual, casado e pai de dois meninos gêmeos. Outra situação marcante envolvendo o beijo entre dois homens aconteceu ainda neste mês, na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, quando Marcelo Crivella (PRB) decidiu apreender uma obra de quadrinhos com uma cena de beijo gay.

Um dos momentos mais esperados de “Ela Disse, Ele Disse” é a da corrente do beijo, presente também no livro de Thalita Rebouças. Em meio às polêmicas envolvendo o assunto, o filme conta não com um, mas dois beijos entre pessoas do mesmo sexo.

“Estava na Bienal e ​acho que o momento não poderia ser mais propício. Se a gente pode passar tantas mensagens bacanas, porque não a de que a diversidade é extremamente bem-vinda?”, pergunta Rebouças. Bianca Andrade, que ficou surpresa com a inclusão da cena, não poupou elogios: “Tenho ainda mais orgulho de estar no filme”.

A diversidade está presente até mesmo na constituição da equipe. O sexo feminino dominou os sets de filmagem do longa: diretora, produtora, roteirista e atrizes principais são todas mulheres. A produtora Paula Barreto conta que a escolha da equipe não foi ao acaso: “Isso foi de propósito. Foi um combinado dar os cargos de chefia para as mulheres”.

Outro destaque no enredo é a da relação dos dois protagonistas com o desenvolvimento do corpo feminino. Algo comum entre jovens, a percepção da mudança do corpo infantil para o adulto foi tratada, segundo Castro, “sem nenhum apelo sexual”. Ao cruzarem com a personagem de Maísa, o primeiro pensamento tanto de Léo, quanto de Rosa, é a respeito dos seios da menina.

“Os peitos são personagens. A gente não lida com eles de uma maneira apelativa em nenhum momento. É sobre a insegurança do jovem e do adolescente, algo que todos nós vivemos. Nosso filme é um arquétipo do que acontece em todos os lugares do mundo”, explica Castro.

Para Maísa, a cena aconteceu de forma muito natural. Uma das conversas que a atriz teve com a roteirista durante a preparação foi de que não queria ter seu corpo sexualizado e, para ela, o resultado ficou muito real. “A Júlia é confiante com o corpo e isso chama atenção em qualquer pessoa. E é uma coisa que eu nunca tive na minha adolescência. O papel veio num momento muito bom da minha vida, que mesmo já estando mais segura, ainda lido com essa insegurança com meu peito. Colocar essa confiança na personagem me ajudou de certa maneira a me aceitar também. Foi uma maneira positiva de lidar com meu próprio corpo."

Para a produtora Paula Barreto, a problemática não é restrita aos corpos mais ou menos desenvolvidos, mas sim uma insegurança comum entre pessoas que ainda estão em fase de reconhecimento de si próprias. É justamente por isso que “Ela Disse, Ele Disse” é uma trama atual e de fácil identificação.

“É um problema tanto para quem tem o corpo mais desenvolvido quanto para quem não tem. Para as meninas é mais difícil que para os meninos. Essas questões com o corpo estão mais presentes para elas”, diz Barreto.

CENA NACIONAL

Paula Barreto herdou dos pais não só a LC Barreto, produtora de “Ela Disse, Ele Disse”, mas também o gene do cinema. Com anos de experiência na área, Barreto afirma que este é um momento muito difícil para o cinema brasileiro.

O longa estreia junto de duas grandes produções internacionais, “Coringa” e “Angry Birds”, o que gera uma disputa pelos horários de exibição. Ela explica que a grande dificuldade hoje é a falta de estratégias governamentais de incentivo e proteção ao cinema nacional.

“É muito difícil para a cinematografia nacional, seja ela qual for, disputar esse mercado dessa forma, sem regras mínimas que protejam o nosso cinema. Hoje, infelizmente, estamos em uma selva, que sempre vai proteger o cinema hegemônico que é o americano”, explica.

Mas, segundo Barreto, isso não é uma novidade para quem trabalha com cinema ou com produtos culturais de maneira geral: “O cinema brasileiro, historicamente, passa sempre por esses ataques. A gente já está meio acostumado a subir a montanha e quando você chega no final alguém dá uma pezada na sua cara e você precisa escalar tudo de novo do zero".

Mas, sem desanimar, a produtora acredita que é possível fazer com que os governos percebam a força e o poder do cinema e da cultura. “Um povo sem cultura é um povo sem alma, um povo que não se enxerga, não sonha, não se inspira. O dia que o governo brasileiro, seja ele qual for, entender, tiver um projeto para levar a nossa cultura pro mundo, não vai ter para ninguém. A nossa cultura é única”, disse, emocionada.

O próximo projeto da parceria entre Barreto e Thalita Rebouças é a adaptação do primeiro livro da escritora, “Traição Entre Amigas” (2000), que está em fase de pré-produção.

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