Cinema e Séries

Com Andréa Beltrão, filme sobre Hebe Camargo mostra como ela defendia suas convicções

Longa sobre a vida da apresentadora estreia em setembro

Da esq. para dir., Marco Ricca como o marido Lélio Ravagnani, Hebe Carmargo (Andréa Beltrão) e o filho, Marcelo (Caio Horowicz)

Da esq. para dir., Marco Ricca como o marido Lélio Ravagnani, Hebe Carmargo (Andréa Beltrão) e o filho, Marcelo (Caio Horowicz) Divulgação

Cristina Padiglione
São Paulo

Biografada por Carolina Kotscho, Hebe Camargo tem algumas poucas (e perecíveis) fragilidades reveladas no filme “Hebe - A Estrela do Brasil”, que estreia no dia 26 de setembro nos cinemas. Mas, vista sob a ótica atual, a figura da maior apresentadora de TV que o Brasil já conheceu certamente faria estrago na cabeça de muita gente que hoje tem a necessidade de rotular todo cidadão, anônimo ou famoso, pelo seu viés ideológico.

A saudável ambiguidade de Hebe Camargo é o ponto alto do longa, que tem direção-geral de Maurício Farias, marido da atriz que vive a protagonista, em uma performance irrepreensível de Andréa Beltrão. O filme mostra como aquela mulher que brigava para levar a transexual Roberta Close em seu programa, tratando-a como “a mulher mais bonita do Brasil”, recebia também o “doutor” Paulo Maluf e sua esposa, Silvia, para a ceia de Natal.

“A Hebe não é de direita, a Hebe não é de esquerda, a Hebe é direta”, diz ela em uma das cenas em que fita a câmera com intimidade. No enredo que a retrata agora, Hebe arranca um selinho de Roberto Carlos diante de seu auditório, comprando o ciúme doentio do marido, Lélio Ravagnani, quase reencarnado em Marco Ricca de tão verossímil que o ator se mostra na reprodução gestual do personagem.

Mas a mesma Hebe sofria pela desconfiança do cônjuge, como uma esposa “normal”, recatada e do lar, ao mesmo tempo em que não se curvava a essa condição, obrigando-o a se desculpar. Também brigava pela liberdade do filho, Marcelo, aqui vivido por Caio Horowicz, de quem Lélio levantava suspeitas de ser alguém “estranho” por nunca ter aparecido com “uma namorada”.

Hebe não caberia nos rótulos de hoje. Em um dos auges vividos por ela no recorte do filme —que se dedica à década de 1980, na troca da Band pelo SBT—, ela era tratada como “malufista”, credencial que a perseguiu até o fim da vida, mesmo porque ela não fazia questão alguma de negar a amizade.

Do malufismo à descriminalização do aborto, a Hebe Camargo original morreu defendendo suas convicções, por mais contraditórias que elas pudessem parecer. Esse contraste está bem presente no longa, exibido na noite da última quarta-feira (21) no Festival de Cinema de Gramado.

Hebe defendia os gays em um tempo em que ninguém o fazia. O filme a mostra visitando em uma enfermaria de hospital público o seu amigo e maquiador, uma das primeiras vítimas da Aids daquele período, e o ato público de rezar por sua alma em pleno palco do SBT, desafiando a hipocrisia de um sacerdote que se recusou a se levantar do sofá para orar.

Eram os tempos em que a doença era tratada como “coisa do demo”. Hebe já fugia da ideia naqueles dias, enquanto zelava por sua santinha, Nossa Senhora Aparecida, sem qualquer demérito à fé cristã. Andréa Beltrão como Hebe constrói uma recomposição impressionante e escapa da cilada de ser julgada por interpretar uma figura tão popular e ainda tão em voga na memória afetiva do grande público.

Por mais que a atriz já tenha contado o quanto se dedicou a estudar cada pronúncia de cada sílaba da personagem original, impressiona ouvi-la em cena, dentro do tom, do ritmo e da dicção que inspiram o papel. Quando ela diz “eu sou uma pessoa apaixonada”, assim mesmo, sem o “i”, é possível ouvir a própria Hebe dizer a mesma palavra de modo idêntico.

Não por acaso, o filme abre com uma gargalhada da apresentadora, ainda restrita ao áudio, sem a sua imagem, e é impossível decifrar se aquele som é uma reprodução da atriz ou obra da Hebe original. O enredo nos leva a certa compaixão por Marcelo, um menino que cresce amparando a mãe dos tombos que os outros tentam lhe dar, mas sem amigos e sem paciência para aquele ambiente de ricos e famosos engravatados.

Ele mesmo prefere se jogar na piscina com os empregados da casa, seus melhores amigos, com quem democraticamente divide os melhores champanhes das festas de fim de ano, enquanto a mãe fica na sala a rir e a contar piadas entre Paulo e Silvia Maluf.

MINISSÉRIE SOBRE HEBE NA GLOBO

O que há de ruim no filme “Hebe - A Estrela do Brasil” é que ele deixa o espectador com vontade de ver mais sobre o assunto. Afinal, a história ali termina sem que a gente conheça o destino final de seus personagens. Não custa avisar, mais uma vez, que o longa se limita a um trecho da vida de Hebe.

Quem quiser conhecer a história completa, reproduzida em ficção, com este mesmo elenco, terá de esperar pela minissérie da Globo, em 10 capítulos, que cobre toda a trajetória da loira. Ainda sem previsão de exibição, a série foi toda gravada após a filmagem do longa-metragem.

O filme, contudo, mostra essas várias Hebes: a dengosa, a perua, a mulher que saía pisando para dizer o que pensava, a gracinha, a religiosa e a liberal. Estão todas debaixo daquele exagero de brilhos e paetês, sempre acompanhadas de um bom copo de uísque ou champanhe, por favor, ostentadas em um belo par de saltos altos. 


"HEBE - A ESTRELA DO BRASIL" - CURIOSIDADES

- Algumas roupas que Andréa Beltrão veste são da própria Hebe Camargo.

- A maioria das joias usadas em cena também são de Hebe; elas levadas para o set de filmagem em uma pochete simples, a fim de driblar olhares de cobiça de eventuais bandidos pelo meio do caminho.

- Por serem de grande valor técnico e de um valor afetivo impossível de ser mensurado, as joias não obtiveram seguro de nenhuma empresa, já que nenhuma aceitou fazer o serviço.

- Andréa Beltrão passou meses com os cabelos loiros e cada preparação para gravar implicava longo expediente na maquiagem, onde colocava um aplique para multiplicar o volume dos fios.

- A reprodução de época é muito cuidadosa, do estúdio que serve de cenário ao programa da “loiruda” aos figurinos e arquitetura, com os devidos traços da década de 1980.

- A casa onde a apresentadora morou com Lélio Ravagnano não pode ser usada como locação por estar envolvida em uma pendenga judicial relacionada à família dele; a equipe então encontrou outra casa no Morumbi, bairro onde Hebe morava, para servir de cenário.

- O imóvel onde ela passou seus anos finais, após a morte de Lélio, será vista só na minissérie, por retratar outro período; a casa está até hoje decorada como ela deixou.

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