Celebridades

Por que padre Fábio de Melo não fala comigo? Uma incursão a Taubaté

A vida do religioso em sua casa, na área rural de Taubaté

Padre Fábio de Melo Globo

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Paulo Sampaio
Taubaté

Atravessado por uma estrada de asfalto precário, o Ipiranga é uma área rural que faz parte do centro expandido de Taubaté, cidade de 320 mil habitantes, a 130 km de São Paulo. Para quem segue de carro sentido Rio, fica à direita da Via Dutra, enquanto o centro está à esquerda. Com pastos planos, vendinhas onde se anunciam queijo fresco, bolos e doces caseiros, e pequenos comércios de material de construção, mecânicas e borracharias, o lugar não parece despertar muito interesse nos habitantes da parte mais urbanizada da cidade.

Nem mesmo a Prefeitura de Taubaté (gestão José Saud, do MDB) sabe informar a área que o Ipiranga ocupa, sua principal atividade econômica, a renda per capita ou o nível de escolaridade da população.

É nesse contexto, a cerca de 7 km do centro da cidade, que se avista a imponente propriedade do padre Fábio de Melo. Projetada pelo arquiteto Alfredo Kobbaz, que atende a uma clientela de enriquecidos da alta sociedade taubateana, a casa impressiona não só pelas dimensões como pela opulência –é um suntuoso parêntese no entorno campesino, que aparentemente sobrevive com o que os cristãos chamariam de mínimo indispensável.

DOM DA PALAVRA

Celebridade glorificada com dom da palavra e o pendor artístico e literário, Melo tornou-se o padre-cantor-escritor-apresentador mais famoso do país. Por "questões contratuais", nem a editora Planeta nem a gravadora Paulinas-COMEP revelam números de vendas. Estima-se que cheguem a mais de 3,5 milhões de livros e 3 milhões de cópias de CDs.

Isso rendeu dois discos de ouro, um de platina e dois Grammy Latino. A Som Livre, primeira gravadora a lançar um álbum de canções seculares do padre, informa que foram vendidas 1,3 milhão de cópias.

LEGIÃO DE DEVOTOS

Nascido em Formiga (MG), a cerca de 200 km de Belo Horizonte, Fábio de Melo é o mais novo dos oito filhos de um pedreiro e uma dona de casa. Desde criança, segundo diz, "sempre quis ser artista". Talentoso, carismático, articulado, Melo é venerado por uma legião de devotos.

Em missas realizadas na Canção Nova, a comunidade religiosa católica situada em Cachoeira Paulista, a 190 km da capital, chega a reunir 30 mil fiéis. Na quinta, 20 de junho, em sua estreia no santuário da comunidade, rezou pela primeira vez desde o começo da pandemia. Pouco divulgado, o evento atraiu 816 pessoas. "Funcionamos com 60% da capacidade total [5.000 pessoas]", informa a assessoria da Canção Nova.

Empenhado em ajudar parentes de vítimas da Covid-19, o padre participou com a cantora-pastora Aline Barros de uma ação promovida em fevereiro pelo Sesc (Serviço Social do Comércio) do Amazonas chamada "live que alimenta". Com o valor arrecadado, foram adquiridas e doadas 610 cestas básicas —um total de 7,9 toneladas de alimentos, que atenderam a seis instituições sociais e chegaram a 610 famílias, ajudando diretamente a 3.050 pessoas.

SEM A BÊNÇÃO

Desafortunadamente, padre Fábio não abençoa o repórter com uma entrevista. Seu assessor diz que vai providenciar algumas informações solicitadas por WhatsApp, mas isso nunca acontece. Em três dias de Taubaté, busco informações com vizinhos, amigos e conhecidos. Quase nenhum entrevistado quer se identificar.

"O ego é uma coisa que não para de crescer, Gabi, e isso é muito perigoso", disse o padre, em entrevista à jornalista Marília Gabriela. "Como liderança religiosa, o fato de sermos conhecidos se torna um risco muito grande."

"QUE DESPERDÍCIO"

Na aparência, o padre cultiva o estilo "galã com consistência", do tipo que leva os fiéis a dizer que ele é "bonito por dentro e por fora". "Que desperdício", suspiram os mais atirados. Versátil, ele faz rir e chorar com a mesma habilidade. Em novembro, às vésperas das eleições, postou uma divertida sátira dos políticos.

Em um momento mais intimista, ao falar sobre a quarentena em uma live com o cantor Luan Santana, a voz saiu embargada. "Eu tenho a felicidade de morar em um lugar tranquilo, na zona rural. Estou há dez dias na minha casa, sem poder sair. Tudo o que a gente precisa é um lugar que nos dê paz."

RANGE ROVER EVOQUE

Para acessar a propriedade do padre, o visitante passa por um canteiro ornamentado com palmeiras, sobe uma rampa revestida com paralelepípedos e chega a um portão de aço preto, instalado no centro de um muro alto de concreto, encimado por câmeras de segurança. Tento me aproximar, mas a guarita protegida com vidro escuro, ainda em fase de finalização, é um "desconvite" à interação pastoral.

Naquele momento, entra ali um Range Rover Evoque, modelo oferecido pelas concessionárias da marca por R$ 380 mil. Quem está ao volante, segundo informações dos vizinhos, não é o padre, e sim um "assessor fortão" dele. De acordo com um agricultor local, o assessor passa o tempo inteiro na casa e dirige os carros.

Imagem de um veículo Range Rover Evoque; modelo é oferecido pelas concessionárias da marca por R$ 380 mil - Divulgação - 10.mai.2015

A GRAMA DO VIZINHO...

Por algum motivo ainda ignorado, o agricultor entende que tenho interesse em comprar uma propriedade no local, e oferece a de um empresário que mora à esquerda de Melo.

No dia seguinte, o empresário me recebe para fazer negócio. Estabelece como preço de partida R$ 2,5 milhões. A casa é muito confortável, tem cerca de 500 metros quadrados e fica em um terreno em aclive, como a do vizinho famoso. O empresário reconhece, porém, que a de Fábio de Melo vale muito mais. Só de aparelhos de ginástica, ele contou 38. Pontos de TV são 45, relata o vizinho. Há até um elevador, que o padre mandou instalar por causa da mãe [que morreu em março, vítima da Covid-19].

Pelas vezes em que visitou Melo, e partindo da metragem de sua própria casa, o empresário calcula que a do padre tenha cerca de 800 metros quadrados. Foi construída em um lote igual ao dele, de 23.700 metros quadrados.

Do mezanino do empresário, é possível ver parte da casa de Fábio de Melo, cujo muro lateral "cresceu" justamente para proteger o proprietário célebre de olhares indiscretos. Em vão. O empresário lembra que, em um dia de chuva forte, o tapete oriental de oito metros da sala do padre ficou ensopado, e as empregadas ligaram "desesperadas" para saber onde podiam encontrar uma lavanderia que o recuperasse. Para dimensionar o grau de exigência de Melo, o empresário conta que o padre mandou remover todo o paisagismo da frente da casa, na volta de uma viagem, porque não gostou do trabalho que fizeram.

O ASTRO DO CONVENTINHO

No fim dos anos 1990, quando ainda era estudante de filosofia e teologia, Fábio de Melo habitava um quarto no chamado "conventinho", o alojamento da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus --Dehonianos.

A caminho do sucesso e da fortuna, deixou a congregação (onde estava comprometido com o voto de pobreza), recebeu o uso de ordens do bispo de Taubaté e, hoje, segundo informa a diocese por email, desfruta de maior liberdade para evangelizar. "No atual contexto de mundo, a Igreja entende que a sua ação não se limita ao âmbito eclesial. Para isso, é preciso ocupar 'novos púlpitos'", diz a mensagem.

No Instagram, o padre conta com 24,4 milhões de seguidores. Ali, além de pregar, anuncia produtos como o New Hair, uma vitamina para cabelo e barba. Pelos cálculos de Ana Passarelli, diretora de operações da agência Brunch, especializada em influenciadores digitais, o padre alcança em média 2 milhões de pessoas por post patrocinado, o que equivale a uma monetização de por volta de R$ 40 mil. "Para chegar a esse valor, a gente leva em conta custo de produção, uso de imagem e distribuição", explica Passarelli.

Em foto de 2011, padre Fábio de Melo recebe ajuda para se vestir na Catedral São Francisco de Chagas, em Taubaté - Karime Xavier - 27.out.2011/Folhapress

HARMONIZAÇÃO FACIAL

Além de malhar nos 38 aparelhos de ginástica ("de nada adianta Deus me dar o dom, se eu não cuido bem dele", diz) o padre se submete a procedimentos estéticos no rosto, pelas mãos de uma dermatologista chamada Karla Assed, que cobra R$ 800 por consulta. No Instagram, onde tem 165 mil seguidores, a médica posta fotos com o padre famoso. De acordo com a pessoa que atende o telefone na clínica, ele é amigo e paciente.

Há quem tenha dito que houve exagero na dose de preenchimento no rosto de Melo. Em dezembro do ano passado, quando ele apresentou uma live com a designer Joia Bergamo, os seguidores estranharam as mudanças na expressão de seu rosto: um perguntou se ele tinha "harmonizado"; outro comentou que havia algo de diferente, e inexplicável, em sua expressão. Haters apontaram "desarmonização facial".

A assessora de Karla Assed disse que falaria com a dermatologista sobre uma possível entrevista, mas nunca ligou de volta.

INFECÇÃO DE OUVIDO

A gerente de banco Tathiana Peloggia, 38, que eu encontro no cabeleireiro Marcela Isis Conceito & Beleza, no centro de Taubaté, afirma que "as pessoas são maldosas". "Ele ficou com o rosto inchado por causa de uma infecção no ouvido", garante Tathiana, que diz conhecer Melo há mais de 20 anos, quando os dois treinavam na academia de Elaine Indiani, no shopping.

"Ele tem de cuidar da saúde para poder escrever, cantar, pregar, gente, esse homem faz muita coisa. Nas redes sociais, quando vê gente que não se trata, ele arregaça mesmo: 'Você acha bonito comer tanto doce com essa diabete? O corpo da gente é sagrado!'"

A propósito das "rabugices" do padre, citadas por boa parte dos entrevistados, Tathiana afirma que ele apenas impõe limites aos fãs. "Tem muita gente sem educação. A pessoa está almoçando no restaurante, a outra chega, abraça, beija, se pendura, o que é isso, meu Deus? Se eu faço uma coisa dessas, minha mãe me puxa pelos cabelos e acaba comigo! Questão de berço!"

Para se preservar, padre Fábio eventualmente toma providências antiassédio. Foi assim na festa de casamento da apresentadora Nicole Bahls, em 2018, que ele celebrou na Candelária, no centro do Rio. Um convidado presente à festa lembra que, enquanto famosos como Adriane Galisteu, Latino e Jojô Todynho circulavam livremente pelo salão, ele ficou em uma mesa protegida por seguranças.

TRASLADOS DE HELICÓPTERO

Converso com outra taubateana que tem trânsito na alta sociedade da cidade, e ela me conta que Fábio de Melo foi "adotado" no início da vida religiosa por um grupo de senhoras da elite católica, que o cercavam de cuidados. Ela lembra que, antes das noites de autógrafo, essas senhoras avisavam que o padre detestava quando o cabelo das mulheres caía em cima do livro enquanto ele assinava a dedicatória. Diziam que não era para se debruçar muito na mesinha.

Embora seja fiel às patronas, hoje os compromissos artísticos não permitem que o padre as veja amiúde. Uma exceção é Aparecida Zarzur, dona de uma das escolas mais tradicionais de Taubaté, a Dinâmica. Aparecida colocou à disposição o pátio do clube de campo da escola, que fica a cerca de 500 metros da casa do padre, para eventuais pousos de helicóptero.

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Campo do clube de uma escola que é emprestado para os pousos de helicóptero do padre - Paulo Sampaio/UOL

Procurada pela reportagem no clube de campo, Aparecida não apareceu. A jovem que veio até o portão atender a reportagem perguntou qual era o assunto. Eu disse que precisava de informações sobre o padre Fábio de Melo; ela me pediu um minuto, e voltou com a informação de que a patroa estava repousando.

Quem comenta sobre os pousos de helicóptero do padre é Suelen, filha da dona do Restaurante da Anália, cujas especialidades, de acordo com uma tabuleta exposta na calçada, são coxinha de carne, coxinha de frango e esfirra de carne.

Restaurante da Anália, em Taubaté - Paulo Sampaio/UOL

TRICICLO "ESTRADEIRO"

De uma maneira geral, os moradores do Ipiranga falam de Fábio de Melo como uma pessoa distante, inalcançável, que eles veem apenas quando passa em algum veículo chamativo. O genro de Anália, que prefere ter a identidade preservada, afirma que o padre troca muito de carro, e que já o viu até em um triciclo branco "bem diferente", que tem duas rodas na frente.

Na concessionária Can-Am, em São Paulo, especializada nesse tipo de triciclo, o vendedor André Muller me informa que um modelo Spyder, o mais vendido, custa cerca de R$ 150 mil. "É um veículo de passeio, 'estradeiro'", diz.

JARDIM DE INVERNO

Estaciono o carro na porta do vizinho da frente de Fábio de Melo, atraído pela oferta de queijo fresco e doces. Ele informa que o padre não está ali por aqueles dias. Foi para a casa de Campos do Jordão... Campos do Jordão?

Na cidade serrana, localizo o corretor Alfredo Esposati, que tem 42 anos de experiência com imóveis na região e conhece bem a história da casa. Diz que o padre a comprou do ex-ministro do Planejamento (governo José Sarney) João Sayad, que, por sua vez, pagou por ela nos anos 1990 cerca de US$ 900 mil (por volta de R$ 4,8 milhões, na cotação atual). O negócio foi intermediado pelo próprio Esposati. O ex-ministro morreu no dia 5 de setembro.

Trata-se de uma propriedade ainda maior que a do Ipiranga. "Fica próxima do Palácio Boa Vista, em um terreno de 20 mil metros quadrados, 12 mil de área verde. Tem nove dormitórios, piscina e vista para a pedra [do Baú]", diz o corretor. "O padre comprou a casa ao lado também, que foi construída em um terreno menor, de 10 mil metros quadrados. As duas, juntas, valem por volta de R$ 7 milhões."

EXCURSÃO RURAL

"No meu tempo, os padres eram desapegados de dinheiro", diz Silésio Tomé, 61, que desde 2013 realiza turismo rural na região do Ipiranga. Autodidata, Silésio diz que estuda a história daquela área há 50 anos. Ele próprio aluga o ônibus, contrata o motorista e conduz os visitantes por 100 km, das 7h às 18h. Cobra R$ 80. "Graças a ineficiência da prefeitura, que deveria ter a iniciativa de mostrar a cidade a quem chega, o meu tour deu muito certo." Antes da pandemia, ele costumava conduzir cerca de 400 turistas por mês, a maioria vinda de fora da cidade.

A excursão passa pela porta da casa do padre Fábio, mas, segundo Silésio, é o que menos interessa aos visitantes. "Quem vai para a roça quer saber de peculiaridades da região." Nesse sentido, ele diz que a casa até descaracteriza o que há de genuíno ali. Afirma, sem ressentimento nem maldade, que nunca esteve na casa do padre, e que estranha "aquela ostentação".

ZEZINHO E JOÃOZINHO

Para tentar entender como a Igreja Católica lida com padres que têm grande patrimônio, procuro dois ex-professores da Faculdade Dehoniana que tiveram grande influência na carreira de Fábio de Melo. Padre Zezinho, que compôs mais de 8.000 músicas e canta desde os anos 1960, manda dizer que está muito ocupado e não pode me atender. Padre Joãozinho tampouco.

Pergunto na diocese se o padre colabora financeiramente, eles respondem: "Em questões de ordem pessoal e institucional, a diocese se reserva o direito de não divulgar informações, por se tratar de interesse exclusivamente interno. Para mais informações, pode ser contatada a assessoria do Pe. Fábio." Que não informa nada.

Recorro ao padre Julio Lancelotti, que, sem se referir especificamente a Fábio de Melo nem a nenhum outro religioso da Igreja Católica, me explica que "toda diocese tem uma comissão financeira e um 'plano de manutenção'". "O balanço é aberto, até porque a Receita Federal observa com muito rigor isso."

Segundo ele, todos os padres declaram imposto de renda. "O valor cobrado pela celebração de um casamento não pode ser maior que o que se paga no cartório, mas é difícil controlar isso. Há quem cobre R$ 5.000." A assessoria de Nicole Bahls diz que o padre não cobrou nada para fazer o casamento dela.

No final da incursão a Taubaté, deixo a cidade com o coração apertado, e me pergunto: "Por que o padre Fábio de Melo não fala comigo?"

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