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Descrição de chapéu The New York Times

Mayim Bialik, de 'Big Bang Theory', tenta controlar suas opiniões polêmicas

Atriz, que já questionou vacinas, muda para apresentar atração popular

Mayim Bialik Amanda Hakan - 22.set.21/The New York Times

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Julia Jacobs
The New York Times

Depois que o debate sobre a sucessão no comando do game show Jeopardy! fez de um dos mais respeitados programas de jogos da TV americana tema de piadas nos programas de entrevistas noturnos e na cerimônia dos prêmios Emmy, Mayim Bialik assumiu como apresentadora temporária na temporada em curso, e seu objetivo era simples: não chamar atenção demais para ela mesma.

O trabalho, em sua interpretação, envolve simplesmente oferecer as pistas, e ela vem preferindo um guarda-roupa de cores discretas, como o azul-marinho, ao rosa choque que usou na temporada passada. "Eu não queria desviar a atenção das pessoas —olha lá aquela mulher de novo", disse Bialik em entrevista recente. "Penso muito sobre Jeopardy!, e acredito que o apresentador precise ser neutro para que o programa seja agradável".

Ser neutro para agradar: é uma frase que descreve bem a situação de Jeopardy!, um programa estabelecido e muito tradicional da TV americana. Mas os esforços da rede de televisão para encontrar um sucessor para o muito querido apresentador Alex Trebek, que morreu no ano passado, não vêm sendo nem neutros e nem agradáveis.

Em agosto, foi anunciado que Mike Richards seria o apresentador, e que Bialik apresentaria os especiais em horário nobre. Depois a indicação de Richards implodiu, por conta de uma série de comentários ofensivos que ele fez em um podcast. Agora, Bialik assumiu como anfitriã temporária, mas já deixou claro que gostaria de ocupar o posto permanentemente.

No entanto, Bialik, uma atriz popular de sitcoms, que mantinha um blog quando blogs eram populares, um vlog quando vlogs eram populares, e agora tem um podcast —há muito vem atraindo atenção e causando controvérsias, com declarações sobre numerosos assuntos.

Quase uma década atrás, ela escreveu um livro que falava sobre tomar "uma decisão fundamentada de não vacinar nossos filhos", o que a levou a esclarecer no ano passado que eles seriam vacinados contra o coronavírus.

Ela postou em seu blog sobre doar dinheiro para a compra de coletes à prova de balas para as forças de defesa de Israel. Endossou um "suplemento de saúde cerebral", alguns meses atrás, sob contrato com uma companhia que aceitou um acordo extrajudicial para encerrar um processo no qual era acusada de falsa propaganda

O escrutínio de suas muitas declarações passadas agora se tornou o mais recente capítulo na saga em que a busca do game show por um apresentador definitivo se transformou.

"No momento, temos uma pessoa completamente livre de controvérsias, Mayim Bialik", brincou John Oliver em um recente episódio de Last Week Tonight, acrescentando que "ela é uma pessoa que eu acho ótima, porque não tenho Google".

A série não tratou dessas críticas publicamente, e os episódios de Bialik parecem ter registrado um pequeno ganho de audiência comparados aos cinco episódios que Richards gravou antes de sua saída (talvez beneficiados pelo participante Matt Amodio e sua longa sequência de vitórias, que acabou há algumas semanas).

Bialik espera se tornar a primeira mulher a ocupar em caráter permanente o posto de apresentadora de Jeopardy!, e brincou em uma entrevista que o escrutínio público poderia ter sido pior. "O crédito vai todo para mim e para minha agente de imprensa, Heather, por não termos causado ainda mais motivo de controvérsia", disse Bialik, rindo. "Porque falo muito há muito tempo".

Bialik está diante das câmeras há décadas. Ela se tornou estrela infantil de uma série de comédia, "Blossom", em 1990. Mais tarde, passou anos interpretando uma das personagens de "The Big Bang Theory".

Mas as opiniões que ela não hesita em revelar, sobre um grande número de coisas, lhe valeram numerosas críticas. "A noção de sutileza e de nuança é algo que falta à nossa cultura já há muitos anos", ela lamentou na entrevista.

Os produtores de Jeopardy! recentemente anunciaram que Bialik continuaria como apresentadora até o dia 5 de novembro, e que depois disso ela dividiria a função com Ken Jennings, ex-campeão do programa que é visto como candidato a apresentador permanente.

Parte do desafio para Bialik –e para qualquer pessoa que se interesse pelo posto– será a comparação com Trebek, que começou como narrador em 1984 e cultivava a imagem de um narrador onisciente, impecavelmente imparcial.

Bialik, que fez doutorado em neurociência, tem um jeito de falar direto que aponta para a espécie de inteligência que Trebek projetava como apresentador. Sua experiência como atriz –ela no momento estrela a sitcom "Call me Kat", na rede Fox– a acostumou às demandas de uma produção televisiva com cronograma puxado.

Bialik define a posição de apresentadora de Jeopardy! como "uma combinação de tudo por que trabalhei até hoje". Mas sua disposição de expressar suas opiniões publicamente sobre todos os assuntos, da maternidade aos conflitos no Oriente Médio, representa um rompimento considerável com relação à neutralidade deliberada de Trebek.

Em um livro de memórias publicado pouco antes de sua morte, Trebek escreveu que mantinha suas opiniões tão resguardadas que recebia cartas de telespectadores republicanos que achavam que ele era democrata e de telespectadores democratas que achavam que ele era republicano. (Trebek não era eleitor registrado de qualquer dos dois partidos.)

Uma busca pelo nome de Bialik no Google traz extensos arquivos de pensamentos escritos e gravados quanto a assuntos que vão de suas opiniões sobre depilação ao filme "50 Tons de Cinza", palavrões, paquera online, a terceira onda do feminismo, sexualidade feminina, música pop e um outdoor com uma foto de Ariana Grande vestida em trajes reveladores.

Um artigo de opinião que ela escreveu para o The New York Times em 2017, "Ser Feminista no Mundo de Harvey Weinstein", atraiu críticas. Bialik esclareceu mais tarde que as únicas pessoas responsáveis por agressões "são os predadores que cometem esses atos horrendos".

Ela revelou inúmeros detalhes sobre sua vida pessoal, discutiu seu divórcio, suas dificuldades ao envelhecer e seus problemas de imagem corpórea, além de sua abordagem sobre como criar filhos. Este ano, Bialik criou um podcast sobre saúde mental no qual fala abertamente sobre lidar com a ansiedade e distúrbios alimentares.

Bialik passou muitos anos afastada de Hollywood. Fez seu doutorado, teve dois filhos e imaginava que passaria o restante de sua vida lecionando hebraico e piano, até que começou a trabalhar em "The Big Bang Theory", em 2010. O que deveria ser uma participação especial de dois episódios na série da rede CBS se transformou em nove temporadas e quatro indicações ao Emmy.

Bialik terminou por não fazer carreira acadêmica, como imaginava que faria, mas menciona frequentemente seu doutorado, nos livros sobre criação de filhos e desenvolvimento de adolescentes que escreveu, e em suas afiliações a organizações ou produtos. ("Neuriva é um suplemento para o cérebro que conta com a confiança de uma verdadeira neurocientista –eu!", ela afirma em um anúncio para empresa, cujas afirmações publicitárias foram descritas pela revista Psychology Today como "pseudociência".)

Antes que o endosso de Bialik ao Neuriva fosse anunciado, a companhia que fabrica o produto, Reckitt Benckiser, foi alvo de uma ação judicial coletiva na qual os queixosos afirmavam que não existiam provas sólidas de que o suplemento melhorasse o desempenho do cérebro. A empresa negou qualquer impropriedade, e concordou em passar a descrever os ingredientes do produto como "testados clinicamente", em lugar de "comprovados clinicamente".

Bialik disse que continua a ser porta-voz do suplemento –ela assinou um contrato de longo prazo– e que consultou um painel médico sobre o Neuriva antes de assinar. "O produto é exatamente o que diz ser: um suplemento que traz componentes saudáveis para o seu cérebro", ela disse. "Não faço nem fiz qualquer afirmação de que ele cure qualquer coisa".

Em seu livro de 2012 sobre o apego materno, "Beyond the Sling", Bialik escreveu que ela e o seu então marido haviam decidido não vacinar os filhos. Mais tarde, ela protestou ao ser descrita como "antivacina".

Em resposta a críticas recentes, Bialik, que educa seus filhos em casa, disse que desejava "gritar aos quatro ventos" sobre um vídeo que ela gravou no ano passado e que diz esclarecer sua posição.

No vídeo, Bialik afirma que seus filhos e ela receberiam vacinas contra o coronavírus e a gripe. "A verdade é que posterguei a vacinação por motivos que você nem sempre vem a conhecer simplesmente por me seguir na mídia social", ela disse.

Agora, ela afirma no vídeo, "meus filhos podem não ter recebido todas as vacinas que os seus filhos receberam, mas eles foram vacinados". Ela acrescentou que, em sua opinião, "aplicamos vacinas demais".

Durante a entrevista, Bialik disse que os produtores de Jeopardy! não haviam pedido que ela moderasse suas declarações francas, desde que ela assumiu o comando interino do programa, mas que ela de qualquer forma estava pensando em fazê-lo.

Dois tópicos sobre os quais Bialik muitas vezes se pronunciou em público são sua devoção ao judaísmo e a pressão social quanto à aparência das mulheres. Mas quando perguntada sobre sua reação à saída de Richards –que fez uma brincadeira em seu podcast se referindo a um estereótipo antissemita quanto ao tamanho dos narizes dos judeus, e comentários depreciativos sobre corpos femininos—, ela se recusou a revelar sua opinião.

"Tive uma reação, mas não acho que ela deva ser levada a público", disse Bialik. "Isso pode complicar ainda mais qualquer discussão sobre tentar levar Jeopardy! de volta à normalidade. E por isso respeitosamente fiz a escolha de não me pronunciar".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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