Celebridades

Sarah Parker e Matthew Broderick vão completar 23 anos de casados e com peça na Broadway

Os dois atores estarão em "Plaza Suite", peça de Neil Simon que estreia em abril

Sarah Jessica Parker e Matthew Broderick no Fairmont Copley Plaza em Boston
Sarah Jessica Parker e Matthew Broderick no Fairmont Copley Plaza em Boston - Philip Montgomery/The New York Times
Amanda Hess
Nova York

O casal Sarah Jessica Parker, 54, e Matthew Broderick, 57, será visto oito vezes por semana na Broadway a partir do dia 12 de abril. Os dois atores estão em "Plaza Suite", peça de Neil Simon, interpretando três casais em três peças de um ato, todas passadas em 1968.

O espetáculo começaria nesta sexta (13), no Hudson Theater, para uma temporada de 17 semanas, mas foi adiado após o estado americano de Nova York proibir reuniões de mais de 500 pessoas, a fim de retardar a propagação do coronavírus. A decisão impacta diretamente os espetáculos e os teatros.

A peça, que oscila entre tragicomédia e farsa, foi escrita em meio às mudanças nas expectativas conjugais da década de 1960, e cada um dos casais está em uma temperatura: Sam e Karen Nash, um casal cujo 23º aniversário de casamento é estragado pela descoberta de uma infidelidade; Jesse Kiplinger e Muriel Tate, que namoraram no segundo grau e se reencontram em um caso extraconjugal; e Roy e Norma Hubley, que estão no hotel para o casamento de sua filha e entram em crise.

Vê-los juntos é como presenciar uma conjunção rara: com a curiosidade brincalhona dela e o charme contido dele, eles lembram um daqueles vídeos sobre animais em que, por exemplo, um coiote faz amizade com um texugo.

Quando o espetáculo estrear, Parker e Broderick vão passar muito mais tempo juntos. Mas isso vai acontecer somente sob os holofotes, e falando sobre isso a jornalistas, e expondo sua vida particular ao exame público.

Parker mantém uma conta no Instagram que oferece alguns vislumbres de sua vida pessoal: um filho é mostrado como um pulso adornado por um bracelete de amizade, um marido por um par de pés calçados em meias.

Os dois não falam muito de trabalho, em casa, e raramente falam de seu relacionamento no trabalho. Talvez seja por isso que as coisas funcionam tão bem entre eles, há tanto tempo (os dois estão juntos desde 1997).

E no entanto, a cada ano, quando seu aniversário de casamento, em maio, se aproxima, eles são emboscados por reportagens sensacionalistas sobre seus problemas. Questionados se eles achavam que o The National Enquirer tinha um lembrete fixo sobre a ocasião, Parker responde: “Eu acho que sim, seriamente".

E o alarme deve soar em breve, uma vez mais. Durante a temporada de “Plaza Suite”, Parker e Broderick vão celebrar o mesmo aniversário de casamento que Karen e Sam Nash na peça: o 23º. O casal de atores casou em 19 de maio de 1997.

"Só percebemos isso alguns dias atrás, na verdade”, disse Parker. “Agora que chamaram nossa atenção para isso, a gente fica pensando ‘oh, meu Deus’. As pessoas vão pensar que estamos lavando nossa roupa suja em público, o que na verdade nunca nos interessou."

A última vez que os dois trabalharam juntos foi em 1996, quando interpretaram J. Pierrepoint Finch, um ambicioso lavador de janelas, e a secretária apaixonada Rosemary Pilkington, em “How to Succeed in Business Without Really Trying”.

Broderick estreou com a peça na Broadway, e Parker entrou para o elenco quando ele saiu. Mais tarde, Broderick retornou para as últimas semanas da peça, contracenando com aquela que havia se tornado sua namorada.

Nos 24 anos transcorridos desde então, Parker e Broderick noivaram, se casaram e tiveram três filhos, mas não voltaram a atuar juntos. No entanto, em 2017, um amigo mútuo, o ator John Benjamin Hickey, convidou o casal para participar de uma série de leituras no Symphony Space.

Eles folhearam obras de dramaturgos americanos como A.R. Gurney e Elaine May, antes de optarem por Simon, e quando leram os diálogos de “Plaza Suite”, aquela noite no Symphony Space, foram recebidos com gargalhadas, e decidiram reconsiderar seu divórcio profissional.

A carreira de Broderick decolou quando ele interpretou o alter ego de Simon. Ele conquistou um prêmio Tony em 1982, na estreia de “Brighton Beach Memoirs”, uma peça de Simon com muito de autobiográfico, e seu primeiro filme foi “Max Dugan Returns”, também de Simon, no ano seguinte.

Mas nas décadas posteriores, as comédias de situação exageradas que caracterizam o trabalho de Simon saíram de moda, já que as situações de que elas tratam estão cada vez mais distantes da vida moderna, e uma versão repaginada de “Brighton Beach Memoirs”, em 2009, ficou em cartaz por apenas uma semana.

O último encontro de Broderick com Simon aconteceu naquele ponto baixo da carreira do dramaturgo, quando o ator foi ao Orso e viu o escritor sentado na mesma mesa que ocupávamos. A morte de Simon, em 2018, só aumentou a determinação de Broderick e Parker de redespertar o interesse por Simon na Broadway, junto a uma nova geração.

O Symphony Space, no coração do Upper West Side, atrai uma plateia “muito Neil Simon”, admitiu Parker, “ainda que você possa afirmar que estou puxando a brasa para a sardinha dele”. Broderick acrescenta: “Foi assim que nos metemos nessa confusão”.

O mundo francamente absurdo da atuação pode fazer com que uma pessoa se sinta vulnerável, mesmo diante de seu próprio cônjuge. Durante o seriado da série “Sex and the City”, Broderick foi convidado para interpretar diversos dos interesses amorosos ocasionais de Carrie Bradshaw, mas sempre encontrou motivos para recusar.

“O ejaculador precoce”, disse Broderick. “Pense em como foi difícil decidir”. (Ele recusou; o papel foi interpretado por Justin Theroux.) Mesmo as visitas de Broderick ao set podiam causar ansiedade. “Você aparecia no set e eu ficava” –Parker segurou o guardanapo diante do rosto e emitiu um som que lembra o chamado de uma ave exótica. “Eu ficava nervosa demais. Nossa, Matthew está aqui! Não olhe para mim!”

“E é isso”, disse Broderick. “Você não quer que pessoa alguma veja”. “É muito embaraçoso”, ela disse. “Pensar em estar com você no palco me causa urticária”. Por isso os dois não trabalharam juntos, por décadas.

De qualquer forma, não trabalharem juntos funcionou bem para o casamento deles. Quando os filhos do casal nasceram, eles começaram a alternar suas agendas, por necessidade. Com Parker fazendo filmes e televisão, de dia, e Broderick fazendo teatro, de noite, “sempre conseguíamos manter a presença como pais”, ela disse.

Além disso, “amo ser mulher de atleta”, disse Parker –ser a maior fã de seu marido, com as palavras certas de apoio na hora certa, para acalmar seu nervosismo de ator. “Para ser honesta, a única coisa que me desagrada agora é estar no mesmo barco que ele”, ela disse.

“É muito mais divertido ter a quem reclamar”, disse Broderick. “É legal ter o trabalho no show business de um lado e depois ir para casa e falar disso. E, você sabe, resmungar às vezes”. “Agora ficou faltando um pedaço”, disse Parker. “Não sei o que faremos um pelo outro, agora”, disse Broderick.

“Eu estava pensando, hoje”, disse Parker, “quando estávamos para começar o ensaio da primeira peça e Matthew estava lá ao lado do gerente de produção, e olhando para mim. Pensei que ele ia se aproximar e dizer” –e ela faz um gesto brincalhão de um soquinho no braço –“vá lá e arrase, garota”. “Mas tinha mais gente na sala”, disse Broderick.

Quando o trio de velhos amigos –Broderick, Parker e Hickey– escolheu a peça para aquela leitura, em 2017, eles intuíram que o velho texto tinha algo de acessível. “É uma peça sobre a meia-idade, e sobre estar em relacionamentos por muito tempo”, disse Hickey.

Mas mesmo que dois atores conheçam um ao outro há décadas, mesmo que sejam casados um com o outro, “quando você chega a uma peça nova, chega como desconhecido”, ele disse “Não é seu relacionamento. Não é sua amizade. Não é seu casamento”.

Não há como confundir Broderick e Parker com qualquer dos casais de “Plaza Suite”. Eles representam um recuo a um estilo totalmente diferente de relação, no qual a mulher está aprisionada em papéis domésticos enfadonhos e o homem se sente ansioso sobre sua masculinidade.

Os personagens que eles vão interpretar pertencem à geração dos pais de Broderick e Parker, e nasceram do cérebro de Simon, que foi casado cinco vezes, duas delas com a mesma mulher. Parker e Broderick vão interpretá-los com um figurino retrô, perucas complicadas e sotaques suburbanos. “No ato dois”, disse Broderick sobre a a calça xadrez, “as calças que uso atuam no meu lugar”.

Os personagens de “Plaza Suite” e seu ambiente da década de 1960 “não são familiares para mim de jeito algum”, disse Parker. A peça “parece um portal do tempo”. O distanciamento oferece uma espécie de camada protetora para o relacionamento entre os dois. Mas também representa um desafio, de como fazer aquela dinâmica funcionar em 2020.

Na capa do panfleto da peça, Parker e Broderick aparecem com roupas vintage elegantes: ele de smoking e ela em um vestido preto acompanhado por pérolas. Os atores são reconhecivelmente eles mesmos. Parece quase como se fossem um casal de espectadores da peça.

“Parece uma festa no Plaza na década de 1950, mas também somos nós”, disse Parker sobre a imagem. Eles queriam que a foto “parecesse uma coisa de época, mas que as pessoas sentissem conhecer aqueles dois”.

Ao chegarem a Boston, Parker e Broderick vão desenvolver um ritual, a fim de acalmar os nervos. Eles terão camarins separados –“você precisa de uma sala na qual vestir sua máscara”, brincou Broderick– e quando chega a hora de ir ao palco, Parker sai de seu camarim primeiro. “Passo pelo seu camarim”, disse Parker. “E você me deseja uma boa peça”, disse Broderick. "E nos beijamos."

The New York Times

Com tradução de Paulo Migliacci

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