Tony Goes

'Bingo' é uma aposta ousada para representar o Brasil no Oscar

"Bingo - O rei das manhãs", de Daniel Rezende (Warner). Genero: drama. Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Domingos Montagner
"Bingo - O rei das manhãs", de Daniel Rezende (Warner). Genero: drama. Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Domingos Montagner - Divulgação


Em 2015, o Brasil tinha um título óbvio para disputar uma indicação ao Oscar de filme em língua estrangeira: "Que Horas Ela Volta?", de Anna Muylaert. O longa arrancou aplausos numa mostra paralela do Festival de Berlim, estreou na Europa antes mesmo de chegar às salas brasileiras e foi apontado por muitos sites como um aos favoritos ao prêmio (mas não chegou sequer entre os nove semifinalistas).

Em 2016, nosso candidato natural parecia ser "Aquarius", de Kléber Mendonça Filho, que fez sucesso em Cannes e ganhou críticas positivas, aqui e no exterior. Mas o posicionamento de sua equipe e elenco contra o governo Temer acabou polarizando o júri que escolheu nosso representante - e a honra acabou ficando para o fraco "Pequeno Segredo".

Em 2017, não tínhamos, entre os 23 filmes habilitados, um filme que se sobrepusesse de maneira definitiva sobre todos os demais. O que não deixa de ser um sinal de que a nossa produção está mais variada do que nunca. É sempre melhor enfrentar uma escolha difícil do que não ter o que escolher.

Por um momento, achei que o contemplado seria o belo "O Filme da Minha Vida", o terceiro longa dirigido por Selton Mello. Credenciais não lhe faltam. O próprio Selton já havia emplacado, em 2012, um filme seu para concorrer ao Oscar: "O Palhaço".

Além disso, o roteiro é baseado em um livro do chileno Antonio Skármeta, também autor da obra que inspirou o premiado "O Carteiro e o Poeta" (1995). Para completar, a trama de época e a produção caprichada me pareceram bem ao gosto da Academia de Hollywood.

Depois vi "Como Nossos Pais", de Laís Bodanzky, e suspeitei que ali é que estava o representante brasileiro deste ano. O filme, que trata do dia-a-dia de uma mulher comum, tem um quê de "argentino" - e a Academia adora o cinema dos nossos vizinhos, o qual já indicou e premiou algumas vezes.

Subestimei as chances de "Bingo - O Rei das Manhãs". É um bom filme, sem dúvida - mas será que a vida libertina de um ator que faz o palhaço de um programa infantil, regada a muito sexo e muita droga, é palatável para os velhinhos que costumam decidir as indicações?

Acontece que "Bingo" tem alguns trunfos. Um deles é Daniel Rezende, um experiente montador que foi indicado ao Oscar por "Cidade de Deus" (2002), e que aqui faz sua estreia na direção. A Academia costuma prestigiar quem ela já conhece.

"Bingo - O rei das manhãs", de Daniel Rezende (Warner). Genero: drama. Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Domingos Montagner
"Bingo - O rei das manhãs", de Daniel Rezende (Warner). Genero: drama. Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Domingos Montagner - Divulgação

Outra vantagem é a familiaridade dos americanos com o pano de fundo da história. O fictício palhaço Bingo é baseado no verdadeiro palhaço Bozo, um campeão de audiência na TV dos Estados Unidos e depois exportado para o resto do mundo.

E atenção, SPOILER: "Bingo - o Rei das Manhãs" também tem um final feliz. Isto não é obrigatório, mas a Academia bem que aprecia uma bela trama de superação.

Ainda assim, acho que fizemos uma aposta arriscada. Bingo não é o tipo de filme que se espera do Brasil no exterior. Mas isto também pode ser ótimo, haja vista as escolhas surpreendentes da Academia nos últimos anos.

Em dezembro sai a lista com os nove pré-classificados. Vamos torcer.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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