Tony Goes

Séries políticas da TV foram ultrapassadas pela realidade

Bastidores (segunda)
Frank Underwood, personagem do ator Kevin Spacey na série "House of Cards" - Folhapress


Os Estados Unidos têm uma tradição que nós não temos. Lá, o presidente da república — real ou fictício — é personagem frequente no cinema e na televisão. Talvez porque o sistema político deles seja mais antigo do que o nosso, talvez porque seja mais transparente.

Esta falta de cerimônia com o mandatário da nação gerou produtos memoráveis. Como a série "The West Wing: Nos Bastidores do Poder" (1999-2006), que pretendia mostrar como a Casa Branca funciona por dentro. Ou o longa "Força Aérea Um" (1997), no qual o presidente interpretado por Harrison Ford saía na porrada com os terroristas que sequestravam seu avião.

Atualmente, dois seriados da TV paga se destacam. "House of Cards" (Netflix) conta as maquinações do casal Frank e Claire Underwood para se segurar no poder. E "Veep" (HBO) é uma comédia centrada numa personagem vagamente inspirada na ex-candidata à vice-presidência dos EUA pelo partido Republicano, Sarah Palin.

Os dois programas acumulam prêmios e elogios pelo retrato cáustico que fazem de Washington, a capital americana. Mas, nos últimos tempos, também vêm recebendo críticas inéditas: nenhum dos dois é páreo para a realidade.

Em "House of Cards", os maquiavélicos Underwood (Kevin Spacey e Robin Wright) são capazes até de simular um ataque terrorista no dia da eleição presidencial só para melar o resultado (sem falar nos adversários que eles já mataram, inclusive com as próprias mãos).

Na atual temporada de "Veep", a agora ex-presidente Selina Meyer tenta continuar em evidência depois de ser derrotada nas urnas, mas é sabotada por uma equipe formada por idiotas e pela própria incompetência.

Só que todos eles têm uma preocupação que o atual ocupante da Casa Branca não tem: manter as aparências. Suas venalidades e trapalhadas ocorrem longe dos olhos do público. Já Donald Trump parece não estar nem aí em ser pego mentindo ou manobrando em benefício próprio.

"House of Cards" também costuma ser comparada à situação política do Brasil. Quando Eduardo Cunha era presidente da Câmara de Deputados, não faltaram memes igualando-o a Frank Underwood. A própria Netflix se aproveitou da nossa crise para promover o programa por aqui.

E, no entanto, "House of Cards" agora soa como um conto da carochinha. A imaginação dos roteiristas foi ultrapassada pelo absurdo da atual realidade política, tantos nos EUA como aqui.

O mesmo acontece com "Veep". Mesmo soltando uma burrada atrás da outra, Selina Meyer parece totalmente inofensiva. Quem dera a tivéssemos no nosso Congresso: ela causaria menos dano do que muitos dos nossos nobres deputados.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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