Tony Goes

Um filme que não passa nos cinemas ainda pode ser considerado cinema?

Em 2015, a Netflix produziu seu primeiro longa-metragem: “Beasts of No Nation”, um drama de guerra dirigido por Cary Fukunaga. O filme concorreu no Festival de Veneza daquele ano e ainda levou alguns outros prêmios importantes.

Mas foi impedido de se candidatar ao Oscar, apesar de seu ator Idris Elba ter sido apontado como um dos favoritos ao prêmio de coadjuvante pelos sites especializados.

A explicação é simples: a Academia de Hollywood ignora qualquer filme que não tenha sido exibido durante pelo menos uma semana numa sala de Los Angeles. “Beasts of No Nation” só passou na Netflix.

Outros serviços de streaming também têm se aventurado pela produção cinematográfica. A Amazon, por exemplo, está por trás do badalado “Manchester à Beira-Mar”. Mas tomou o cuidado de liberá-lo para a tela grande antes dela mesma exibi-lo. A estratégia deu certo em termos de Oscar: o filme levou duas estatuetas em fevereiro passado.

Mas a Netflix não quer nem saber. Continua irredutível: seus filmes são exclusivos, e só seus assinantes poderão vê-los.

Essa postura acaba de detonar a primeira polêmica do Festival de Cannes de 2017, que começou esta semana. Dois filmes da Netflix foram incluídos na competição oficial: “Okja”, de Bong Jon Hoo, e “The Meterowitz Stories”, de Noah Baumbach.

O diretor espanhol Pedro Almodóvar e o ator Will Smith no Festival de Cannes
O diretor espanhol Pedro Almodóvar e o ator Will Smith no Festival de Cannes - Regis Duvigna-17.mai.2017 REUTERS

Mas, antes mesmo do evento deslanchar, sua organização declarou que, a partir do ano que vem, só aceitará títulos que se comprometam a serem exibidos nos cinemas franceses.

Logo em seguida, na primeira entrevista coletiva do júri, seu presidente --o cineasta espanhol Pedro Almodóvar-- declarou seu apoio à medida, insistindo na magia única da tela grande.

Mas um dos jurados, o ator americano Will Smith, discordou. Segundo ele, streaming e salas de cinema podem conviver numa boa. Detalhe: o próximo filme de Smith, “Bright”, será lançado em dezembro exclusivamente na Netflix. No fundo, o que está se debatendo é se um filme que vai direto para o streaming ainda pode ser considerado cinema.

É bom lembrar que smart TVs e home theaters estão deixando a experiência de ver um filme em casa cada vez mais próxima da que se tem numa sala de cinema. Por outro lado, já existe uma geração que não exige perfeita qualidade de som e imagem: quer mesmo é ver o que quiser na hora em que quiser, onde quiser. No computador, no celular, no que estiver à mão.

Enquanto isto, os filmes lançados nos cinemas estão cada vez mais voltados ao público infantojuvenil. Uma profusão de super-heróis e outras franquias barulhentas, de bilheteria mais ou menos garantida. Dramas e filmes de apelo mais restrito estão migrando em massa para o conforto dos nossos lares.

Conclusão: a postura de Almodóvar e da organização do Festival de Cannes é linda, mas fadada à extinção. O streaming é só mais uma maneira de consumir filmes, e quem ignorá-lo pode ficar a ver navios. Ou melhor, sem ver cinema.


Tony Goes

tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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