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Agora é oficial: a novela das 21h da Globo está em crise

29/09/2015 - 15h57

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Alguns anos atrás, eu conversei com um diretor da Globo sobre a novela (que não era do núcleo dele) então exibida pela emissora na faixa das 21h. O texto era muito ruim e a direção pífia. Mesmo assim, a audiência andava pelas alturas. Eu estava intrigado, mas ele me garantiu: "A novela das 21h é o produto mais fácil de se fazer de toda a Globo. Mesmo errando muito, o sucesso é sempre garantido".

Não é mais. Dos quatro últimos títulos do horário, só um não decepcionou no Ibope: "Império", de Aguinaldo Silva. "Em Família" e "Babilônia" foram tão mal que tiveram que ser encurtadas. E "A Regra do Jogo", lançada com pompa e badalação, anda perdendo para "Os Dez Mandamentos" (Record).

O público enjoou do formato? Claro que não. Quase todas as novelas que estão no ar, em todos os canais abertos, vêm alcançando números expressivos. A única que não está com essa bola toda é justamente aquela da qual se esperava um golaço: "A Regra do Jogo".

Muito já se falou das causas desse relativo fracasso, inclusive nesta coluna. A história complexa da "Regra" exigiria demais do espectador; a dubiedade de alguns personagens estaria confundindo o público. Também se criticou o excesso de violência, a repetição da favela como cenário e até mesmo a "carioquice" da trama (curiosamente, quase todas as novelas que estão indo bem neste momento se passam longe do Rio de Janeiro).

O fato é que a Globo acusou o golpe. A evidência mais forte é o adiamento de "Sagrada Família", a trama de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari que já estava em pré-produção para substituir "A Regra do Jogo".

A justificativa oficial é que a política desempenharia um papel crucial no enredo, e em 2016 teremos eleições. Como a lei brasileira não permite esse tipo de dramaturgia durante a campanha eleitoral (o que é para lá de absurdo, aliás), "Sagrada Família" sairia truncada. Preferiu-se preservá-la.

Beleza, faz sentido —mas será que ninguém percebeu isto antes? A sinopse de "Sagrada Família" deve estar circulando pelo alto escalão da Globo há pelo menos um ano. Difícil acreditar que ninguém ainda havia se dado conta disso. Meu palpite? Ficaram reticentes com mais uma trama realista.

Agora, pela primeira vez em décadas, a Globo passou alguns dias sem saber qual novela estará no ar daqui a seis meses em seu horário mais importante. Nesta terça (29) foi anunciado que será "Velho Chico", um texto de Benedito Ruy Barbosa que estava na fila para a faixa das 18h. Algo ingênuo, sem a "maldade" que parece incomodar tanta gente. E ambientado longe da cidade grande, ou seja: o escapismo estaria de volta, depois de uma overdose de realidade.

Os números não mentem. O produto de maior faturamento da maior emissora do país está mesmo em crise. Mas qual é a solução? Será que ela existe? Essa trama da vida real está ficando interessante.

Tony Goes

Tony Goes tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: http://tonygoes.blogspot.com

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