Thiago Stivaletti

Abordagem de transgênero: um efeito transparente nas novelas

O Netflix chegou antes por aqui e já conquistou os brasileiros com séries como "Narcos" e "House of Cards". Mas é da Amazon, que ainda não oferece seu catálogo no Brasil, uma das melhores séries dos últimos anos: "Transparent", vencedora do Globo de Ouro em 2015.

"Transparent" conta a história dos Pfefferman, uma família judia um pouco mais complicada do que a média. A série começa com o patriarca, o sessentão Morty, surpreendendo uma das filhas vestido de mulher: ele agora se chama Maura e vai viver como mulher, como a cartunista Laerte decidiu há alguns anos no Brasil. O anúncio abala os três filhos, Ali, Josh e Sarah, que pouco a pouco começam a questionar suas escolhas sexuais e afetivas.

Ali, que sempre tentou namorar homens, se aproxima de uma moça. Entediada no casamento, Sarah também tem um romance com outra mulher e resolve jogar tudo pro ar por ela —mas depois nada vai sair como ela pensava. E Josh, cujo primeiro grande amor da vida foi sua babá, apaixona-se por uma rabina e resolve ter uma família tradicional —mas um parente desconhecido chega para complicar sua vida.

Dito assim, tudo parece muito maluco e podia ser motivo para uma comédia rasgada, carregada nos clichês, tirando um sarro permanente da figura de Maura. Mas os produtores foram por um caminho muito mais inteligente: sim, há bastante humor, mas todos os personagens são tratados com carinho, respeito e um raro olhar humanista. A ponto de nos identificarmos com cada um deles, independente da nossa orientação sexual.

Cena da serie Transparent, da Amazon, com Jeffrey Tambor interpretando Maura Pfefferman ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Cena da serie Transparent, com Jeffrey Tambor - Crédito: Beth Dubber/Divulgação

(Já há duas temporadas de "Transparent", as quais se assiste de um fôlego só: cada uma tem dez episódios que não duram nem 30 minutos.)

A prova de que "Transparent", senão revolucionária, traz uma abordagem bastante original da questão transgênera é que os nossos novelistas parecem ter visto a série e começam a se inspirar.

Porém, a primeira tentativa está sendo um desastre: em "A Regra do Jogo", Breno, o personagem de Otávio Muller, decidiu viver como a travesti Valquíria. OK, Breno faz parte do núcleo cômico da novela, mas nada na história até aqui indicava que ele tinha esse desejo de viver como mulher. Aconteceu assim, do nada, só para criar mais um evento —talvez para aproveitar de forma preguiçosa que Muller está em cartaz no teatro também travestido na comédia "A Vida Sexual da Mulher Feia".

Na novela, os filhos aceitaram numa boa e quase não questionam o fato de que o pai vive agora de peruca e maquiagem - aceitar o fato é um ótimo exemplo pra sociedade, mas será que pelo menos o filho, o garotão mulherengo da praia, nao ia se revoltar? Inverossímil, deslocado e... Vamos falar logo, ridículo. É o clichê raso do qual a série foge.

E esta semana leio na coluna do meu colega Fernando Oliveira que a Glória Perez está escrevendo um personagem transgênero para sua próxima novela, "À Flor da Pele" — só esse título já é a fumaça que anuncia o fogo de cafonice da novela. Glória tem currículo no assunto. Em 1995, em "Explode Coração" —que entrou pra história como a novela do expressivo Cigano Igor —, uma das personagens era a travesti Sarita Vitti, estreia em novelas de Floriano Peixoto, ator que agora está na Record e há pouco viveu Hur no Egito dos "Dez Mandamentos". Glória teve a fineza de não fazer de Sarita um personagem de "Zorra Total", mas também não soube muito o que fazer com ele.

Espero que se inspire em "Transparent" para o novo personagem — e que escale um ator sensacional como o americano Jeffrey Tambor para o papel. Um grande veterano ia cair bem. Zé Mayer? Antônio Fagundes? Tony Ramos?

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Matéria importada do Spiffy News

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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