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Cinco ideias para trazer as novelas ao século 21

14/09/2015 - 10h15

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O povo que cobre novelas já anda babando na internet. A primeira semana de "A Regra do Jogo" (Globo) teve uma audiência menor que a primeira semana de "Babilônia".

"Os Dez Mandamentos" está dando trabalho na Record, agradando um monte com o dilema amoroso do faraó e sua corte. Não deixa de ser mais uma notícia amarga para a antes toda-poderosa Globo. (Que fique claro: estou gostando muito dos rumos de "A Regra do Jogo" até agora. Mas euzinho não dou nem 0,00001 ponto no Ibope).

Um comentário do meu amigo Rui no Facebook não saiu da minha cabeça nos últimos dias: "Não adianta. A Globo tem que entender que novela agora é um produto de nicho, e nunca vai dar a audiência de antes." Novela, um produto de nicho? Difícil aceitar para um velho criado nos anos 80 como eu.

O Rui pode até ter razão. Mas a questão em TV é sempre econômica: a Globo pode se dar ao luxo, perante seus anunciantes, de dar 20 a 25 pontos de audiência numa novela das 21h? Isso implicaria uma queda no que a emissora cobra por um anúncio no horário nobre? Mesmo que haja essa queda, vale compensar com o faturamento de outros programas para seguir tentando inovar um pouco —e não entregar um folhetim romântico tradicional— na sua maior atração?

A seguir, o esboço de cinco ideias de como as novelas da Globo poderiam se atualizar, quem sabe em busca de um público novo, para continuar existindo no futuro, daqui a 15 ou 30 anos:

1 - NOVELAS MAIS CURTAS

"Babilônia" foi muito mal de audiência, e por isso foi encurtada de oito para seis meses. Mas na verdade toda novela devia ter seis meses. Ou cinco. Com a popularidade das séries de 10 a 13 episódios, e a velocidade e o imediatismo impostos pela internet, uma história contada ao longo de 32 semanas, com quase 200 capítulos, não dá mais. Com seis meses, os autores teriam mais chances de pôr no ar uma história sem "barriga", aquelas fases de enrolação total, em que nada de importante acontece.

2 - MENOS PERSONAGENS

Na entrevista que deu sobre sua carreira ao programa "Damas da TV", do canal Viva, Regina Duarte levantou essa lebre: hoje, as novelas têm personagens demais, e o espectador não consegue se identificar com os conflitos de um ou dois personagens principais —porque tudo vem sempre salpicado no meio de mil outras histórias bobas. Um bom exemplo recente de poucos personagens foi "A Favorita": havia ali sete ou oito pessoas que conduziam toda a trama principal (Flora, Donatela, Lara, Haley, Dodi e os sogros de Donatela), com pouco espaço pras tramas paralelas.

3 - COMEDIANTES ESCREVENDO NOVELA

Desde o início dos anos 90, a Globo não consegue mais fazer boa comédia em suas novelas. Prova disso é a decadência da novela das 19h, a faixa de horário com a maior crise criativa hoje. Cassiano Gabus Mendes, que escreveu pérolas como "Ti-Ti-Ti" e "Brega & Chique", morreu. Silvio de Abreu ("Cambalacho", "Rainha da Sucata") perdeu a mão para o humor, como mostrou o insosso remake de "Guerra dos Sexos". A família de Feliciano (Marcos Caruso) em "A Regra do Jogo" tenta ser engraçada, mas... ai que dó. Por que não colocar verdadeiros comediantes para escrever núcleos inteiros das novelas? Marcelo Adnet, Marcius Melhem, Fábio Porchat, os principais redatores do Porta dos Fundos? Podiam apanhar no início, mas tenho certeza que coisa boa ia sair daí.

4 - NOVOS AUTORES

Sim, a Globo vem se esforçando em renovar seus autores (Felipe Miguez, Elisabeth Jin, Telma Guedes, Duca Rachid, Lícia Manzo, entre outros). Mas talvez fosse o momento de testar gente ainda mais jovem, na casa dos 30 a 40 anos. Autores e dramaturgos acostumados com peças de teatro, séries de TV, mas que, com bom treino no formato longo das novelas, apresentassem ideias mais frescas do que há por aí hoje —inclusive no formato e na maneira de se contar uma história longa.

5 - O POVO DO TEATRO

Ok, toda novela precisa de um Fagundes, um Tony Ramos, uma Susana Vieira ou uma Regina Duarte como referência para o espectador mais velho, fiel às novelas desde os anos 60. Mas os talentos mais jovens, em boa parte treinados dentro da própria Oficina de Atores da Globo, muitas vezes são inexpressivos —e, somados, podem minar a força de uma novela: Bruno Gissoni, Joaquim Lopes, Humberto Carrão, ou os já "veteranos" Priscila Fantin, Henri Castelli, Malvino Salvador e Paolla Oliveira. Sem falar em gente veterana mesmo que deu sorte e tá aí há 20 anos ou mais, como Murilo Benício, Letícia Spiller e Alexandre Borges. É só ver algumas peças por aí que a gente vê talentos mais interessantes. Poderiam fazer contratos esporádicos, por obra, com a emissora. E se desprender um pouco do padrão de beleza do mercado.

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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