Thiago Stivaletti

'Fera Ferida' mostra que as 'novelas de cidadezinha' de Aguinaldo Silva foram piorando

Vamos esquecer que havia pelo menos 15 novelas melhores para o Viva reprisar à meia-noite do que "Fera Ferida". Enquanto ela vai entrar à meia-noite (um horário já nada cedo), Cambalacho (1986), uma das melhores novelas de Silvio de Abreu, vai voltar em agosto à 1h45 da manhã —tem que ser desocupado pra varar a madrugada relembrando o casal de trambiqueiros de Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri.

De 1993, Fera Ferida foi a terceira novela, digamos assim, "de cidadezinha" escrita por Aguinaldo Silva —e não é difícil dizer que elas foram piorando ao longo do tempo. Fera é bem inferior a "Tieta" e "Pedra sobre Pedra", que vieram antes —não há aqui nenhum personagem tão memorável quando Perpétua ou Jorge Tadeu—, mas de alguma forma foi mais redonda e bem acabada do que as duas que vieram depois, "A Indomada" e "Porto dos Milagres".

Cena da novela "Fera Ferida"
Cena da novela "Fera Ferida" - Crédito: Divulgação

A trama de vingança de Raimundo Flamel (Edson Celulari), cujos pais morreram enfrentando a fúria e a cobiça da pequena cidade de Tubiacanga, tinha um grande mérito: muitas das tramas e subtramas foram tomadas da obra de Lima Barreto, um escritor hoje infelizmente pouco discutido. Havia o nacionalismo exacerbado e usado para fins errados de Policarpo Quaresma, e até um personagem jovem (Etevaldo) inspirado no homem que sabia javanês —o pai gastou fortunas com a formação do menino, pensando que ele dominava um idioma quase extinto, mas ele tinha mesmo era gastado todo o dinheiro com uma cantora de churrascaria.

O que não tinha muita força era justamente a trama principal: o grande inimigo de Flamel era o Major Bentes (Lima Duarte, meio no piloto automático), e o mocinho vingador era apaixonado pela filha do prefeito, a amazona Lina Inês (Giulia Gam).

O que há para recordar?

- Bethânia na abertura com a música-título, de Roberto Carlos, uma bela orquestra de violinos e uma aberturade impacto de Hans Donner


- Cássia Kiss (com dois S e gorda mesmo, não aceito a Casia Kis Magro) como a deliciosa Ilka Tibiriçá, um figurino anos 60 à la Audrey Hepburn, suas receitas afrodisíacas e seu fanatismo pelo filme de amor "O Candelabro Italiano" (1962). Correndo por fora, Susana Vieira também tinha a sua graça como a fogosa Rubra Rosa, que fazia a cama pegar fogo quando encontrava o amante, o prefeito Demóstenes (José Wilker).


- A estreia de Murilo Benício na Globo como Fabrício, o varredor de rua socialista revoltado contra a elite de Tubiacanga. Depois, Benício virou galã de primeira linha, mas acho que nunca teve um papel tão bom e carismático como aqui. (Camila Pitanga e Carolina Dieckmann também estrearam na novela, mas em papéis tao pequenos que ninguém lembra.)

- A gola Flamel: Edson Celulari lançou uma moda forte com a gola careca e um pouco aberta, uma espécie de túnica sexy, com uns laços no lugar dos botões. Se eu, que tinha 15 anos na época, comprei a minha, imagina o tamanho da onda.

- O realismo fantástico: assim como em Pedra sobre Pedra, a novela tinha bons momentos surreais, com efeitos especiais avançadinhos para a época, como na cena em que Flamel transforma Linda Inês em ouro sem querer, ou quando a bela adormecida Camila (Claudia Ohana) levita com o cheiro do estrogonofe de bacalhau na panela.

Flamel transforma Linda Inês em ouro


Camila levita


Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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