Publicidade

Carta aberta a Gilberto Braga

12/04/2015 - 11h13

Publicidade

DE SÃO PAULO

Caro Gilberto Braga,

Meu nome é Leonice, sou dona de casa e moro em Matão, capital do Corpus Christi, no interior de São Paulo. Queria lhe agradecer por começar a tornar a sua novela um pouco mais agradável de se ver para uma senhora católica e correta como eu. Eu já tava com pena dessa moça, a Alice. Que destino triste, coitada. Outro dia tava matando o namorado a paulada naquela novela da piscina, e agora já ia se tornar moça da vida nas mãos de um cafajeste.

Fico muito feliz em saber que isso não vai mais acontecer. O senhor não deve saber, mas novela influencia muito a cabeça das pessoas. Tenho uma filha de 18 anos, ela acha essa moça linda. Deus me livre e guarde de ela seguir o exemplo e se mudar pro Rio de Janeiro atrás de um moço de olhos verdes como esse menino aí, que outro dia era psicopata e agora é proxeneta.

Se o senhor soubesse o que eu já vi acontecer por causa da má influência de novela... A última moda que a Globo resolveu espalhar é essa do homossexualismo. Aquele beijo do Félix virou moda aqui agora! Depois dessa novela, tem rapaz andando de mão dada com outro no meio da praça e até arriscando uns pequenos ósculos. Foi por causa dessa novela, tenho certeza. Se não fosse esse Félix, eles estariam casados e felizes com uma moça de boa família matonense.

Há uns anos, uma moça aqui da cidade se enfiou dentro de um carro pra ir a Miami por causa daquela novela, "América". A mãe teve que explicar pra ela que o carro não chegava até lá nem em dois meses. E eu ajudei: "minha filha, mas por que você acha que vai ser feliz lá?! Aquela moça da novela chora o tempo inteiro!".

Esse mesmo moço aí, o proxeneta da sua novela. Lembra uma outra história em que ele fazia um esquizofrênico? Não lembro se foi na novela do Marrocos, da Índia ou da Turquia, eu misturo todas na minha cabeça. Um menino aqui começou a imitar ele todo dia, achava que podia ser contratado pela Globo. Quase ficou maluco de verdade. Precisou tomar muito floral pra melhorar.

O senhor mesmo já fez estragos. Não foi o senhor que escreveu aquela novela em que a Glória Pires novinha, tão bonitinha, vendia a casa da mãe, a coitada da Regina Duarte, e ia gastar todo o dinheiro se hospedando no hotel mais caro aí no Rio? Uma comadre minha aqui, a Sônia, coitada, tomou o mesmo golpe. A filha vendeu a casa que estava no nome dela e fugiu pra São Paulo. Mas o dinheiro não era muito, e ela não durou nem três semanas num hotel bacana perto da avenida Paulista. Sangue de Jesus tem poder.

Diz que muita gente está trocando a sua novela por aquela dos "Dez Mandamentos" na Record. Bem que eu tentei ver, mas não dá. Lá também tem gente muito ruim. No começo já tinha, por exemplo, uma moça que era amante do marido da princesa, se passando por prima dele. E isso lá tá na Bíblia? Quer ser direito, quer ser correto, desliga a TV e vai ler o Livro Sagrado. Esse povo da Record também não me engana não.

Desejo ao senhor um ótimo trabalho, e que a sua novela agora esteja cheia de lindas histórias de amor e gente feliz para a gente dormir em paz depois.

PS: Sei que é estranho pedir isso, mas se puder mudar o nome da novela também... Eu ficaria imensamente agradecida. Babilônia lembra muito Sodoma e Gomorra, é pesado demais pra depois do jantar. Não dá pra rebatizar a novela pra algo um pouco mais positivo? Não sei... Éden... Paraíso...

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

  • Últimas notícias 
  •  

Publicidade

Publicidade

gostou? leia também

  •  

Publicidade

Siga agora o F5 no Twitter

Livraria da Folha