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Fazendo a cabeça: a Batalha dos Barbeiros em São Paulo

"Deus abençoe o rolê", prenunciava o adesivo colado em uma moto estacionada em frente ao Clube Municipal Mané Garrincha, na cidade de Diadema, em São Paulo. Lá dentro, aconteceu no último domingo (24) a Batalha dos Barbeiros Brasil, disputa regional para escolher os melhores profissionais de São Paulo e do país. O evento, que já passou pelo Rio de Janeiro, onde será realizada a final, irá acontecer também em Belo Horizonte (MG) e Salvador (BA).

O público, majoritariamente masculino e periférico, não deixava a desejar: as cabeças que atenciosamente se direcionavam para o que estava rolando no palco também ostentavam cortes de cabelo impecáveis. Ali em cima, a maioria dos concorrentes tinha entre 20 e 30 anos –e apenas duas mulheres na disputa. Eram três categorias: corte clássico, barba express e desenho. Sempre em dupla, ou seja, um profissional contra o outro.

No início de todas as etapas, o DJ mandava o funk oficial e alto astral da disputa. "É a batalha dos barbeiros que faz (sic) o corte maneiro. Quero ver quem vai ganhar com o corte mais perfeito. Vai, vai, vai". Depois, rolava Drake, Rihanna e hits do momento.

Djonata Vital, vencedor da categoria barba express
Djonata Vital, vencedor da categoria barba express - Felipe Larozza/VICE

​corte monstro, chavoso, chavaiado

De clássico, os cortes da primeira categoria não tinham nada. Os modelos eram levados pelos próprios barbeiros, que tinham 20 minutos para demonstrar suas habilidades na cabeça alheia.

"Fiz um corte degradê e ficou muito legal", relatou o vencedor Caio Moral, 24, cuja barbearia fica em Ibiúna, interior de São Paulo. Degradê é o grande corte da atualidade brasileira: os fios são gradativamente aparados à máquina, sendo a parte de cima do cabelo mais alta que a debaixo, na nuca.

Entre os cortes dessa etapa, tinha de tudo: topete, samurai (o amado e odiado coquinho no topo da cabeça) e risca feita à máquina, também conhecida como "razor part". Caio ousou além do penteado: foi o único a levar uma modelo mulher –que, inclusive, já era sua cliente. "Tirei de letra. Corto em 20 minutos mesmo. É meu tempo médio", gabou-se o vencedor, barbeiro desde os 14 anos.

Um garoto que assistia a disputa explicou como são chamados esses cortes na linguagem da meninada. "Corte monstro, chavoso, chavaiado", riu.

Em 60 segundos, cada participante poderia fazer o que quisesse nos pelos faciais de seus modelos na categoria barba express. O único aparelho a ser usado era navalha. Sem espuma, creme, nada. Podia deixar um bigode, fazer cavanhaque, aparar pelos laterais ou tirar tudo, como fez o vencedor Djonata Vital, 27, da cidade de Itaquaquecetuba. 

Confiante, ele diz não ter treinado com cronômetro. No calor da emoção, o barbeiro dispensou qualquer pompa estética e apelou para a técnica "bumbum de bebê", de acordo com a sábia linguagem popular brasileira. "É uma adrenalina que não tem tamanho. É muito top. Muito bom", comemorou ao final do evento.

O momento mais esperado do domingão era a categoria desenho, que, obviamente, foi a mais cabeluda. Para homenagear os 20 anos da morte dos Mamonas Assassinas, três imagens da banda foram disponibilizadas para os concorrentes, que tiveram de reproduzir a parada na cabeça de alguém. Acredite: foi complexo. Teve até desistente. Para isso, foram disponibilizados 40 minutos.

"Não dá para entender nada", "o que é isso?", "esse ficou louco", comentava a rapaziada enquanto os barbeiros corriam contra o tempo, precisando desenhar cinco manos na cabeça de alguém. Um dos participantes errou, tocou o foda-se e acabou raspando a cabeça inteira do modelo. O outro fez um desenho tão esquisito que parecia um ninho de passarinho tribal neorrealista.

Acostumado a realizar cortes com desenho, Marcelo Anderson "Magnific" foi quem abocanhou o prêmio da categoria. O profissional, que trabalha na Favela do Jacarezinho, no Rio, revela o mais requisitado do momento: diamante. "Pedem também tribal e o símbolo da Nike. Se for complicado, cobro mais caro. Qualquer rosto que a pessoa pedir fica R$120."

Para a batalha, ele treinou duas vezes: no papel e no cabelo. Obviamente, não se trata de uma cópia fiel, mas, sim, de uma releitura. "É muito difícil e complicado. Se não tivesse treinado, até eu ia desistir."

​a madrinha dos barbeiros

Criadora da Batalha dos Barbeiros, a funcionária pública e cabeleireira Erica Nunes tem se dedicado à profissionalização de jovens periféricos há alguns anos. "Começamos a tirar as pessoas do tráfico de drogas e formá-las", afirma a "madrinha dos barbeiros", como é conhecida.

Os três vencedores da etapa em São Paulo ganharam seis máquinas profissionais da empresa que patrocinou o evento. Agora, eles irão disputar a final no Rio, no dia 24 de julho, e concorrer a R$ 47 mil reais em prêmios, como cadeiras e produtos cosméticos.

Antes da entrega dos prêmios em Diadema, dois barbeiros convidados subiram ao palco para deixar a galera pasma com suas habilidades cabelísticas. Em 20 minutos, um deles fez um tribal animal na cabeça de um modelo e o outro fez o rosto do Ayrton Senna. Nesse momento, o apresentador pediu que o DJ embalasse todos os anúncios dos vencedores com o famoso tema da vitória do Senna, aquele "tan tan taaan... Tan tan taaan". Que domingo, amigos!

O evento, que surgiu inspirado na Batalha do Passinho, acontece pela primeira vez fora do Rio de Janeiro atingindo proporções nacionais. "A barbearia era aquela coisa esquecida. Os salões de beleza e os cabeleireiros tomaram conta do mundo, e o barbeiro ficou escondido", pontua a madrinha Erica.

Aparentemente, a Batalha dos Barbeiros está aí para dizer que essa onda voltou. Como cantou o RZO: quem é, é. Quem não é, cabelo avoa.

Leia no site da "Vice": Fazendo a cabeça: a Batalha dos Barbeiros em São Paulo

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