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Histórias inspiradoras e novos aromas e sabores marcam restaurantes de refugiados em São Paulo

Imigrantes da Síria e do Congo fazem sucesso com suas culinárias

Eyad Abou Harb preparando shawarma em seu restaurante
Eyad Abou Harb preparando shawarma em seu restaurante - Instagram/New Shawarma
Fabiana Schiavon
São Paulo

Assim como Missade (Ana Cecília Costa), personagem da novela “Órfãos da Terra” (Globo), muitos refugiados veem na gastronomia uma forma de se adaptar ao Brasil. O país recebeu 10.145 refugiados até o fim de 2017, segundo os últimos dados divulgados pela Acnur (agência da ONU para refugiados). A maioria foi morar em São Paulo, onde vêm surgindo restaurantes de comidas típicas de diversas culturas. 

Na novela, a personagem ainda está se habituando ao país, mas logo vai descobrir que poderá se dedicar à gastronomia, mesma profissão que ela mantinha na Síria. Na vida real, a culinária vira um meio de sustento também aos refugiados que não conseguem exercer suas carreiras aqui. Um dos exemplos é Pitchou Luambo, 37, que era advogado e ativista no Congo.

Quando ele passou a ser perseguido durante a guerra, foi obrigado a se refugiar e veio para o Brasil. “Em primeiro lugar, eu teria de passar na prova da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], mas nem consegui pensar se vale a pena voltar a estudar, porque não há regras claras em relação a isso, seria preciso primeiro abrir um diálogo sobre o assunto”, afirma Luambo. 

Bom cozinheiro em sua terra, ele aproveitou para investir na gastronomia por aqui com comidas típicas de sua etnia no Congo. "Lá não existe uma comida típica porque são mais de 400 etnias. Cada um tem a sua língua e o seu jeito de cozinhar", afirma ele. O cardápio, no entanto, é vegano. "Minha cultura é vegana, não comemos carne, então não posso dizer que foi um restaurante adaptado", explica Luambo.

Já o sírio Eyad Abou Harb, 26, tinha a culinária como profissão em seu país. Ele chegou aqui há sete anos, sozinho, com apenas R$ 100 no bolso. Como a maioria dos sírios, foi abrigado na mesquita no Brás e arrumou um emprego por lá. Mas decidiu sair do emprego, que só tinha descendentes de árabes, para aprender português.

“Eu precisava da língua para poder negociar, pedir desconto, sempre era o meu objetivo ter o meu próprio negócio. Tinha certeza de que conseguiria porque nós somos seres humanos, somos capazes. Basta a força do querer ser verdadeira. O Brasil tem muito trabalho, mas é preciso trabalhar bem”, afirma Harb. 

Depois de trabalhar em um restaurante árabe e aprender o português, Harb decidiu abrir sua loja. Mas não foi fácil. Abriu um endereço que faliu e depois fez parceria com um comerciante de bebidas. “Ele me emprestou dinheiro para o frango e ofereci o lanche de graça para todo o mundo. Foi um sucesso, fez filas”, afirma o empresário. Em dois dias, ele já tinha quitado a dívida.

“Quando abri a minha primeira loja no Brás, fiz a mesma coisa, o primeiro dia foi tudo de graça. Divulguei no Facebook e aos amigos”, completa. “Estou no andamento da terceira logo, mas serei um grande franqueador do Brasil”.

Harb diz que hoje viaja bastante e sente que o Brasil é o único país que sabe recepcionar um estrangeiro. “Aqui é o único país que se diz ‘seja bem-vindo’ ao carimbar o seu passaporte.”

SABORES DESCONHECIDOS PELOS BRASILEIROS

Eyad Abou Harb conta que precisou ensinar ao brasileiro o que é shawarma, prato muito confundido com o churrasco grego, pela forma como ele é preparado. No Brás, ele vendia o seu lanche nas ruas por R$ 12 enquanto o churrasco grego custava R$ 3. E ele tinha de mostrar que a diferença de preço fazia sentido.

“O espeto do shawarma é parecido, mas só isso. Usamos o pão sírio, pasta de alho, salsa, salsinha, cebola e o nosso tempero”, afirma Harb. Há o shawarma de carne, o de frango —que vem com batata frita no recheio—, entre outros sabores. “Consigo o mesmo sabor de lá com os temperos daqui. O shawarma que você comer em Damasco, comerá aqui comigo”, afirma o empresário, citando a capital da Síria. Nos Estados Unidos e Europa, o prato é conhecido como Kebab.

O empresário diz que o quibe que comemos está longe de ser o original. Para conhecer o verdadeiro prato da Síria, basta ir a uma de suas lojas. Hoje, os diferentes tipos de shawarma custam de R$ 11 a R$ 14.

Já  Pitchou Luambo diz que tem ao seu favor o clima do Brasil que é muito parecido com o do Congo. Ele aproveita bem as frutas para sucos e os pratos têm algumas semelhanças com o que há na Bahia.

"Praticamente tudo o que tem lá no Congo, eu encontro aqui. Só folha de mandioca, que é meu prato preferido, que nunca achei. Muita gente comenta comigo que os pratos lembram a culinária baiana, mas eu nunca estive lá, então não sei te explicar", afirma Luambo. 

O cardápio tem o dendê em alguns pratos e o Bitumbula, o "acarajé africano", servido em uma cama de quiabo frito refogado na pasta de amendoim. A entrada custa R$ 18. A maioria dos pratos tem o valor fixo de R$ 30, como a feijoada vegana e o nhoque de banana da terra. 

SÍRIA QUER REUNIR CHEFS REFUGIADOS EM ÚNICO ENDEREÇO

A síria Joana Ibrahim, 31, está há quatro anos no Brasil. Ela chegou a Juiz de Fora (MG) e investiu tempo em alguns projetos de tecnologia para refugiados. O plano não foi para frente.

Em São Paulo, ela teve a ideia de reunir chefs de cozinha refugiados em um único endereço, o Open Taste.(www.opentastebrasil.org), em que ela espera fazer crescer em alguns meses. “Estou em pausa e fechei o lugar para remodular o projeto porque quero ajudar mais chefs", afirma ela.

No endereço que ela mantinha em Pinheiros, a ideia era ter um chef por dia. "Ele não pagava aluguel, mas tinha que abastecer a cozinha. Só que muitos não tinham dinheiro suficiente para atender a demanda de público”, conta Joana.

Ela teve de ir muitas vezes ao supermercado para fazer as compras em cima da hora e chegava com ingredientes que não eram exatamente os mesmos. “Isso afetou muito as receitas e o serviço. Na próxima fase que virá, espero ter mais chefes e ter todo o quadro de funcionários formado por refugiados”, conta a empresária, que mantém um site e página no Facebook com informações sobre o projeto. 

O amor e a resiliência dessas pessoas é o que faz toda a diferença em seus pratos. “No Brasil, aprendi que precisamos dar um passo para trás para recomeçar a vida. Essas pessoas podem ter outras profissões, mas elas colocam na gastronomia todos os seus sonhos e desejos. Eles transformam esse novo desafio em uma grande força, e isso é um bom exemplo para a sociedade brasileira", defende Joana.

Quando a família de Joana foi obrigada a sair da Síria, os seus parentes ficaram espalhados pelo mundo. Ela chegou sozinha aqui no Brasil e já fala muito bem o português, fez algumas aulas logo que chegou, mas disse que aprendeu mesmo vendo Netflix. “Coloquei filmes com legendas e fui decorando expressões”, conta.

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