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Barata laqueada ou com molho picante: agricultor cria insetos para culinária exótica da China

Professor diz que 'ingrediente' tem ação diurética e desintoxicante

Baratas são alimentadas em fazenda de Yibin, na China
Baratas são alimentadas em fazenda de Yibin, na China - Wang Zhao/ AFP
Elizabeth Law
China

É uma cena digna de um filme de terror: em uma incubadora no sudoeste da China, 10 milhões de baratas marrons se agitam no escuro. Elas vão acabar como uma iguaria.

Li Bingcai, agricultor da província de Sichuan, cuida de suas criaturas de seis patas. São alimentadas diariamente e vivem em placas de madeira verticais, de onde emitem em coro um som estridente.

Neste espaço, Li acaba coberto de insetos, que chegam até suas bochechas. Ele não parece intimidado. Nem ele nem outros criadores que decidiram tentar a sorte nesta atividade.

Vendem as baratas à indústria farmacêutica tradicional para a elaboração de medicamentos. Mas Li Bingcai também as cria para o paladar. Ao lado de sua granja, vários restaurantes as servem refogadas com pimentão, uma especialidade de Sichuan, a gourmets. Amanhã haverá barata laqueada.

"As pessoas têm dificuldade de imaginar quão delicioso é. Até prová-lo", explica o criador. Ele leva um inseto vivo à boca, mastiga e engole.

A barata-americana (Periplaneta americana) é uma das variedades mais comuns. São consumidas devido às suas supostas propriedades contra as úlceras e os problemas respiratórios, ou como simplesmente revigorantes.

"Estes bichos têm um sistema imunológico muito desenvolvido. As pessoas podem obter benefícios se os consomem", afirma Li Bingcai.

Sua granja fica em uma casa antiga rodeada de campos em Yibin, uma região montanhosa coberta de florestas de bambus. A sala dedicada à criação, do tamanho de um terreno de badminton, têm janelas com uma grade para prevenir a fuga dos insetos.

SEIS BILHÕES DE BARATAS

A segurança é prioridade. Em 2013, um milhão de baratas fugiram de um viveiro da província de Jiangsu (leste).

As de Li vivem em um espaço ideal para seu crescimento, com uma temperatura de 28ºC e muita umidade, que desprende um cheiro de roupa molhada.

A chegada diária de comida provoca um frenesi entre os insetos. Quando Li Bingcai coloca sobre bandejas uma mistura de milho em pó, frutas e cascas de verduras, as baratas se balançam, trepando umas sobre as outras.

Regularmente coloca parte dos insetos em água fervendo, antes de desidratar a carapaça. No ano passado vendeu uma tonelada a uma empresa farmacêutica por um total de 90.000 yuans (12.000 euros, US$ 14.000).

Li Bingcai era dono de uma loja de telefones celulares quando, em 2016, teve a ideia de se lançar no negócio das baratas, devido ao baixo custo de produção e à simplicidade da técnica de criação destes insetos.

Ele vende a maior parte de sua produção pela internet. Meio quilo de insetos desidratados custa entre 100 e 600 yuans (de 13 a 79 euros, US$ 14,5 a US$ 89).

Na cidade vizinha de Xichang, um grupo farmacêutico chinês criou o maior centro de produção de baratas do mundo: cria seis bilhões de insetos e os monitora com um dispositivo de inteligência artificial.

A menção às baratas aparece em escritos de medicina tradicional chinesa desde o século 16, no Compêndio de Matéria Médica, sobre as propriedades medicinais das plantas, animais e minerais.

"MUITO CROCANTE"

As baratas têm propriedades desintoxicantes e diuréticas, afirma Liu Daoyuan, professor do centro médico Yongshou, em Yinchuan (norte). "Também são eficazes para aliviar a dor de garganta, angina e cirrose hepática", afirma.

Outros especialistas em medicina chinesa afirmam que a criação de baratas não é regulada por normas estritas, o que possibilita efeitos indesejáveis.

Li Bingcai sonha convencer seus contemporâneos a comerem baratas. Para isso, colabora com um restaurante local.

Chegam habitantes da região para provar os insetos, atraídos pela publicidade positiva em torno a seus supostos benefícios, explica o chef do estabelecimento, Fu Youqiang, que cozinha até 30 pratos de baratas por mês.

Um cliente, Luo Gaoyu, as prova. A barata refogada é "saborosa, com aroma e muito crocante". "Acredito que deveríamos comer tudo que é bom para a saúde. (...) Seu valor nutritivo é alto e contêm muitas proteínas".

Li Bingcai prevê criar uma leque de produtos, como pomadas de extratos de barata, curativos médicos e solas à base de barata em pó, que, segundo ele, são muito confortáveis.

"Há tantas coisas boas neste inseto. As pessoas têm que saber disso!", insiste. "Muitos pensam que é um inseto nocivo, mas para mim é como se fosse ouro. São como se fossem meus filhos".

AFP
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