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Mooca preserva tradição, mas encanta pelos bons restaurantes, passeios e moradores apaixonados

Bairro da zona leste de São Paulo completou 462 anos na sexta (17)

RogŽério Coutinho passeia com sua mulher e filho na Maria Fumaça no bairro da Mooca
RogŽério Coutinho passeia com sua mulher e filho na Maria Fumaça no bairro da Mooca - Jardiel Carvalho19.ago.2018/Folhapress
Descrição de chapéu Agora
Lara Pires
São Paulo

A Mooca acaba de celebrar 462 anos de sua fundação, completados em 17 de agosto. É fácil se apaixonar pelo clima de cidade interiorana que domina o bairro da zona leste da capital e, mais simples ainda, compreender a devoção de seus moradores, que não trocam de vizinhança por nada.

Misto de tradição e novidades, a Mooca tem hino e ban­deira, além do time de futebol Juventus, com torcida fiel às cores grená e bran­co. Além disso, conta com inúmeras op­ções de gastronomia e passeios.

O casal Leandro Testoni, 27, re­dator, e Jaqueline Prado, 27, quí­mica, adora assistir aos jogos do Juven­tus, segundo time do coração de ambos –ele é corintiano, e ela, palmeirense. "Moramos perto da rua Javari [onde fica o estádio] e adoramos ver os jogos, comer cannoli e torcer juntos", relata Testoni.

"Morava no Pari [centro] e, quando nos casamos, viemos morar na Mooca. Adorei! Aqui, as pessoas são
muito amistosas. Costumo dizer que o bairro parece um retiro dentro de São Paulo. E é bem completo”, completa.

 

Os ingressos para assistir aos jogos do Juventus custam R$ 50 para a parte coberta do estádio e R$ 20 para a arqui­bancada. Além das partidas, o Clube Juventus também oferece espaços de lazer e eventos sociais, como bailes, shows e aulas de dança, entre outros.

Também fã do Juventus, Henrique dos Santos Dias, 29, vende cami­setas do clube há 15 anos e hoje cuida da loja Camiseteria di Mooca, ao lado do pai, Luis Roberto Ribeiro Dias, 54. "Comecei tingindo camisetas brancas de grená e vendendo para os amigos. Levou um tempo até ter a loja”, lembra Henrique, que também comercializa a bandeira do bairro (R$ 80). 

Sobre a história da Mooca, engana-se quem acredita que o bairro teve início com a imigração italiana. Segundo José Geraldo Simões Junior, professor de ar­quitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a Mooca era povoada por famílias indígenas, na bai­xada do rio Tamanduateí, na época da fundação de São Paulo, em 1554.

Tanto que a origem do nome do bair­ro vem da língua tupi-guarani: ‘Moo’ e ‘oca’, que significa casa de parentes, se­gundo Simões Junior. Somente no século 19 é que os imi­grantes, em especial os italianos, co­meçaram a povoar a região.

Por volta de 1870, a mão de obra escrava come­çou a ser substituída pela de estrangei­ros que chegavam a São Paulo. “A in­tenção era levar trabalhadores para as fazendas de café no interior do estado, mas muitos ficaram e se instalaram próximos à linha ferroviária”, diz Junior.

PASSEIO NO TEMPO

Um dos programas indicados para explorar o passado na Mooca é o pas­seio de maria-fumaça, que tem início na Mooca, passa pelo Brás e retorna ao ponto de partida. A locomotiva perten­ceu à Central do Brasil e tem dois va­gões: um da década de 1950, feito de aço carbono, e outro de madeira, da década de 1920. O passeio acontece todos os fins de semana. 

Rogério Coutinho, 39, publicitá­rio, embarcou na aventura com a mu­lher, Daniela Zini Ghazal Coutinho, 35, administradora, e com o filho, Bernardo Ghazal Coutinho, de um ano. Mo­rador da Mooca, Coutinho é apaixonado pelo bairro e administra a página Viva Mooca no Instagram.

"O mooquense é bairrista”, declara. "Criei a página para divulgar fotos do bairro e, hoje, recebo mensagens de moradores para divul­gar eventos e outras novidades."

Entre os moradores que lutam pela preservação da Mooca está a jornalista Elizabeth Florido, 54. Ela partici­pou ativamente da proteção ao Cotoni­fício Rodolfo Crespi, antiga tecelagem e malharia de 1897, cujo terreno se espa­lha no quadrilátero entre a rua dos Tri­lhos, a Taquari, a Visconde de Laguna e
a Javari.

O prédio passou muito tempo vazio, até que surgiu o interesse de uma grande rede de supermercados em alu­gá-lo. “Em um domingo de manhã, vi que um trator estava destelhando o prédio e ia dar início a uma demo­lição. Chamei a polícia e comecei um diálogo com a empresa, ao lado de outros moradores da Mooca e de arquitetos renomados, para impe­dir que o prédio dei­xasse de ser o que era”, conta Elizabeth.

"Então, o projeto foi readaptado com a ajuda do Departamento de Patrimô­nio Histórico, e o Cotonifício não foi des­truído”, lembra ela, orgulhosa. Preservar a arquitetura tradicional da Mooca, assim como seu passado in­dustrial, é uma preocupação dos mora­dores –especialmente com a chegada de novos empreendimentos imobiliá­rios. "É fundamental manter as casas históricas. Se não fizer isso, tudo acaba
e vira um outro bairro", diz Elizabeth. 

O professor de língua portuguesa Pasquale Cipro Neto, 63, morou na Mooca durante a infância e a juventude. É torcedor do Ju­ventus e se preocupa com o futuro do bairro. "Com tantas construções, talvez
esteja começando a perder o ar de cida­de interiorana”, comenta.

Uma casa es­pecial da Mooca é o Casarão do Vinil, inaugurado em 2014, que tem um char­me peculiar. O lugar abriga mais de 70 mil discos de vinil à venda, de todos os gêneros musicais. O dono da loja, Ma­noel Jorge Diniz Dias, 63, conta que passou 15 anos comprando os ‘bo­lachões’ para revender. Os discos ali variam de R$ 10 a R$ 120, e há uma vi­trola para testar a qualidade deles. “De­vo abrir outra loja na mesma rua.”

Rodrigo Nogueira, 35, é mecâni­co e colecionador de discos compactos. “Venho ao Casarão três vezes por sema­na. Gosto de música brasileira”, diz.


AONDE IR

Clube Atlético Juventus
Na rua Javari, 117, Mooca, tel. (11) 2271-2000. Para conferir a programação acesse site do Clube Juventus

 

Camiseteria di Mooca
Na rua Visconde de Laguna, 152,  Mooca, tel. (11) 2362-5905. De seg. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 9h às 18h; dom. (somente em dias de jogos do Juventus), das 9h às 13h

 

Casarão do Vinil
Na rua dos Trilhos, 1.212, Mooca, tel. (11) 2645-2808. Todos os dias, das 9h às 18h

 

Passeio na Maria-Fumaça
- No primeiro final de semana do mês, o trem sai da estação situada no Museu da Imigração na rua Visconde de Parnaíba, 1.316, Mooca, tel. (11) 2692-1866
- Nos demais finais de semana, sai da Estação Associação Brasileira de Preservação Ferroviária na rua Visconde de Parnaíba, 1.253, Mooca, tel. (11) 2695-1151
- Os passeios acontecem apenas aos finais de semana, de hora em hora, das 11h às 16h

Valores
- Passeio em carro da década de 1950: R$ 20 (estudantes e idosos pagam R$ 15)
- Passeio em carro de madeira da década de 1920: R$ 25 para todos
- Crianças de até 6 anos não pagam

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