Viva Bem

Bebida milenar, o chá fica mais popular em época de temperaturas baixas

Beneficia a saúde e é uma boa pedida para aquecer o corpo

A advogada Thayla Pavani posa segurando uma xícara de chá
Thayla Pavani, 24, toma chá para ficar menos estressada - Rivaldo Gomes/Folhapress
Descrição de chapéu Agora
Karina Matias
São Paulo

Onde você costuma guardar o chá na sua casa? Na Inglaterra do século 16, o local mais adequado era o cofre. Acredite: a especiaria vinda da Ásia era muito cara e uma das mais desejadas no Ocidente. Não à toa, era conhecida como “ouro líquido”. O seu roubo poderia levar o culpado à pena de morte. De lá para cá, muita coisa mudou.

O chá ficou mais barato e acessível em todo o mundo, mas alguns aspectos se mantiveram: ele faz bem para a saúde, é saboroso e uma ótima pedida no inverno.

“De forma geral, os chás contêm uma grande quantidade de oxidantes chamados polifenóis. São moléculas que inibem a oxidação de outras moléculas, combatendo os radicais livres que provocam danos e o envelhecimento precoce das células. Eles também possuem potencial anti-inflamatório, analgésico e previnem contra o câncer”, diz a nutricionista Jaqueline Todescato, professora do Instituto Chá.

Ela acrescenta outros benefícios, como o equilíbrio da flora intestinal, o que favorece a digestão. “No frio, além de aquecer e nutrir o corpo, os alimentos mais quentes promovem a sensação de bem-estar e conforto”, analisa.

A profissional e outros especialistas na área explicam que, tecnicamente, só podem ser chamadas de chá as bebidas preparadas a partir da planta Camellia sinensis, como os chás verde, branco, preto, amarelo, oolong e puer. Desta forma, as bebidas com camomila erva-doce e hortelã, tão populares no Brasil, são denominadas infusões. Os benefícios, porém, são semelhantes.

Na casa de Júlia Pivott Felicetti, 36 anos, e Vinicius Eduardo Felicetti Muquy, 32 anos, o gosto por chás e infusões não tem idade nem época do ano. O filho do casal, Enzo, quatro anos, adora a bebida, assim como os pais.

 

“Ele mamou no peito até dois anos e oito meses. Quando parou, tentamos várias vezes dar a mamadeira com leite, mas ele não pegava de jeito nenhum. Foi aí que pensamos no chá. E não é que ele gostou? Hoje, sempre pede antes de dormir. Ele vai para o quarto e fala: ‘Faz um chazinho para mim?’”, conta Júlia.

Os preferidos do menino são de hortelã, camomila e erva-doce. “De hortelã, às vezes, fazemos da folhinha, quando o pé de casa vinga. Mas ele toma qualquer um. Agora, achamos um de maracujá com maçã que ele está amando”, complementa a mãe.

Essas misturas de sabores, os chamados blends, são uma das principais apostas de grandes empresas para conquistar os consumidores. “Aqui no Brasil, como nos maiores mercados de bebidas do mundo, as misturas dos diversos tipos de chá com outros ingredientes e em formato de baixa caloria são uma grande tendência”, afirma Ricardo de Oliveira Machado, vice-presidente de operações da Wow Nutrition, que produz chás da marca Feel Good.

Ele destaca também que a perspectiva é de crescimento, acompanhando a tendência mundial por alimentos e bebidas mais saudáveis. “O chá é uma categoria que vem conquistando novos consumidores, principalmente aqueles que estão limitando o consumo de refrigerantes”, afirma.

É o que acredita também a Unilever, dona da marca Lipton, que em março do ano passado passou a oferecer no país a sua linha de chás quentes. “Sabemos que temos um grande desafio, já que o Brasil é um país de tomadores de café, porém, a tendência de hábitos saudáveis está cada vez mais presente nos lares brasileiros”, afirma Tally Singal, gerente de marketing da Lipton.

Ela cita dados da empresa de pesquisa Euromonitor que reforçam essa aposta da marca. “Segundo a Euromonitor, o mercado de chá quente [granel e saquinhos] vai movimentar R$ 1 bilhão até 2022, com 69% de crescimento nos anos de 2016 a 2022, o que representa um aumento de 9% ao ano”, diz.

O ator Raphael coloca chá na xícara
O ator Raphael frequenta casas de chás para conhecer tipos diferentes da bebida - Robson Ventura/Folhapress

Além das grandes empresas, casas de chás, que oferecem produtos diferenciados e mais selecionados, também têm caído no gosto dos brasileiros. “Faço também muito chá em casa, mas gosto de frequentar esses estabelecimentos para conhecer mais a bebida e a forma correta de preparo”, diz o ator Raphael Alkamim, 24 anos.

Segundo a gerente Daniele Cristina Andrade, da loja especializada Talchá, um dos erros mais comuns cometidos pelas pessoas é fazer o chá com a água fervendo. “Cada tipo tem uma temperatura ideal da água, mas ela nunca deve chegar a ferver.” O tempo que o líquido fica em contato com a água é outro ponto que deve ser observado, lembra a nutricionista Luiza Kasulke.

No caso dos chás verdes, por exemplo, como as folhas têm pouca oxidação, não podem ficar muito tempo em contato com a água quente para não queimarem e terem suas características alteradas. “O ideal é esquentar a água até em torno de 80</grau>C e deixar as folhas nela por dois minutos”, explica.

Exemplares de flowering teas que, em contato com a água, abrem em formato de flores
Exemplares de flowering teas que, em contato com a água, abrem em formato de flores - Robson Ventura/Folhapress

Na Talchá, um dos produtos que mais chamam a atenção é o flowering tea, um tipo que, quando é colocado na água, abre em formato de flor. “É a folha do chá verde costurada com pétalas de flores”, explica Daniele. A unidade custa R$ 19 no local.

HISTÓRIA MILENAR

Para muitas pessoas, o chá tem relação direta com algum benefício medicinal. “Adoro chá, porque acredito que seja uma opção mais saudável. Sinto muito prazer ao tomar e me traz uma memória afetiva muito gostosa. Lembro da infância, porque em casa sempre tomávamos muito chá para os mais diversos tipos de doença e mal-estar”, relata o ator Raphael Alkamim.

Segundo a chef e pesquisadora Ina Gracindo, autora do livro “Viagem ao Mundo do Chá”, a origem do chá é chinesa e tem mais de 2.000 anos. Desde o início, segundo ela, a bebida já esteve ligada aos benefícios à saúde. “Mesmo hoje, você pode notar isso. Para fazer a pesquisa do livro, estive algumas vezes na China e pude observar que, apesar de a alimentação deles ser gordurosa e cheia de frituras, a população não é obesa, porque toma chá o tempo todo, como se fosse água”, afirma.

Ela acrescenta também que a complexidade de produção e colheita do chá nos países asiáticos é comparável à dos vinhos e champanhes. Por isso, apesar da popularização, alguns tipos específicos podem chegar a custar US$ 100 a xícara, o equivalente a cerca de R$ 370. “Os melhores chás vêm das montanhas mais altas”, explica a pesquisadora.

No Ocidente, especialmente na Europa, o chá se tornou, no século 16, uma especiaria muito cara e desejada. Ele provocou mudanças históricas, culturais, políticas e até guerras. “Era chamado de ‘ouro líquido’. Na Holanda e na Inglaterra, se uma pessoa era pega roubando chá, poderia ser condenada à pena de morte. Há documentos que mostram que o chá fazia parte da herança das famílias”, revela Ina.

A pesquisadora complementa, ainda, que a bebida mudou hábitos e comportamentos sociais. “Transformou o Ocidente. Você imagina que uma série de utensílios, como xícaras e louças de porcelana, além de roupas específicas usadas no ritual de tomar chá, surgiram a partir dessa erva rústica, que é originária de rituais budistas e taoistas da China. É uma história fascinante.”

A popularização em todo o mundo aconteceu a partir de 1908, quando um norte-americano inventou o chá em saquinho. Ina lembra, por fim, que a bebida sempre esteve envolvida em cerimônias ritualísticas, sejam elas aristocráticas, como na Inglaterra, ou religiosas, no caso de países asiáticos.

Mesmo sem conhecer essas curiosidades sobre o chá, a advogada Thayla Pavani, 24 anos, começou a tomar mais a bebida como forma de ficar menos estressada. “Sempre gostei de chá e estava procurando alguma coisa que me deixasse mais calma. Há três meses, o meu namorado me deu um kit, e começamos a procurar saber mais sobre a bebida. Tomo todos os dias, religiosamente, pela manhã e à tarde”, relata.

A consultora Solange Alves prepara o seu chá
Para a consultora Solange Alves, a hora do chá é um momento relaxante - Rivaldo Gomes/Folhapress

A consultora de treinamento e desenvolvimento humano Solange dos Santos Alves, 46 anos, também faz parte da turma do chá. “Sabe quando o pessoal vai tomar um café, que funciona como um momento de pausa e de relaxamento? Para mim, essa é a hora do chá. É como um ritual para conseguir me acalmar e pensar melhor”, diz.

Para ela, a bebida também é uma herança de família, um hábito que ela adquiriu por causa do pai. “Ele sempre tem alguma indicação de chá para qualquer situação”, relata.

Hoje, uma novidade no mercado é a kombucha, bebida feita a partir da fermentação do chá. “É um probiótico, como o Yakult, mas que não tem açúcar e é rico em nutrientes e vitaminas”, finaliza a nutricionista Luiza Kasulke. É normalmente encontrado em lojas de produtos naturais.


CURIOSIDADES

- A origem do chá é chinesa. Os budistas e taoistas foram os primeiros a descobrir que a infusão da Camellia sinensis resultava em uma bebida benéfica à saúde. A primeira característica descoberta por eles foi o efeito estimulante do chá, que ajudava os monges a ficarem despertos durante as meditações

- O chá já foi considerado “ouro líquido” e chegou a ser motivo de guerras. Era uma especiaria muito preciosa e com alto valor na Europa, especialmente, em razão dos altos impostos a que o produto era submetido

- Acredita-se que foi na Era Vitoriana (1837-1901) que o chá começou a se tornar popular na Inglaterra. A rainha Vitória teve papel fundamental ao incentivar o consumo da infusão como uma forma de moralizar o país e ir contra as bebidas alcoólicas, até então muito consumidas pelos ingleses

- Os ingleses costumam tomar chá com leite. Uma das hipóteses para explicar isso é o fato de que o chá preto era o principal consumido no país e ele manchava as xícaras de porcelana

- Foi um mercador de chás norte-americano que inventou, em 1908, o chá de saquinho. Mas foi só na Primeira Guerra Mundial, que ele se tornou popular, porque a empresa alemã Teekanne passou a fornecê-lo para as tropas

- Foi também um norte-americano que inventou o chá gelado para ser consumido nos meses de verão e que se tornou um grande sucesso

- Já durante a Segunda Guerra Mundial, fábricas de chá brasileiras passaram a produzir e a exportar chá preto para a Inglaterra. Isso porque, no período, a Índia deixou de fornecer o produto para os países do ocidente

- O Viaduto do Chá, no Vale do Anhangabaú, leva esse nome, porque grande parte daquela região concentrava plantações de chá. Já na época da inauguração do viaduto, em 1892, o café era o principal produto paulista. Acredita-se que o nome foi uma forma de homenagear os antigos produtores de chá 


BENEFÍCIOS

Chás
Verde - Tem ação antioxidante, é diurético e acelera o metabolismo, o que ajuda a emagrecer. É indicado para pessoas hipertensas. Evita também o envelhecimento precoce e previne o câncer
Branco - Tem forte ação antioxidante e atua na prevenção do câncer e das doenças cardiovasculares 
Preto - É considerado o mais estimulante de todos. Auxilia no processo digestivo 

Infusões
Erva-mate - É diurética e tem ação estimulante. Também melhora a circulação sanguínea e possui antioxidantes
Camomila - Tem efeito relaxante, reduzindo a ansiedade e auxiliando a indução ao sono
Hibisco -  É diurética e tem ação laxante. Também é indicada para controle da pressão arterial   
Hortelã - Auxilia a digestão, evita desconfortos gástricos e melhora o hálito

Recomendações
Para preparar a bebida, o ideal é não deixar a água ferver, já que as ervas são sensíveis à alta temperatura
Também deve controlar o tempo em que a planta fica na água quente. O chá verde, por exemplo, deve ficar por dois minutos. Já o branco, por três minutos, e o preto, por quatro minutos. As infusões de erva-mate, camomila, hibisco e hortelã devem ficar por cinco a seis minutos

Sem açúcar
Prefira tomar o chá natural. Se não for possível, é indicado usar mel ou açúcar mascavo para adoçá-lo

Onde comprar
Saber que o chá tem uma boa procedência é fundamental para garantir os seus benefícios. Comprar em lojas de produtos naturais e especializadas em chás é a recomendação dos especialistas 

Agora
Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas Notícias