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Cabo Bruno mata 50 e morre com 20 tiros

25/03/2015 - 12h00

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LUIZ CARLOS FERREIRA
DO BANCO DE DADOS FOLHA

Considerado o maior matador confesso da história da Polícia Militar em todo o país, o policial Florisvaldo de Oliveira, ou o "Cabo Bruno", como ficou conhecido pela imprensa, foi um dos homens mais temidos pela juventude periférica nos anos 80, época em que fora acusado de comandar um grupo de extermínio que agia principalmente na zona sul da capital paulista, onde residia com a família.

O "Notícias Populares", que teve grande parte de sua cobertura jornalística voltada à criminalidade nas regiões extremas da cidade, acompanhou inúmeros episódios da vida fria e conturbada do policial que se autodenominava "matador de bandidos".

Cabo Bruno nasceu em Uchoa (SP), em 18 de novembro de 1958, e, segundo o "NP", ingressou na Polícia Militar em novembro de 1978, no mesmo mês em que completara 20 anos de idade. Homem de várias prisões e fugas, ele foi destaque em dezenas de edições do "Notícias Populares" durante as décadas de 80 e 90.

José Maria da Silva - 22.mar.1985/Folhapress
Ao ser levado para o presídio Romão Gomes, após ser capturado no Estado do Pará, cabo Bruno ri para o fotógrafo José Maria da Silva, do "Notícias Populares"
Ao ser levado para o presídio Romão Gomes, após ser capturado no Pará, cabo Bruno ri para o fotógrafo José Maria da Silva

Em março de 1982, aos 23 anos, o PM fora apontado por testemunhas como sendo o autor do assassinato no menor Cláudio Pasternak Batista, de 16 anos, que aconteceu próximo a um parque de diversões instalado no Jardim Selma, na zona sul de São Paulo. Cláudio estava acompanhado do amigo Marcos José Barbosa, que conseguiu fugir sem ser atingido pelos disparos.

O homicídio fora noticiado pelo "NP" em 7 de agosto de 1982, quando o policial fora intimado para um interrogatório na Divisão de Homicídios do DEIC, onde negou o crime. No mesmo dia, o "Notícias Populares" destacou a suspeita de que Cabo Bruno estaria envolvido em outros 15 homicídios, também ocorridos na região sul da capital. Contudo, três meses após as investigações, o policial passou a cumprir normalmente suas funções na 5ª Cia da Polícia Militar de Catanduva.

O pedido de prisão preventiva do cabo, que havia sido requerido em junho de 1983 pelo promotor Paulo Álvaro Chaves Martins Fontes -e em seguida negado pelo juiz Evaldo Fernandes de Araújo-, só foi aceito no dia 19 de setembro, quando a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça derrubou a decisão de Araújo. Na ocasião já eram 34 inquéritos que pesavam contra o matador, conforme relatou o "Notícias Populares" em 7 de outubro. O jornal contou também que o policial havia confessado mais seis execuções.

Folhapress
A segunda fuga de cabo Bruno, do presídio militar Romão Gomes, foi publicada pelo em em 28 de dezembro de 1987
A segunda fuga de cabo Bruno, do presídio militar Romão Gomes, foi publicada pelo em em 28 de dezembro de 1987

Recolhido no presídio militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo, o cabo Bruno ficou cerca de seis meses preso, até conseguir a fuga em 17 de junho de 1984, quando, num momento oportuno, conseguiu desarmar e dominar o soldado Antônio Carmo dos Santos, que havia entrado no alojamento dos presos. Em seguida, tomou como reféns um tenente e um cabo da PM, que chegou a ser baleado depois de tentar tomar a arma do "justiceiro". O episódio foi contado com detalhes pelo "NP" nas edições dos dias 18 e 19 de junho daquele ano.

Em 20 de dezembro de 1984, o jornal relatava outra fuga do policial matador, desta vez na Estrada do Alvarenga (zona sul de SP), quando fora cercado pela polícia. Para escapar, usou como refém o comerciante Manoel Marques Ribeiro, conseguindo fugir ileso do cerco.

Após três meses foragido, cabo Bruno foi preso em um hotel na pequena cidade de Paragominas, no interior do estado do Pará, em 22 de março de 1985. No momento da prisão, o matador acabava de assistir ao jogo entre Corinthians e Cruzeiro. Conforme publicado no "NP", ele estava acompanhado do amigo José Feliciano Bezerra, o Carneirinho, que segundo informações da polícia, havia participado de algumas matanças comandadas pelo ex-policial.

Levado pela segunda vez para o presídio militar Romão Gomes, o cabo Bruno ficou encarcerado por pouco menos de dois anos, quando, em 26 de dezembro de 1987, conseguira escapar mais uma vez do presídio, numa ação que não foi bem esclarecida pela polícia na época. O episódio foi reportado pelo "NP" com o título "Cabo Bruno saltou o muro e deu pinote no presídio".

A polícia só conseguiu recapturá-lo em maio de 1988, em Araraquara, no interior de São Paulo, onde fora surpreendido por três homens do Serviço Reservado da PM, bem no momento em que dormia em uma pensão localizada na rua Antônio Prado. Com ele foram apreendidos talões de cheques, documentos falsos, dois revólveres e um punhal.

Em sua última fuga, em julho de 1990, cabo Bruno (com então 32 anos) e outros dois companheiros de cela, renderam três carcereiros e levaram três metralhadoras beretas, três revólveres e cerca de 100 cartuchos de diversos calibres. A ação foi noticiada pelo "NP" com a chamada "Cabo Bruno vai à guerra", tamanho o arsenal levado pelo trio.

A captura derradeira do policial criminoso se deu em 29 de maio de 1991, na rua Albina Bento, no bairro Pedreira, extremo sul de São Paulo. Com o matador foram presos outros dois homens, um deles era condenado por estelionato.

A reportagem sobre a última prisão foi veiculada pelo "NP" em 31 de maio e relatava que a Justiça não iria mais facilitar a vida do assassino. Desta vez, por determinação do juiz Francisco José Galvão Bueno, titular da Vara de Execuções Criminais, o cabo Bruno ficaria preso na Casa de Custódia - conhecida como Piranhão -presídio de segurança máxima localizado em Taubaté, interior de São Paulo. Lá, o "justiceiro" ficou isolado por cinco anos, sem contato com os demais presos. Durante esse período se converteu ao protestantismo e passou a pintar quadros.

Matuiti Mayezo - 1º.nov.1991/Folhapress
O ex-policial Florisvaldo de Oliveira, o cabo Bruno, em prisão de São Paulo, em 1991
O ex-policial Florisvaldo de Oliveira, o cabo Bruno, em prisão de São Paulo, em 1991

Em 1996, o ex-policial foi levado para o Centro de Observação Criminológica de São Paulo, onde permaneceu até 2002. Depois, passou a cumprir sua pena na penitenciária de Tremembé. Em 2009, começou a pagar sua sentença no regime semiaberto.

Condenado a mais de 100 anos de prisão, por pelos menos 20 dos 50 homicídios a ele atribuídos, cabo Bruno foi assassinado na noite de 27 de setembro de 2012, aos 53 anos, em frente à sua casa, em Pindamonhangaba (SP). Ele voltava de um culto religioso realizado na cidade de Aparecida (SP). Estavam com ele em seu carro o genro e a esposa Dayse da Silva Oliveira, com quem o ex-cabo era casado havia quatro anos.

Cabo Bruno, que estava em liberdade havia apenas 35 dias, fora abordado por dois homens armados, que se aproximaram do "justiceiro" e dispararam cerca de 20 tiros contra ele, que segundos antes havia descido calmamente do veículo. Os familiares não foram atingidos.

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