Saiu no NP

Aos 93 anos, Gato de Telhado é preso em Pinheiros

"Já era madrugada quando o agente Raul Martins de Oliveira Filho, lotado em Itapecerica da Serra, passou pela rua Fradique Coutinho, em Pinheiros e viu um ladrão com um 'pé de cabra' arrombar a porta de uma residência. Deu voz de prisão e notou que se tratava de um ancião. Estava disposto a libertá-lo, quando reconheceu o velho 'Meneguetti', que, apesar da idade, manuseava a ferramenta com maestria."

O relato acima foi publicado no "Notícias Populares" em 15 de junho de 1970, momento em que a seleção brasileira acabara de se classificar para as semifinais da Copa do Mundo, depois de uma dura vitória por 4 a 2 sobre o Peru.

A íntegra da reportagem contava com detalhes a última investida do inusitado ladrão de joias Gino Amleto Meneghetti, que, aos 93 anos, fora pego em flagrante pelo agente penitenciário Raul Martins quando tentava roubar a casa de um engenheiro, no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.

Crédito: 3.out.1961/UH/Folhapress
Em outubro de 1961, Gino Amleto Meneghetti se defende em delegacia após ser surpreendido no bairro da Vila Mariana portando duas talhadeiras –ele foi liberado.

O delegado Jacyr Cozadini, então responsável pela ocorrência, julgou o "velho bandido" como incapaz. No entanto o tachou de perigoso, pelo extenso histórico de crimes praticados durante décadas no país, e solicitou ao escrivão Antonio Carlos, do 14º Distrito Policial, que o autuasse por tentativa de furto qualificado. Porém, por causa da idade, não houve prisão.

Quase dois anos antes, em 5 de fevereiro de 1968, o "Notícias Populares" noticiou outra proeza do criminoso, que, aos 90 anos, tentara outro assalto a residência, desta vez na rua 1º de Janeiro, na Vila Clementino (zona sul). Mas os moradores do número 108, notando a presença de um vulto no telhado da casa, acionaram a polícia que chegou imediatamente ao local.

Meneghetti não hesitou e, apesar da idade avançada e já não tendo mais a mesma destreza de outras épocas, tentou fugir dos policiais pelos telhados. Certo de que a ação seria frustrada e acuado pela polícia, acabou despencando do teto para o interior do banheiro da casa onde tentara refúgio. Acabou se entregando de forma pacífica à polícia.

Na delegacia, ao ser interrogado, argumentou que, sem ter o que fazer, resolveu subir no telhado de uma casa qualquer para tomar ar puro. Alegou ainda que tudo aquilo não passava de uma armadilha preparada pela polícia por causa de seu nebuloso passado. Por esse episódio, ficou detido por cerca de dez meses.

Décadas antes, Meneghetti havia figurado como o bandido de maior notoriedade nas páginas policiais da imprensa paulistana. Homem de mais de uma dezena de fugas – entre presídios e perseguições policiais – ficou famoso pela forma espetacular com que executava seus roubos, sempre escapando da polícia com agilidade e desenvoltura impressionantes, pulando muros e tetos. Daí o apelido Gato de Telhado.


Outras alcunhas também qualificaram o criminoso nas crônicas policiais da época: Homem de Borracha e Homem dos Pés de Mola foram algumas delas. Já os apelidos Ladrão Nobre, Bom Ladrão e Robin Hood do Asfalto vieram pelo fato de Meneghetti não roubar pobres, e não usar da violência em seus ataques, conforme ele mesmo dizia. E completava: "Só me interessa roubar dos ricos, e tirar joias, que são bens supérfluos que só servem para alimentar a vaidade".

Gino Amleto Meneguetti nasceu na cidade de Pisa, Itália, em 1878 (alguns biógrafos afirmam que ele nasceu em 1888). De família pobre, composta de pescadores, fora criado pelos avós num casebre à beira do rio Arno, no interior da Itália.

Meneghetti desembarcou no Brasil em 1913, na cidade de Santos. Tinha 35 anos e trazia na bagagem uma longa ficha de delitos, entre fugas e roubos cometidos na França e na Itália, países onde era procurado pelas autoridades locais. Passou a morar em São Paulo no ano seguinte.

Em setembro de 1975, o "Notícias Populares" publicou uma série de seis reportagens onde contava com minúcias as peripécias vividas pelo "Rei dos Ladrões". Escrita pelo jornalista Clóvis Teixeira, com depoimentos do próprio bandido, a série relatou sua vida desde a infância pobre em Pisa – em fins do século 19 – até 1926, quando fora acusado de matar o delegado Waldemar Dória, numa empreitada que mobilizou toda a polícia da cidade na época.

A tragédia ocorreu na rua dos Gusmões, no centro de São Paulo, onde a polícia havia armado um grande cerco para capturar o criminoso. Por esse episódio ficou 18 anos encarcerado, boa parte deles passados numa solitária. Na prisão, com receio de ser envenenado, lavava toda a comida que recebia. Meneghetti sempre se declarou inocente quanto à morte de Dória.

Crédito: 16.mar.1960/UH/Folhapress
O italiano Gino Amleto Meneghetti, em março de 1961, quando narrava momentos de sua vida

A liberdade condicional veio em 1944, mas não fez com que Gino abandonasse o crime. A partir daí o bandido seria perseguido e capturado várias vezes pela polícia. Somadas todas as penas, passou cerca de 40 anos dentro de presídios.

Em 1982, o "Notícias Populares", por meio do advogado Milton Bednarski, que possuía o mais completo arquivo de documentos dos grandes crimes que abalaram São Paulo nos séculos 19 e 20, apresentou aos leitores informações detalhadas que, segundo ele, comprovavam a culpa de Meneghetti na morte do delegado Waldemar Dória. O conjunto de artigos, publicados no "NP" entre os dias 15 de novembro e 2 de dezembro, também ligavam o criminoso ao assassinato do vigia João Honorato, no bairro da Bela Vista –morte que também fora negada pelo célebre bandido.

Meneghetti morreu de trombose, aos 98 anos. Sua morte foi noticiada pelo "NP" em 24 de maio de 1976. Seus últimos momentos de vida foram em companhia da família, na casa do filho Luiz Tovani Meneghetti, na Vila Guarani (zona sul).

O desejo de ter o corpo cremado foi atendido pelos familiares. De acordo com o filho Luiz Tovani, seu pai sempre manifestou essa ideia, quando dizia: "Sou ateu e, quando morrer, não desejo servir de pasto para os vermes."

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