Saiu no NP

Guerra do Golfo no 'NP'

As páginas do "Notícias Populares" foram dominadas por histórias bizarras, muito sexo e violência durante a sua trajetória. Mesmo assim, a publicação conquistou uma gama enorme de leitores, que faziam filas nas bancas atrás de seus exemplares.

O jornal popular inovou ao trazer ao seu público assuntos da área econômica com uma linguagem mais simples e isso também refletiu-se na cobertura de assuntos internacionais, como a Guerra do Golfo (1990-1991).

A guerra começou no dia 2 de agosto de 1990, quando as tropas iraquianas de Saddam Hussein invadiram e tomaram a capital do Kuait, com o propósito de anexar o território vizinho e suas reservas de petróleo ao seu país. Porém o "NP" não cobriu essa fase inicial do confronto.

O problema é que o conflito afetou diretamente a maior potência mundial, os EUA. Com o golfo Pérsico fechado, os americanos perderam dois grandes fornecedores de petróleo --Iraque e Kuait--, e as especulações em torno do andamento da guerra fizeram o preço da commodity chegar a valores altíssimos para a época.

Crédito: Folhapress Reprodução de carta da Embaixada do Kuait enviada ao 'Notícias Populares', no primeiro dia de cobertura da Guerra do Golfo
Reprodução de carta da Embaixada do Kuait enviada ao 'Notícias Populares', no primeiro dia de cobertura da Guerra do Golfo

O Conselho de Segurança da ONU tentou punir o governo iraquiano com sanções econômicas e uma série de resoluções, mas tudo foi em vão, pois Saddam ignorou as atitudes da entidade. Após esgotarem as saídas diplomáticas para a resolução do conflito, o órgão estabeleceu um prazo para que as tropas iraquianas saíssem do Kuait: 15 de janeiro de 1991.

Durante o prazo, uma coalizão com 32 países foi formada. Ela contou com 425 mil soldados dos EUA e outros 118 mil de outras nações, todos comandados pelo general americano Norman Schwarzkopf (1934-2012).

Com a proximidade do deadline e com a tensão de um iminente confronto, o "Notícias Populares" estampou no dia 14 de janeiro de 1991 a sua primeira manchete sobre o tema: "Quem tem Ku - aiti tem medo".
A publicação dava aos seus leitores o prenúncio da guerra e alertava sobre os "gases do diabo", definição que o jornal encontrou para falar sobre as temidas armas químicas do exército de Saddam.

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Em 15 de janeiro de 1991, 'NP' expôs o temor da guerra

No dia seguinte, o "NP" deu destaque bem maior ao conflito: "Mundo suplica: Arrega, Sadam". E complementava o título: "Terra em Pânico: Armas atômicas vão destruir tudo e todos". A capa contava com várias chamadas sobre o assunto, sempre com o "humor" peculiar do veículo, inclusive ao associar fatos acontecidos na cidade de São Paulo com a guerra, como foi o caso de Juarez Miranda, o "Rambo" da zona norte. Chamado de "viciado por violência" e preso com várias armas e munição suficiente para guerrear sozinho, teve ao lado do ditador iraquiano o seu momento de fama: "Rambo banca Sadam: Armado pra acabar com a zona norte".

E para não perder a "mania", o "Notícias Populares" trouxe em uma de suas páginas internas que Jean-Claude Van Damme tinha a pretensão de ganhar a guerra sozinho e atribuiu a seguinte frase ao ator: "Pra mim, Sadam é ficha!".

Na edição da véspera do grande ataque da coalizão contra o Iraque, o diário reproduziu trechos de uma matéria publicada no jornal inglês "The Sun", que contava como foi o surgimento do "monstro" Saddam. No mais, apenas um destaque para o aviso do governo brasileiro aos reservistas de que o país não entraria na guerra.

No dia 17 de janeiro de 1991, às 0h58 (19h58 do dia 16 em Brasília), teve início a operação "Tempestade no Deserto". Aviões dos EUA, Reino Unido, Arábia Saudita e Kuait atacaram diversos alvos no Iraque, como o palácio presidencial na capital Bagdá e a sede do Conselho de Ministros, além de áreas ocupadas no Kuait. O presidente americano George Bush (pai) afirmou que "a guerra começou em 2 de agosto, quando o Iraque invadiu o Kuaiti". Devido ao horário de fechamento da edição do dia 17 ter sido antes do início do ataque da coalização, a publicação não trouxe nada de "quente" aos seus leitores.

Os resultados da grande operação contra Saddam só saíram no dia seguinte, "Foi pior que a bomba atômica" era a manchete em letras garrafais. O ataque foi considerado pelo "NP" como mais devastador do que a bomba de Hiroshima, no Japão.


Um dia após sofrer os ataques, veio a retaliação iraquiana. Mísseis Scud foram disparados contra Tel Aviv, a maior cidade de Israel, e Haifa. De acordo com o Exército israelense, sete pessoas ficaram feridas. A primeira página do dia 19 de janeiro chamava o ditador iraquiano de Anticristo e destacava sua vingança: "Sadam se vinga na terra santa".

Ainda que cometendo exageros, a cobertura conseguia, de certa forma, informar o leitor sobre o que acontecia do outro lado do mundo. Mas não demorava muito, vinha algo burlesco, como em 20 de janeiro: "Sadam Hitler chama o E.T. - Vale até disco voador para exterminar de novo os judeus". A informação era atribuída ao repórter da TV americana CNN, William Blystone, que, durante uma reportagem em Tel Aviv (Israel), afirmou ter visto um objeto silencioso e brilhante vindo em sua direção.

Dois dias depois do caso do óvni, o "Notícias Populares" mostrou "O buraco do Sadam". Colocando o duplo sentindo de lado, era possível ver uma ilustração do palácio subterrâneo do ditador.

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Reprodução de infográfico do 'NP' sobre o "buraco do Sadam'

A guerra se estendia, e Saddam continuava a cometer atrocidades, como a utilização de civis kuaitianos como escudos humanos em instalações industriais e militares de seu país, tudo isso para evitar mais ataques dos países do Ocidente, que chegaram a lançar 85 mil toneladas de bombas sobre os seus alvos, durante as seis semanas seguintes do confronto. Algumas destas bombas eram guiadas por mira laser, chamadas de "bombas inteligentes", mas toda essa tecnologia não impediu que um bombardeiro stealth acertasse um abrigo antiaéreo civil.

De acordo com aliados dos EUA, ali funcionava um importante centro de comando das forças iraquianas -o erro provocou a morte de aproximadamente 315 pessoas, sendo 130 crianças entre as vítimas.

O confronto estava perto de sua reta final, quando o jornal apresentou aos seus leitores a Unidade Gurca, composta por guerreiros ninjas do Nepal a serviço do Exército inglês. O título da matéria, publicada em 8 de fevereiro de 1991, mostrava a criatividade da Redação: "Primos do Jyraia chupam o sangue dos iraquianos".

Oito dias após a notícia sobre os espadachins, o "NP" começava a brincar com o desgaste de Saddam e de seu exército. Intitulada "Míssil abre as pernas de Sadam", a matéria relatava uma "arregada de leve" do ditador, que já se colocava propício a retirar suas tropas do Kuait, porém, em contrapartida, fazia uma série de exigências para tal. Em um dos parágrafos, o jornal não perdoou: "Sadam fez uma lista maior que a do George Michael para participar do Rock in Rio".

Ainda sem conseguir um acordo com Saddam para o fim da guerra, o presidente americano à época, George Bush (pai), estipulou prazo para que o Iraque deixasse o Kuait: 23 de fevereiro de1990.

O tempo determinado pelos EUA se esgotou e, no dia seguinte, uma grande ofensiva das tropas aliadas foi lançada no Kuait ocupado. O ataque aéreo, terrestre e marítimo aniquilou o já enfraquecido exército do ditador iraquiano.

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Dois dias após o ataque, o Iraque anunciou a saída de todas as suas tropas do território kuaitiano, porém o seu governo não aceitava cumprir todas as exigências impostas pela ONU. Em sua capa do dia 27 de fevereiro, o "NP" tirava um sarro dos derrotados: "Sadam dá o Kuait - EUA dominam o pedaço do bigode".

Porém Bush queria a total rendição pública de Saddam e a aceitação de todas as resoluções feitas pelas Nações Unidas. Sem aceitar condições em sua totalidade e já praticamente derrotado, o exército de Saddam fugiu para a cidade iraquiana de Basra, mas as forças aliadas do Ocidente bombardearam os comboios inimigos, o que provocou a morte de milhares de soldados.

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Em 27 de fevereiro, veio a notícia que o mundo aguardava: o presidente Bush anunciava o cessar-fogo. Milhares de soldados de Saddam haviam sido capturados. Muitos deles exaustos, renderam-se sem resistir. A guerra chegava ao fim, e o "NP", que, à sua maneira, manteve o seu leitor informado desse importante evento da história mundial, terminava a sua cobertura com mais uma chacota contra o "bigodudo": "Sadam arregão - Condenou seu povo à morte e afinou".

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