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Música
Descrição de chapéu The New York Times

Jack Harlow não vê o hip-hop só como tendência cool: 'Quero mesmo tocar'

Rapper quer abraçar o sucesso sem deixar para trás sua comunidade

Jack Harlow Instagram/jackharlow

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Atlanta
The New York Times

Em junho do ano passado, na cerimônia do BET Awards, Jack Harlow, 24, estava terminando de dar uma entrevista no tapete vermelho quando viu a rapper Saweetie ali perto. Ele tinha colaborado em um remix de "Tap In", um hit da cantora, mas os dois não se conheciam pessoalmente. E por isso ele caminhou até ela, inclinou seu corpo ligeiramente em sua direção, estendeu a mão e a cumprimentou.

O que se seguiu pelos próximos 20 segundos foi um momento épico de flerte, uma colisão entre o charme dele e a cara de poucos amigos que a cantora exibia.

"Eu pensei que aquela não era a interação que eu esperava que fosse", disse Harlow recentemente em uma conversa no Generation Now Studios, um ambiente de design enxuto e frio. "Naquele momento, a única coisa que eu pensei foi que esperava que a cena não fosse parar na internet".

O que foi exatamente o que aconteceu. O impasse brincalhão entre os dois foi capturado pela câmera do site de fofocas The Shade Room, e o vídeo se espalhou rápido. O trecho é parte importante de uma compilação editada por fãs e postada no YouTube com o título "jack harlow flertando sem parar por cinco minutos", que até agora já foi assistida 6,6 milhões de vezes. "Minhas compilações costumavam ter o título ‘Jack Harlow sendo sus’", ele disse, com um grande sorriso, usado um termo de gíria que significa desajeitado ou sonso. "É uma loucura até que ponto a narrativa mudou".

Quer Harlow estivesse flertando, quer não ("às vezes estou só conversando com alguém e quem vê pensa que estou flertando", ele disse. "Acho que é porque sou uma pessoa calorosa"), o momento de ousadia se tornou um dos documentos que definem sua rápida ascensão. "Tudo mudou depois daquilo", ele afirmou. "Digo às pessoas que aquele momento foi como lançar um hit".

Harlow tem alguns hits lançados, aliás: o efervescente "Whats Poppin", que se tornou um meme muito visto no TikTok em 2020; uma participação provocadora como convidado em "Industry Baby", de Lil Nas X, que chegou ao primeiro posto da parada Billboard Hot 100 no ano passado; e "First Class", um sample de Fergie, que recentemente se tornou a primeira canção de Harlow a chegar ao topo da parada de sucessos.

Na última sexta-feira (6), ele lançou "Come Home the Kids Miss You", seu segundo disco por uma grande gravadora (ele tem contrato com a joint venture entre a Generation Now e a Atlantic). O álbum vem repleto de faixas suntuosas sobre a desorientação causada pelo estrelato recente, sobre sua conversão em objeto de desejo, e sobre a velha e boa ambição de conquistar o trono.

Harlow é um rapper notavelmente técnico, seguro de si e também muito bem humorado, em determinados momentos; algumas das primeiras faixas que o levaram ao sucesso vinham carregadas de frases de efeito, em estilo livre, perfeitas para o rádio. Mas Harlow –um rapper branco que conseguiu sucesso comercial, o que continua a ser uma coisa rara no hip-hop– busca na verdade se tornar popular junto aos fãs médios de hip-hop; ele não quer ser apenas objeto de apreciação dos "conhecedores".

"Quero me afastar um pouco do rap que as pessoas admiram de longe e chegar mais perto de uma música que todo mundo possa curtir junto", ele disse.

Harlow também é alvo de fascínio por mais do que sua música, como o vídeo que o mostra com Saweetie demonstra. Assistir à ascensão de Harlow é testemunhar as diversas maneiras, muitas das quais não costumam ser visíveis, pelas quais um rapper branco pode demonstrar que se sente confortável trabalhando em um gênero negro de música –e terminar adotado por ele.

Drake postou imagens casuais que o mostravam em férias com Harlow nas ilhas Turks and Caicos, em seu Instagram, com a legenda "menina, não tente me telefonar agora, porque você está vendo que estou curtindo com Jack". Quando Harlow postou um vídeo que o mostrava cantando um rap desajeitadamente, aos 11 anos de idade, Kendrick Lamar, que há dois anos não classificava um tuíte como favorito, correu a apertar o botão de "like". O rapper EST Gee, de Louisville, Kentucky, contou uma história no podcast "No Jumper" sobre como a polícia local tinha tentando persuadir Harlow a não trabalhar com ele, mas Harlow ignorou a recomendação.

Essas interações informais foram cruciais para o percurso fluido de Harlow para o topo da hierarquia do hip-hop, e servem como uma reprimenda intrínseca a gerações anteriores de rappers brancos que atraíam atenção incessante para a cor de sua pele, muitas vezes de maneiras que pareciam compensatórias ou penitentes.

"Não estou preocupado com ser branco", disse Harlow. "Estou ciente de que sou branco, mas não é algo contra o que eu lute, ou que que queira destacar. Deixo que as coisas corram". Ao longo dos anos, ele observou outros rappers brancos –Eminem, ou Asher Roth, ou Macklemore– e decidiu que abordagens faziam mais sentido para ele. "Mesmo que eu não tenha vivido durante todas aquelas gerações, estou ciente delas, e pude refletir sobre elas", disse Harlow.

Em termos mais amplos, os astros brancos de rap mais talentosos deixaram de ser a novidade que eram no período em que Eminem surgiu, o que reduz a intensidade dos holofotes que brilham sobre Harlow, mesmo que apenas um pouco. E o gênero também se estendeu e se ampliou, mas a inovação negra continua a ser a principal força propulsora.

Harlow, que nasceu e cresceu em Louisville, está se preparando para este momento há mais de uma década. Um perfil dele publicado em 2017 pela Louisville Magazine relata uma história sobre ele ter perguntado à sua mãe, aos 12 anos, o que precisava fazer para se tornar o melhor rapper do mundo. Ela respondeu que ele precisaria de 10 mil horas de prática, de acordo com a regra popularizada por Malcolm Gladwell. Harlow não demorou para começar a lançar canções por conta própria.

O sucesso local conduziu a reuniões com agências de talentos e gravadoras, quando ele ainda estava nos primeiros anos do segundo grau, ainda que nada disso tenha resultado em um contrato. Em lugar disso, ele continuou a lançar álbuns que eram ao mesmo tempo ferinos em suas letras e reveladores de que ele sabia ser um nerd. Harlow cresceu em Highlands –um bairro "de grande aceitação, diverso, um lugar onde você podia caminhar sem medo pelas ruas". Mas também estava em contato com artistas e produtores de outros bairros, e batalhou para cultivar audiências nas partes branca e negra de Louisville.

Harlow continua muito conectado à sua cidade de origem. Recentemente comprou um apartamento lá, em uma região da cidade conhecida como a preferida dos aposentados. "Quero a mesma coisa que eles: paz e sossego".

Depois do sucesso de "Whats Poppin", Harlow passou por um par de anos frenéticos. Estrelou uma campanha para a Tommy Hilfiger. Participou da cerimônia do Kids’ Choice Awards e recebeu o tradicional banho de gosma verde. Devorou um biscoito em um comercial para o KFC. Foi ao Met Gala, duas vezes. Conquistou o papel de Billy Hoyle na refilmagem de "Homens Brancos Não Sabem Enterrar", apesar de nunca ter atuado. Foi convidado a assistir da beira da quadra a um jogo de playoff da NBA, causando confusão a dois árbitros, que foram apanhados pelo microfone tentando adivinhar quem era ele. Cantou o remix de uma canção de Eminem. Foi indicado para três Grammys e se apresentou na cerimônia da premiação deste ano, embora tenha sido forçada a censurar a letra de uma canção especialmente maliciosa.

Como muitos astros pop emergentes, ele tem uma base devotada de fãs online. Uma conta especialmente dedicada, @jackharlowmemes, captura muitos de seus pontos altos e alguns de seus momentos desajeitados. Também cataloga, ocasionalmente, uma das partes mais documentadas, e mais acompanhadas pelos fãs, da fama de Harlow: seus atrativos para as mulheres negras, capturados em um número incontável de vídeos no TikTok e tuítes, nos dois últimos anos. (Amostra de legenda: "Porque Jack Harlow tem as mulheres negras na palma da mão".)

"Amo as mulheres negras desde que era moleque, e assim isso não me parece estranho", disse Harlow, que muitas vezes escala atrizes negras para o papel de suas parceiras românticas nos vídeos de suas canções. "E não parece um fenômeno assim tão estranho. Acho que é só porque agora está acontecendo em escala maciça".

"Tive relacionamentos com mulheres negras", ele acrescentou. "Assim, me pareceria estranho se esse não fosse o caso. Ninguém que me conhece parece espantado por as mulheres negras gostarem de mim –sabe como é? Porque todas as pessoas mais próximas de mim amam as mulheres negras e estão sempre em companhia de mulheres negras".

Na metade de 2020, Harlow participou de um protesto depois que a polícia matou Breonna Taylor, em Louisville. Sua presença atraiu grande atenção online. O perfil cada vez mais destacado que ele tinha, e a adesão da audiência feminina negra a ele, disse Harlow, "intensificaram minha conscientização da responsabilidade que tenho por protegê-las, e de levar em consideração a posição em que elas podem estar, comparadas às mulheres brancas".

Também existe a questão de ele ter se tornado um galã. Harlow é alto —1,90 metro– e sua postura é confiante. Ele caminha com passos leves, suaves. No dia em que conversamos, estava vestido todo de preto –camiseta preta apertada, calças de couro, e calçava tênis New Balance 550 brancos. (Ele é embaixador de marca da fabricante do calçado.) Em exibição na sala de estar do estúdio havia embalagens de pipoca promocionais no estilo da marca Orville Redenbacher, mas com a foto de Harlow, nos dias anteriores aos cachos que o transformaram em sonho de consumo feminino.

Conviver com esse aspecto da fama continua a ser novidade para ele. "Fiquei muito mais vaidoso", ele disse. "E também provavelmente um pouco mais inseguro, porque eu não ligava muito para minha aparência, e as pessoas sabiam disso. Acho que é algo como o que acontece com as garotas bonitas, sabe? Quando elas sabem que o mundo as vê como bonitas, o que elas percebem é aquilo que não é bonito. E querem ser perfeitas. Não digo que eu tenha chegado a esse ponto, mas sou muito consciente dessa questão".

Suavidade é a principal lente que Harlow emprega para avaliar a sonoridade de sua música. "Sempre penso que, se eu estivesse no carro, e a menina de que eu gosto estivesse no banco do passageiro, e eu tivesse de escolher uma música, será que eu teria orgulho de tocar aquela música?"

"Come Home", produzida primariamente por Harlow, com Angel (BabeTruth) Lopez e Rogét Chahayed, busca deliberadamente atingir dois públicos –os fãs que gostam de seu rap intrincado e frases de efeito e os fãs que amam sua barba e sorriso. Emblemática de sua abordagem é a faixa "Dua Lipa" –essencialmente uma canção em ritmo "trap", acelerada, feita para cantar em estádios. A canção não é sobre Dua Lipa (e a cantora tampouco participa da faixa), mas usa seu nome como forma de atrair a atenção dos ouvintes de pop.

De muitas maneiras, o álbum "808s & Heartbreak", de Kanye West, e as inovações que Drake introduziu depois disso definiram o modelo de Harlow. Mas quando ele trabalhou com Drake em uma faixa para "Churchill Downs", um dos discos de Harlow, ele optou não por uma canção melódica e de orientação pop, e sim por um rap intenso. "Achei que uma produção simples seria refrescante. Só nós dois demonstrando nosso amor pelo rap".

Harlow continua próximo do Private Garden, um grupo de rappers e produtores de Louisvile com quem ele colabora há anos. (Alguns dos membros do grupo trabalharam como produtores do novo disco.) Mas ele se tornou o primeiro astro dessa turma, e com isso vem influência e a necessidade de prestar contas. Em "Baxter Avenue", a faixa final de "Thats What They All Say", o primeiro álbum de Harlow por uma grande gravadora, ele trata das circunstâncias com humildade sincera e uma leve dose de ansiedade, descrevendo estar ciente daquilo a que tem –e não tem– acesso, como homem branco no rap, e das responsabilidades que acompanham seu papel.

"Especialmente se considerarmos o lugar de onde venho, sabe, as pessoas negras não tiveram muitas oportunidades", disse Harlow. "Acredito que as pessoas esperem que eu recolha tudo isso, decole e me torne maior do que a vida, e depois retorne dizendo ‘vejam só que grande eu me tornei! Vocês não estão orgulhosos de mim?’"

Mas Harlow não quer se distanciar da comunidade que o criou. "O que as pessoas realmente precisam e querem ouvir é um ‘venham comigo’. Querem saber quantas oportunidades eu posso criar. Quantas pessoas eu posso colocar em posição de fazer o mesmo sucesso".

Com esse objetivo em mente, Harlow decidiu muito tempo atrás que ser discreto musicalmente não serviria aos seus propósitos. "Meu espírito competitivo é o que tenho de mais hip-hop", ele disse.

"Sinto que qualquer respeito que eu conquiste é porque as pessoas podem ver que amo o que faço", disse o cantor. "Amo como um menino que realmente cresceu ouvindo hip-hop, que não pensa nisso como uma tendência cool, como um jeito cool de me tornar famoso. Eu quero mesmo tocar".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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