Música
Descrição de chapéu The New York Times

Após Eurovision, Måneskin supera Foo Fighters em serviço de streaming

Grupo italiano, pela 1ª vez na história, tem música no Top 10 do Spotify

Da esq. para a dir., Victoria De Angelis, Ethan Torchio, Damiano David e Thomas Raggi

Da esq. para a dir., Victoria De Angelis, Ethan Torchio, Damiano David e Thomas Raggi Valerio Mezzanotti/The New York Times

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Elisabetta Povoledo
Roma
The New York Times

Quando o grupo de rock Måneskin venceu o Eurovision Song Contest deste ano, era pouco conhecido fora da Itália. Mas o concurso colocou a banda diante de uma plateia de 180 milhões de telespectadores e propeliu sua canção vencedora, “Zitti e Buoni”, ou “Cale a Boca e se Comporte”, ao top 10 mundial do Spotify, a primeira vez que isso acontece com uma banda italiana.

Até a primeira quinzena de junho, a canção havia sido executada mais de 18 milhões de vezes no Spotify. Com quase 18 milhões de ouvintes no mês passado, o Måneskin apresentava desempenho melhor no serviço de streaming do que o Foo Fighters ou o Kings of Leon, no mesmo período.

Os músicos que se destacam no Eurovision costumam sumir de vista logo que o concurso acaba, mas os membros do Måneskin esperam usar a fama que conquistaram lá e o interesse internacional que atraíram para se tornarem um dos raros casos de sucesso a longo prazo, entre os vencedores do Eurovision.

Uma controvérsia que surgiu com relação ao grupo depois de sua apresentação no concurso um mês atrás só serviu para aumentar sua notoriedade. Na noite em que a banda venceu o concurso, boatos se espalharam na mídia social depois que um vídeo começou a circular mostrando o vocalista da banda, Damiano David, debruçado sobre uma mesa nos bastidores.

Em uma entrevista a mídia mais tarde naquela noite, um jornalista sueco perguntou se David estava cheirando cocaína ao vivo na TV, e o cantor negou qualquer delito. David passou por um exame de drogas, e o resultado foi negativo.

A European Broadcasting Union, que congrega as redes de TV europeias, divulgou um comunicado no qual declarava que “não houve uso de drogas” e que “considerava o caso como encerrado”. Ou seja, o quarteto de músicos cujas idades combinadas chegam a apenas 83 anos teve uma estreia mundial de impacto. (David tem 22 anos, a baixista Victoria de Angelis tem 21, Thomas Raggi, o guitarrista, e Ethan Torchio, o baterista, têm 20 anos.)

Para nós, diz de Angelis em uma entrevista recente, "a música é paixão, diversão, um escape das tensões" —o que não surpreende qualquer pessoa que tenha visto o Måneskin ao vivo. A banda exibe imenso carisma e uma carga notável de energia juvenil no palco.

Um crítico de música italiano comparou o Måneskin —palavra que quer dizer "luar", em dinamarquês— ao coelhinho das pilhas Energizer. Isso pode explicar, em parte, porque "Zitti e Buoni" transcendeu uma barreira idiomática que poderia ter sido intransponível (embora já exista uma cover da canção em finlandês).

A canção celebra a individualidade e a busca de um estilo próprio de viver e de fazer música. O refrão repete "podemos ter perdido a cabeça, mas somos diferentes deles".

Com seu estilo visual cuidadosamente calculado, elegante e andrógino —acompanhado por acessórios como sapatos de salto alto, esmalte de unhas preto e maquiagem pesada nos olhos—, o Måneskin derruba barreiras de gênero e é um defensor da livre expressão da individualidade.

A banda foi criada em 2015. David, de Angelis e Raggi se conheciam desde a escola, em Roma. Torchio, cuja família vive perto da cidade, entrou para o grupo depois de responder a um anúncio ("procura-se músicos") no Facebook.

Não havia muito espaço para apresentações de bandas de rock iniciantes e, por isso, eles tocavam na rua, em escolas e em restaurantes "nos quais a expectativa era de que a banda levasse seus espectadores pagantes", recorda David. Concursos musicais modestos envolvendo bandas jovens "pelo menos permitiam que tocássemos em público", acrescenta.

"É uma dinâmica que dá experiência", diz Torchio. Depois de dois anos batalhando para conseguir shows, a banda participou em 2017 da edição italiana do programa de TV The X Factor. Anna Curia, 24, diz que "foi amor à primeira vista" quando ela viu a canção que o grupo enviou ao programa para sua audição.

Poucas semanas depois, ela fundou o fã-clube oficial do Måneskin. "Eles tinham um estilo e um som distintos desde o começo", ela diz. Outros fã-clubes não demoraram a surgir. Um deles, chamado Mammeskin, se destina a mulheres de uma certa idade.

A banda italiana Måneskin no Eurovision
A banda italiana Måneskin no Eurovision - Ilvy Njiokiktjien/The New York Times

A passagem pelo X Factor atraiu a atenção de Veronica Etro, da grife de moda Etro. "Eles tinham alguma coisa especial", diz Etro, que é diretora de criação de coleções femininas da grife. "Fiquei enfeitiçada."

A grife entrou em contato com a banda e começou a cuidar dos figurinos para capas de disco e vídeos. A colaboração evoluiu e a Etro criou os figurinos para o Eurovision, em que as roupas de couro vermelho com detalhes metálicos do grupo traziam à mente "um encontro entre Jimi Hendrix e 'Velvet Goldmine'", escreveu Vanessa Friedman no New York Times.

"O que amo é como eles misturam roupas masculinas e femininas", afirma Etro em entrevista por telefone. "Existe algo de muito revolucionário neles, na maneira pela qual eles não parecem ter medo algum e em sua disposição de se divertir com as roupas."

Manuel Agnelli, um dos jurados do X Factor em 2017, começou a orientar a carreira do Måneskin. No começo eles eram imaturos musicalmente, ele diz, "mas percebi neles características que é impossível ensinar; é algo que a pessoa precisa ter ao nascer, é uma personalidade".

"A imagem deles é parte importante do que são, sua sexualidade, seu carisma, seus corpos. É parte do rock, e da performance", afirma Agnelli.

O Måneskin não venceu no X Factor —banda foi derrotada por Lorenzo Licitra, um tenor cujo estilo se enquadra mais ao apego italiano às grandes baladas melódicas. Mas o programa serviu de plataforma para que eles atingissem novos públicos.

"Eles são um fenômeno televisivo", diz Andrea Andrei, jornalista do diário romano Il Messagero. "Sem o X Factor e a máquina que existe por trás do programa, para despejar no mercado produtos prontos para o sucesso, o Måneskin teria tido de batalhar por muito mais tempo, como acontece com as outras bandas de rock."

A verdadeira surpresa para muitos comentaristas italianos foi a vitória do Måneskin em março no mais recente Festival de Sanremo, um evento nacional de música italiana que seleciona o representante do país no Eurovision Song Contest.

Até alguns anos atrás, Sanremo atraía apenas italianos cujo gosto musical data da era anterior a Woodstock, mas as edições recentes buscaram atingir audiências mais jovens ao convidar artistas que tiveram destaque em programas como The X Factor.

"Não existe nada mais distante do rock do que Sanremo", diz Massimo Cotto, crítico de música e DJ italiano. E assim, o Måneskin inovou também lá. "O relacionamento entre a Itália e o rock nunca foi idílico, e o rock jamais se tornou grande sucesso no país", diz Andrei. "A vitória do Måneskin foi inesperada porque eles são uma verdadeira banda de rock."

O olhar de indiferença andrógina de Torchio é típico do estilo da banda
O olhar de indiferença andrógina de Torchio é típico do estilo da banda - Valerio Mezzanotti/The New York Times

Em uma entrevista, David rejeitou vigorosamente as acusações de que foi apanhado pela câmera usando drogas no Eurovision e se queixou de que essa especulação havia reduzido o impacto da vitória da banda. Ele afirmou que as acusações eram tanto infantis quanto maliciosas. E não deram fruto, porque os exames de drogas foram negativos. “Sabemos que estamos limpos. Não temos coisa alguma a esconder”, ele disse.

Deixando de lado as acusações, algumas coisas com certeza mudaram depois da vitória no Eurovision. Mercadorias associadas ao álbum mais recente da banda tiveram seus estoques esgotados em poucos minutos. Uma das canções do Måneskin foi usada em um comercial da Pepsi-Cola.

E no começo do mês, o grupo encerrou o contrato com Marta Donà, que era empresária deles desde 2017. Alguns jornais especularam que uma agência de talentos italiana talvez seja insuficiente para administrar as aspirações internacionais do Måneskin, e o nome de Simon Cowell, o cérebro por trás de The X Factor, foi mencionado como possível sucessor. O grupo ainda não anunciou quem vai substituir Donà.

Agnelli, o jurado do X Factor italiano, ofereceu conselhos ao quarteto sobre como aproveitar seu ímpeto atual: fazer o máximo possível de turnês, acumular experiência nos palcos, mas continuar sendo quem eles sempre foram. "É seu ponto mais forte."

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci.

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