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Estilo
Descrição de chapéu The New York Times

Marie Kondo volta para arrumar a bagunça da pandemia: 'Momento ideal'

Guru da arrumação diz que a experiência traz alegria, não os objetos

Os últimos dois anos mudaram a forma como vivemos em nossas casas. Estamos prontos para retornar a uma existência espartana, ou é nossos novos objetos que despertam alegria agora? Steffi Walthall/The New York Times

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The New York Times

Marie Kondo tem grandes planos para que nós arrumemos não só nossas casas mas nossas vidas inteiras. Mas será que um país que acaba de passar dois anos em uma onda de compras incansável, que encheu casas de bicicletas Peloton, "fire pits" e máquinas de fazer pão, está no clima para aceitar o estilo minimalista de arrumação doméstica que Kondo defende?

A guru japonesa da vida enxuta certamente acredita que sim. Ela vê o momento que vivemos como uma oportunidade para expandir seu alcance aos escritórios e até mesmo às rotinas pessoais de higiene. No terceiro trimestre de 2021, em "Sparking Joy With Marie Kondo", uma minissérie em três episódios exibida pela Netflix, os espectadores acompanharam Kondo enquanto ela persuadia donos de pequenas empresas a adotar o preceito central de seu método de arrumação: mantenha as coisas que lhe trazem alegria e jogue o resto fora.

Ela agora está se preparando para o lançamento, em novembro, de seu mais recente livro, "Marie Kondo’s Kurashi at Home", que mostra aos leitores como aplicar seus métodos a cada aspecto de suas vidas. Entre suas sugestões está praticar o "joy-spotting", um exercício que poderíamos traduzir como "pare um pouco para sentir o perfume das flores", que ela recomenda que seus quatro milhões de seguidores no Instagram adotem.

"Quando voltamos ao escritório ou desenvolvemos novas maneiras de trabalhar de modo híbrido, vivemos o momento ideal para refletir sobre aquilo que desperta a nossa alegria", me disse Kondo em uma entrevista por email.

Kondo ingressou na consciência dos Estados Unidos com "A Mágica da Arrumação", de 2014, um livro de imenso sucesso que transformou seu sobrenome em sinônimo de ordem: "faça um Kondo em sua gaveta de meias e coloque sua vida em ordem". Em 2016, ela lançou "Isso Me Traz Alegria", um guia ilustrado sobre como dobrar camisas e encontrar seu "foco de poder" pessoal. Kondo proclamou que os americanos já tinham chegado a um pico de suas posses pessoais.

Mas talvez tenha chegado a essa conclusão cedo demais. Os dois últimos anos demonstraram que não estamos nem perto do pico da montanha do consumismo. Quando a pandemia chegou, os americanos imediatamente transformaram seu período de prolongado isolamento em uma oportunidade de comprar coisas para suas casas. Nem mesmo as interrupções na cadeia mundial de suprimentos, a alta nos preços da gasolina e a inflação foram capazes de desacelerar nossa propensão a gastar. Passamos a encarar as demoras nas entregas e a escassez de suprimentos como desafios que transformaram a experiência do consumo em maratona. Uma espera de oito meses por um sofá? Sem problema. Os gastos com reformas residenciais chegaram a seu valor mais alto em quatro anos em 2022, de acordo com uma pesquisa do site Houzz.

No ápice da pandemia, quando a vida social e as atividades eram limitadas, compras "eram provavelmente uma das poucas coisas que muita gente podia fazer e que pareciam agradáveis", disse Travis Osborne, diretor do Anxiety Center, na Evidence Based Treatment Centers, de Seattle. "Compras e consumo são comportamentos que se reforçam. No nível cerebral, produtos neuroquímicos relacionados a se sentir bem são liberados quando compramos coisas".

E por isso partimos para as compras com o maior entusiasmo. Mas agora que estamos retornando a uma vida vivida fora de nossas casas, Kondo está aqui para nos lembrar de que os Instant Pots (uma espécie de panela multiuso) e piscinas infláveis que adquirimos podem não nos trazer muita alegra, se é que um dia trouxeram.

"As pessoas podem ter acumulado objetos adicionais durante a pandemia que lhes propiciaram alegria naquele momento", ela disse. Mas agora, "eu recomendo que as pessoas escolham os objetos que lhes trazem alegria e agradeçam aos objetos que já não as servem, e os doem a outros".

É o sinal para o grande expurgo americano pós-pandemia. No mês passado, Martha Stewart realizou uma venda de dois dias de duração em sua fazenda em Bedford, Connecticut, onde vendeu muitos objetos pessoais –móveis de jardim, cestas de vime, decorações de Natal e, de acordo com um repórter do site Curbed, folhas de concreto decorativas oferecidas a US$ 40 (R$ 205). Os ingressos para o evento tinham preço inicial de US$ 250 (mais de R$ 1.200). Os proprietários de residências que precisam de dicas sobre como guardar todas as coisas que compraram durante a pandemia agora podem recorrer à segunda temporada de "Get Organized with the Home Edit", lançado pela Netflix em 1º de abril, no qual a espevitada dupla de especialistas em arrumação caseira Clea Shearer e Joanna Teplin reordena despensas superlotadas para criar imagens dignas do Instagram.

Na Junkluggers, em Nova York, os negócios cresceram em 30% com relação a este período no ano passado, porque os nova-iorquinos estão chamando a empresa para remover equipamentos de exercício, mesas para trabalhar em pé e móveis de baixa qualidade comprados para cobrir espaços deixados vazios por conta dos meses de espera por itens mais caros. Josh Cohen, dono da franquia Junkluggers, que raramente se deixa abalar pelas coisas que as pessoas pedem que ele transporte, ficou chocado pelo fervor com que os consumidores estavam tentando se livrar de suas bicicletas de exercício Peloton. "Posso afirmar que nada mais me surpreende, mas isso foi uma coisa que me surpreendeu", ele disse. "Estamos falando de uma bicicleta de exercício de US$ 1,5 mil (R$ 7.700)".

Por mais que gostemos de fazer compras, talvez gostemos igualmente de jogar coisas fora. O que apreciamos não é tanto uma casa enxuta, mas o ato de jogar fora aquilo de que não precisamos, disse Tal Ben-Shahar, diretor do novo programa de mestrado sobre estudos da felicidade na Centenary University de Nova Jersey, que aponta que as pessoas derivam felicidade de experiências, e não de objetos. "Quando a coisa passou, quando ela acabou, nos adaptamos a isso muito rapidamente", ele disse. "Mas foi o processo que gerou a alegria, não o resultado".

Fazer compras nos dá novas coisas para descartar, e remover os excessos também nos oferece novas oportunidades de consumo –como Kondo sabe muito bem. Ela vende uma linha de cestas, caixas e receptáculos na Cointainer Store, com opções como uma caixinha de joias com o tema "serenidade" por US$ 14,99 (R$ 77) ou uma caixa para arquivos que oferece "calma" por US$ 49,99 (R$ 250). Em sua página no Instagram, ela promove suas parcerias, entre as quais uma com o site Shutterfly, e encoraja seus seguidores a, por exemplo, se envolverem em um cobertor da marca Marie Kondo estampado com uma foto de suas famílias.

Os interessados em adotar um estilo de vida mais enxuto também podem comprar produtos diretamente do site de Kondo. O Indigo Shibori Dye Kit, de US$ 55 (R$ 280), por exemplo, é comercializado como uma oportunidade de encontrar alegria. O que pode propiciar mais alegria do que aprender um método tradicional de tingir tecidos? Mas o produto serve a um segundo propósito: quando terminar de tingir todas aquelas toalhas velhas de chá, e elas tiverem deixado de trazer alegria, você terá novos produtos para descartar.​

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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