Estilo
Descrição de chapéu The New York Times

Lena Dunham diz que coleção de roupas plus size reflete sua experiência

Atriz e diretora diz que dedicou muito tempo ao ajuste fino das peças

Lena Dunham Devin Oktar Yalkin/The New York Times

Vanessa Friedman
The New York Times

Nos cerca de dez anos transcorridos desde que ela se tornou famosa, Lena Dunham, 34, foi muitas coisas. Foi menina-prodígio, roteirizando, dirigindo e interpretando tanto filmes quanto séries de televisão; foi a voz de sua geração; foi tutelada por David Remnick, ganhadora do Globo de Ouro e criticada como representante do privilégio branco liberal.

Foi capa da revista Vogue, editora de boletins noticiosos e alvo de ataques na mídia social. Também se tornou responsável por um selo editorial na editora Random House, sobreviveu à endometriose e a uma histerectomia, e sempre revelou mais do que deveria sobre si mesma.

Ela já foi tantas coisas, de fato (difícil acreditar que em apenas dez anos), que é quase extraordinário perceber que ainda não havia se dedicado à atividade paralela que atrai cada vez mais figuras do mundo dos famosos: o design de moda.

É claro que isso talvez aconteça porque, entre as tantas coisas que ela foi um dia, esta foi alvo de zombarias, muitas vezes injustas, por suas escolhas de guarda-roupa em eventos de tapete vermelho, que fizeram dela tema de memes e objeto da crueldade da polícia de estilo.

Dunham disse recentemente que “não sou uma celebridade que algum dia tenha sido convidada a representar um produto. Por muitos motivos, não sou uma pessoa que alguém deseje ver representando um produto”. No entanto, ela ama roupas.

E no processo de usar muitas e muitas roupas, e de “errar ligeiramente” na escolha dessas roupas e ser criticada por isso, Dunham descobriu uma lacuna no mercado. E, sendo quem é, decidiu preenchê-la.

Ela acaba de lançar a linha 11 Honoré x Lena Dunham, uma colaboração entre a atriz e o site de varejo eletrônico que vende moda para as mulheres GG, e que levou muitos estilistas a, enfim, começarem a oferecer produtos em tamanhos superiores ao 44.

Essa é a primeira parceria entre a 11 Honoré e uma celebridade, e se trata de uma coleção editada com cuidado e consistindo de apenas cinco itens, porque, disse Dunham, “abri mão completamente da ideia de ser uma empresária ou uma pessoa com algo a dizer a todos”. Ela estava em Londres, trabalhando em um filme, e conversamos via Zoom.

“No momento, a única coisa que estou fazendo é falar de minhas experiências pessoais”, diz Dunham. “E essa linha de roupas é uma resposta direta à minha experiência."

E lá vem Lena 8.0 (ou 15.0?): uma defensora humilde mas entusiástica da neutralidade quanto ao corpo e uma nova celebridade estilista, em paz consigo mesma e pronta a emergir no mundo uma vez mais.

Não só porque ela tem outro filme a caminho (além da produção em que está trabalhando em Londres), chamado “Sharp Stick”, escrito durante o verão da pandemia como “uma meditação sobre a complexidade do, uhn, desejo sexual feminino, e como ele se entrecruza com o trauma”.

Mas também porque, além de desenhar a linha de roupas (em parceria com Danielle Williams Elke, da 11 Honoré), ela também servirá como modelo e como rosto da coleção. Sim, lá está Dunham se expondo ao planeta uma vez mais. E ela sabe as consequências que isso pode trazer.

POSITIVIDADE SOBRE O CORPO...MAIS OU MENOS

Depois de anos de um relacionamento complicado, e muito público, com seu corpo, e de disparadas de peso causadas por problemas médicos e pessoais, Dunham enfim chegou a um acordo com o que ela é.

Em março, ela contraiu o coronavírus. Todo mundo sabe disso, porque ela mais tarde publicou “My Covid Story” no Instagram, onde tem 2,8 milhões de seguidores. Ainda que tenha se recuperado, a doença afetou sua glândula pituitária e causou uma deficiência adrenal parcial, diz Dunham, que ela está combatendo com o uso de anabolizantes.

“Mas não do tipo bacana que deixa a pessoa musculosa", afirma. "Do tipo que faz o rosto inchar. Estou tentando lidar com isso. Tentando ser positiva quanto ao meu queixo. Consigo encarar qualquer coisa, mas queixo triplo é um paradeiro desconfortável."

Mas ainda assim ela faz questão de agradecer aos médicos e de falar que sabe que é uma pessoa privilegiada por ter acesso a tratamentos privados de saúde, e por poder continuar trabalhando.
“Não quer dizer que eu não tenha sentido muito ódio do corpo durante o lockdown", diz.

Dunham não é fã de boa parte da terminologia moderna, com expressões como “plus size”, “curvilínea” ou “positividade quanto ao corpo”. “O que é complicado no movimento da positividade do corpo”, diz, “é que ele se aplica àqueles poucos privilegiados que têm algo sobre o que as pessoas querem se sentir positivas".

"Queremos corpos curvilíneos que se pareçam com o de Kim Kardashian ligeiramente aumentado. Queremos bundas grandes e gostosas, peitos grandes e gostosos, mas zero celulite, e queremos rostos que poderiam facilmente ser o de uma mulher magra."

“Tenho um estômago grande. Sempre tive. É onde ganho peso –especialmente depois de passar por uma menopausa precoce. Tenho uma pança, como se fosse um velho. E não é esse o lugar em que as pessoas querem ver carne. Se eu postasse uma foto nua sensual no Instagram, as pessoas não ficariam maravilhadas com o meu lindo derrière."

Ao dizer isso, ela não parecia zangada ou deprimida, ou que estivesse se posicionando contra o sistema. Dunham parecia resignada, como se estivesse rindo consigo mesma. Ela estava em uma sala de paredes muito brancas, onde havia uma lareira visível, e usava uma blusa de lã e muitos anéis nos dedos.

Cabelos longos, franja curta. No meio da conversa, ela começou de repente a mastigar um sanduíche, o que a fez rir. “Parece apropriado para essa entrevista que eu coma uma grande ‘baguette’”, diz

“VAMOS COLOCAR UMA MELANCIA NA SUA SAIA, GATONA!"

Dunham já tinha pensado em ingressar no ramo da moda, muito antes que a pandemia começasse. Ela inicialmente considerou criar uma coleção completa, com tamanhos do 34 ao 54, porque... bem, ela não gosta de fazer as coisas pela metade.

E além disso, Dunham é inteligente o bastante, e pesquisa o bastante, para saber que muitas mulheres estilistas conquistaram espaço no mercado porque sabiam o que faltava, como aconteceu nos casos de Coco Chanel e Donna Karan, e até no das irmãs Olsen. Mas ela acrescentou que “havia muita coisa que eu não sabia sobre infraestrutura”.

Em 2019, ela foi apresentada a Patrick Herning, dono e fundador da 11 Honoré, cujos produtos ela comprava frequentemente. Os dois se aproximaram, como defensores das figuras mais cheinhas, e começaram a desenvolver um plano.

Herning tinha acabado de lançar uma linha com grifes pessoais, e tinha a cadeia de suprimento e a equipe de design necessários a colocar em prática as ideias de Dunham. Ela só precisava sugeri-las. "Eu disse a ela que, sendo uma atriz e uma contadora de histórias, aquilo era algo que devíamos fazer, e que mais tarde poderíamos realizar uma continuação –uma temporada dois."

O ponto de partida de Dunham: “O que amo de verdade na moda é um certo nível de inteligência irônica, de senso de diversão, que as pessoas não acham que as mulheres maiores desejem ou compreendam. Ninguém acha que as mulheres cheinhas têm senso de humor, ou, se acha, a ideia é ‘vamos colocar uma melancia na sua saia, garotona!’ Sem sofisticação ou sutileza alguma."

“As pessoas julgam demais os corpos maiores, e acho que um desses julgamentos é o de que uma mulher maior é uma mulher mais estúpida”, prossegue. "Elas comem demais, e não sabem como parar. As mulheres magras precisam ter discernimento, e saber usar sua força de vontade. As mulheres maiores necessariamente devem ter limitações em sua compreensão do mundo, e sempre fazem coisas ruins para elas."

"A quantidade de pessoas que deixaram mensagens em minha página dizendo que eu promovo a obesidade, ou que meu comportamento vai me levar à morte, é impressionante. Pessoas que me perguntam se sou idiota, que me questionam por eu estar fazendo isso."

Para ela, moda é caráter. Dunham está namorando, com um homem que conheceu em Londres –“faz alguns meses”, diz. Ele é músico, ela acrescenta, cresceu em Londres e no Peru, e “é a melhor pessoa que já conheci”.

Quando usa a jaqueta de couro ou o chapéu do namorado, Dunham diz que “quero me espalhar como um homem”. Ela considera os estilistas que ama –a exemplo de Rachel Comey, Giambattista Valli e Christopher Kane– como artistas, e por isso, quando usa seus modelos no tapete vermelho, acredita estar celebrando sua arte.

“Por isso jamais entendi porque alguém desfilaria no tapete vermelho em um vestido longo da cor da pele”, diz. Dunham, é bom acrescentar, jamais desfilou pelo tapete vermelho em um vestido longo e da cor da pele.

Ela usou vestidinhos pretos básicos em diversas ocasiões, mas é mais famosa por usar o tipo de roupa que parece ser o oposto dessa peça básica. Como o minivestido cor de rosa, com luvas de borracha posicionadas estrategicamente na área do busto e a palavra “rubberist” bordada mais abaixo, que ela usou no Met Gala em 2019, cuja tema era “camp”. O modelo a fazia parecer uma mistura de fada das flores e obra de Marcel Duchamp.

De qualquer forma, ela prossegue, “a única maneira que encontrei de tornar o tapete vermelho interessante, ou ao menos significativo de alguma maneira, é ser eu mesma e não me preocupar se as pessoas que assistem vão me escolher como a mais elegante ou a menos elegante, porque pelo menos terei dito alguma coisa sobre ser mulher, e ter este corpo –algo que só eu poderia dizer."

"E talvez alguma menina que esteja assistindo em casa e pensando sobre que vestido usar no baile de formatura, e que ache que seu corpo não é grande coisa, me veja usando um vestido maluco como aquele e pense consigo mesma que ‘se aquela garota pode ir ao Emmy vestida daquele jeito, posso ir ao meu baile vestida como quiser’”.

O QUE OS ESTILISTAS NÃO COMPREENDEM

As roupas que Dunham ajudou a criar para a 11 Honoré não são exatamente malucas –com certeza não mudarão o mundo—, mas têm alguma coisa de especial. Ela as descreve como roupas para passar o dia passeando no SoHo e fazendo todo tipo de coisa.

Foram inspiradas, diz Dunham, por mulheres da década de 1990 de que ela se lembra, como Cindy Sherman e Kiki Smith, que andavam pelo bairro com camisas de homem, saias Yohji Yamamoto e cabelos despenteados, porque suas mentes muito ativas estavam ocupadas com outros assuntos. É uma descrição que pode açular aqueles que acusam Dunham de elitismo, mas que não deixa de ser acurada.

A mãe de Dunham, a artista e fotógrafa Laurie Simmons, escolheu o nome de cada look com base nos lugares que a família frequentava no SoHo, como a loja original da Dean e DeLuca, na Broadway (que já fechou), e serve de nome a um conjunto azul marinho risca de giz, com bainhas recortadas tanto no blazer (Dean) quanto na saia (DeLuca).

O pai de Dunham, o pintor Carroll Dunham, criou a estampa para o vestido floral geométrico com bainha assimétrica que recebeu o nome de Madderlake, uma floricultura que existia na Broadway. As peças da coleção terão preços de entre US$ 98 (cerca de R$ 551 para uma blusa sem mangas de gola alta) e US$ 298 (R$ 1.700 pelo blazer), e tamanhos do 46 ao 60. (Dunham mesma se “acomodou a um tamanho 48 ou 50”.)

Ela afirma que dedicou muito tempo ao ajuste fino das peças porque uma das coisas que a maioria dos estilistas não compreende é que fazer roupas para corpos maiores não quer dizer apenas adicionar mais tecido ou criar uma cintura com curvatura mais ampla.

É preciso estilizar as peças de modo diferente para acomodar as curvas do estômago e do traseiro, e os braços que incham no calor. Dunham queria muito incluir uma minissaia, porque diz ter procurado demais por uma, mas quase todas ficavam altas demais na traseira, o que as impede de usá-las porque “eu estaria basicamente exibindo o que minha mãe chama de meu ‘pupik’” [um termo em ídiche usado vulgarmente em referência ao ânus].

A linha não inclui modelos para usar em casa, apesar de toda a conversa sobre a pandemia e as mudanças que ela trará em nossa forma de vestir. “Se uma moça magra usa calças de moletom, é bonitinho –tipo ‘que dia difícil ela está tendo’”, explica Dunham.

“Mas para uma menina mais gordinha, o que esse tipo de roupa diz é ‘você escolheu desistir’”. Afinal, o objetivo do exercício todo é exatamente o contrário de desistir e aceitar o que o mundo tem a oferecer.

Rachel Comey, por exemplo, está interessada em ver a coleção. “A voz de Lena é valiosa”, escreveu em um email. Herning diz que, se a primeira coleção vender bem, haverá outras, provavelmente com mais peças.

Dunham diz achar que pode ser divertido criar roupas de inverno, pijamas e roupas de banho. Mas primeiro, o lançamento. Embora tenha passado os últimos meses em relativo silêncio (ao menos se considerarmos sua média), ela continua a atrair a atenção daqueles que consideram sua disposição de se expor física e emocionalmente –de falar sobre sua dor e seus problemas– comovente, ou irritante.

Quando ela postou uma foto que a mostrava em um conjunto que incluía uma minissaia, como uma espécie de aperitivo da coleção, a maioria dos comentários foram elogiosos, mas ainda assim houve pessoas que a ofenderam por causa de seu peso. “É bem interessante perceber como certas pessoas se ofendem simplesmente porque você se veste como você mesma”, diz Dunham.

“A reação não é dizer que elas não gostam do vestido, mas sim questionar minha ousadia por usar aquela roupa. E é fascinante que muitas das críticas venham de outras mulheres que têm corpos como o meu. Não vêm de homens que vivem na academia. Vêm de outras mulheres que foram doutrinadas e que não se conformam por eu não ter recebido a circular que ordena que todas nós usemos modeladores."

Dunham se recusa a usar modeladores –ela diz que não costuma usar nem sutiãs, regularmente–, e nenhuma das roupas que criou os requer. Quando ela usou uma cinta em um evento, Glenn Close a ajudou a cortá-la por sob sua roupa e removê-la, no banheiro.

“Ela foi um anjo, e tinha uma tesourinha de costura”, diz Dunham. (Não se sabe por que Close teria levado tesouras a um evento de gala, mas... sempre alerta!) “Ela também me deu o melhor conselho. Eu estava chorando, com meus saltos altos, e ela me aconselhou a comprar botas de salto plataforma e usá-las. E foi o que fiz, e ainda sigo o conselho. Por isso, obrigado, Glenn Close."

Tradução de Paulo Migliacci

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