Diversão

Blogueiros da periferia falam de gastronomia a finanças e conquistam seguidores

De modo simples e com pés no chão, jovens abordam e criam conteúdo de diversos temas

Adélia Gastronomia Periférica: Os blogueiros Adélia Rodrigues e Edson Leite
Adélia Gastronomia Periférica: Os blogueiros Adélia Rodrigues e Edson Leite - Ronny Santos/Folhapress,
São Paulo

A falta de representatividade da periferia na mídia tem sido um combustível para que a “galera da quebrada” crie canais e perfis nas redes sociais para falar de um universo pouco explorado até agora.

Temas como relacionamentos, finanças, gastronomia e veganismo têm sido abordados por influenciadores e influenciadoras da periferia com linguagem acessível e em formato de experiência pessoal, o que os aproxima ainda mais do público-alvo: os moradores das quebradas.

Imagina falar de alimentação saudável para uma parcela da população que vive muitas vezes com a conta bancária no limite, trabalha por horas a fio e ainda precisa criar filhos, entre tantas outras obrigações que mantêm essas pessoas num estado quase permanente de sobrevivência? Parece difícil, mas os criadores do projeto Gastronomia Periférica conseguiram.

Com 10 mil seguidores no Instagram e 11 mil no Facebook, o perfil da dupla formada pelo chef de cozinha Edson Leitte, do Jardim São Luís (zona sul da capital), e pela psicóloga Adélia Rodrigues, do Jardim Peri Peri (na zona oeste), traz informação sobre os benefícios da alimentação saudável a partir de ingredientes comuns nas casas de qualquer família e também do reaproveitamento.

“As pessoas curtem muito perceber que dá para comer com ideias boas, e o quanto para nós a periferia é sinônimo de força e poder. Tudo que nosso povo vê sobre a periferia na TV é violento ou caricato”, critica Adélia. “Notamos que as pessoas estavam cansadas de ver histórias que não são delas. Todo mundo quer narrativas que são suas para entender os caminhos que elas podem seguir e se inspirar.”

​E se falar de comida exigiu dos idealizadores do Gastronomia Periférica um jogo de cintura para sair do caricato e do violento, os criadores do perfil Vegano Periférico precisaram fazer verdadeira imersão no universo ainda elitizado do veganismo. Tudo para difundir a visão da quebrada sobre o movimento que rejeita todo tipo de produto de origem animal ou que tenham sido testado em bichos.

Os irmãos gêmeos Leonardo dos Santos e Eduardo dos Santos, de 23 anos, moradores de Campo Grande, na periferia de Campinas (93 Km de SP), já somam 210 mil seguidores no Instagram, onde dão dicas para ser vegano sem grana. A ideia surgiu depois que Eduardo visitou pela primeira vez um estabelecimento vegano, onde se deparou com um público que vestia camisetas com frases em inglês.

“Fui pesquisar o que significavam aquelas palavras nas camisetas da rapaziada e vi que as frases eram fantásticas, impactantes. Se estivessem em português, as pessoas provavelmente refletiriam sobre o assunto”, diz. “Daquele jeito a mensagem nunca chegaria na base, não atingiria quem precisa ser atingido. Percebi que eles estavam falando com eles mesmos”, conta Eduardo.

Foi somente dois anos depois, quando o irmão Leonardo também se tornou vegano, que surgiu a ideia de criar a página para mostrar que é possível, sim, ser pobre e adepto do veganismo. “As pessoas precisam abordar temas importantes de forma mais simples, para que a maior parte da população possa entender e consiga se mobilizar. Se elas leem uma coisa complicada, já criam uma aversão”, diz Leonardo, que além de influenciador trabalha como chapeiro em uma lanchonete vegana.

Combate ao racismo

A influenciadora Samantha Cristina, 32, moradora da Vila Matilde (zona leste de SP), criou o perfil Estaremos Lá após um episódio de racismo que sofreu com amigas em um shopping. E para falar com seus 28 mil seguidores no Instagram ela diz usar uma ferramenta poderosa: o humor.

“Já choramos demais e estamos cansadas de viver o racismo todos os dias. Então decidimos fazer o canal com humor e usamos a linguagem mais didática possível, porque acreditamos que por meio do diálogo as coisas podem melhorar. Alertamos as pessoas brancas sobre os erros [que cometem] para que aconteça uma mudança social”, diz.

“E acho bom que as pessoas gostem mesmo. Não estamos gastando todo nosso 3G para ninguém nos ver”, brinca.

Estudante do RJ dá dicas de finanças

A identificação com o público é um ponto importante que tem garantido o sucesso dos influenciadores da periferia: para ser ouvido não basta ser estudioso da causa, é preciso ser a própria causa.

É o caso da estudante de administração Nathalia Rodrigues, 21 anos, de Nova Iguaçu (RJ), que se apaixonou por matemática financeira na universidade e decidiu criar o projeto Finanças com a Nath, onde ensina tudo o que aprende de forma descomplicada. Só no Instagram são quase 10 mil seguidores, entre pessoas que buscam dicas para sair do vermelho até aqueles que procuram informações sobre FGTS.

“Eu via canais falando sobre educação financeira, mas de um jeito que não atende ao público de baixa renda, falando de fórmulas mágicas para ficar rico. Comecei a ajudar meu pai a organizar as contas e amei fazer isso. Foi um dos motivos de criar o canal: ajudar mais gente.”

Blogueira de Baixa Renda faz sucesso ao expor faxina e boletos

O sofá da casa é de terceira mão. Uma vizinha, que ganhou o móvel da patroa, estava prestes a jogá-lo no lixo quando Nathaly Dias, 26 anos, o resgatou. Antes disso, ela e o namorado, Guilherme Brainer, 30, não tinham um único móvel na sala da casa alugada em que moram no Morro do Banco, no Itanhangá, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Divertida, despojada, órfã de pai, criada pela mãe, Nathaly é a Blogueira de Baixa Renda no Instagram e YouTube. O que começou sem pretensão há um ano virou o sustento da casa e lhe deu nova profissão. “Criadora de conteúdo digital”, diz, rechaçando o termo influenciadora digital. “Tenho ranço dessa palavra, influenciadora. Você não escolhe ser isso. E não basta você querer, né? Isso é uma coisa que acontece de uma pessoa achar, de fato, que você está influenciando ela.”

Assim como blogueiras famosas que ostentam luxo para milhões de pessoas, Nathaly divide seu cotidiano com seus seguidores, mas sem presentes caros ou ostentação. Isso inclui interromper um vídeo após ouvir um tiro na calada da noite.

Com 95 mil seguidores no Instagram e mais de 130 mil no YouTube, a Blogueira de Baixa Renda compartilha dicas domésticas, prepara o café da manhã e escolhe o que vestir no guarda-roupa improvisado em caixas de papelão ao pé da cama. Um dos seus primeiros vídeos de sucesso foi quando se chocou com um pano de prato vendido por R$ 50 em uma loja de shopping.

“Se tem uma coisa de que o baixa renda não pode reclamar é de falta de emoção na vida. Só a gente sabe a alegria de correr atravessando entre os carros para pegar ônibus lotado às 7 da manhã. A satisfação de colocar um danone nas compras.”

Com a fama ela descobriu que muita gente desconhece a realidade da periferia. “Começaram a me falar que não sabiam que a favela tinha casinhas tão bonitinhas. Pensei, ‘nossa, as pessoas acham que favela é o que? Só barraco?’”

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