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Tony Goes

Danuza Leão não merece ser cancelada postumamente por uma coluna infeliz

Escritora vem sendo atacada por texto elitista publicado há quase 10 anos

A escritora e jornalista Danuza Leão - Adi Leite-nov.1991/Folhapress
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Morta nesta quarta (22), aos 88, Danuza Leão levou uma vida mirabolante. Antes dos 20 anos de idade, foi para a Europa e se tornou a primeira modelo brasileira a fazer sucesso no exterior. Depois disso, passou por várias encarnações profissionais: foi atriz de cinema, jurada de programa de auditório, diretora de boates cariocas e, por fim, escritora, roteirista e colunista de vários jornais, inclusive da Folha.

Publicou 10 livros, entre eles os best-sellers "Na Sala com Danuza", um manual de etiqueta repleto de toques autobiográficos, e uma autobiografia propriamente dita, "Quase Tudo". Sua verve e sua capacidade de observação estão sendo justamente celebradas, agora que ela se foi. Várias de suas frases merecem ser emolduradas e penduradas na parede, ao lado das de Oscar Wilde.

No entanto, para vários internautas, tudo o que Danuza fez na vida se resume a uma coluna infeliz, "Ser Especial", publicada pela Folha em 25 de novembro de 2012. Um trecho do texto foi replicado à exaustão nas redes sociais, condenando a autora ao cancelamento eterno.

"Ir a Nova York ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?", escreveu ela. "Enfrentar 12 horas de avião para chegar a Paris, entrar nas perfumarias que dão 40% de desconto, com vendedoras falando português e onde você só encontra brasileiros —não é melhor ficar por aqui mesmo?"

A matéria completa revela uma certa melancolia de Danuza. Ela soa cansada, depois de ter feito quase tudo que alguém pode fazer na vida, e conclui que não há programa melhor do que "trancar-se em casa com um livro, uma enorme caixa de chocolates "sem medo de engordar –, o ar-condicionado ligado, a televisão desligada, e sozinha".

Mas não dá para passar pano: Danuza também está sendo arrogante, elitista e nada democrática. Houve outras ocasiões em que ela foi justamente o contrário, mas qual mente brilhante que não é cheia de contradições?

A crônica causou um considerável bafafá já naquela época, e a cronista pediu desculpas na semana seguinte. Este é o final de "Coisas em Geral", publicada em 2 de dezembro de 2012: "Existem dois tipos de pessoa: os que vivem para seguir o que está na moda em matéria de viagens, estilo, restaurantes, hotéis, etc., enquanto outros preferem viver na contramão. Eu pertenço ao segundo grupo: não gosto de multidões, não vou a shows, não vou a festas, não vou a restaurantes da moda e não viajo na alta estação, prefiro ficar em casa lendo um livro; falei sobre o porteiro como poderia ter falado sobre qualquer pessoa que faz parte dessa multidão que passa a vida indo atrás do que ouviu dizer que está 'in', o que para mim é apenas impossível. Lamento, foi um exemplo infeliz".

Esta retratação pública não interessa a quem não tem familiaridade com Danuza, só lê manchetes e só quer se fingir de politicamente correto. É preciso ignorar a segunda coluna, para que a narrativa maniqueísta fique em pé.

O "porteirogate" não foi a única polêmica em que Danuza se meteu em seus últimos anos. Ela também foi bastante crítica à PEC das empregadas domésticas que garantiu direitos trabalhistas básicos a milhões de mulheres brasileiras. Mais tarde, já afastada da Folha, defendeu que algum grau de assédio masculino às mulheres era até mesmo desejável. Foi renegada até mesmo pelos netos João e Rita Wainer.

Importante ressaltar que a demissão de Danuza não se deveu a nenhum desses textos. Como ela mesma declarou em entrevista à revista Veja, sempre teve na Folha a liberdade absoluta para escrever o que quisesse. Acabou sendo cortada porque seu salário alto não condizia mais com a realidade vivida pelo jornal. Ah, bons tempos em que colunista ganhava bem...

O fato é que não há quem não cometa erros, ainda mais escrevendo com frequência em um veículo de comunicação. Como acontece com muita gente, Danuza Leão se afastou do espírito do tempo no final de sua vida. Mesmo sendo uma mulher vanguardista, que inovou no comportamento e nas ideias, manteve uma parte de seu pensamento atrelado ao passado.

Mas nada disso diminui sua trajetória e sua obra. O estilo delicioso de Danuza está sendo redescoberto por muita gente, e não duvido que no futuro ela seja lembrada como uma privilegiada testemunha ocular da história.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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