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Minha amiga Danuza Leão

O relato de quem conviveu (e se divertiu muito) com a jornalista por mais de 25 anos

Danuza Leão aparece sentada numa poltrona vintage, no meio da sala de seu apartamento; ao fundo, uma mesa redonda com duas cadeiras de palhinha, uma estante com livros e uma TV
Danuza Leão posa em seu apartamento, em Ipanema, um de seus vários endereços no Rio - Rafael Andrade/Folhapress
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Isabel De Luca

É jornalista, roteirista e produtora

Foi-se a Danuza. Que foi, antes de tudo e desde sempre, uma mulher de extremos: extremamente inteligente, extremamente bonita, extremamente livre –uma combinação poderosa que ela soube usar como ninguém. Tive a sorte, a honra e sobretudo o grande prazer de conviver intensamente com essa mulher extraordinária que me ensinou "quase tudo", para usar o título de sua maravilhosa autobiografia, em uma fase fundamental da minha formação como adulta.

Quando nos conhecemos, Danuza tinha acabado de se reinventar mais uma vez: depois de perder o filho Samuca, a irmã Nara e por consequência desse injusto acúmulo de tragédias o chão, ela ressurgiu com o best-seller "Na sala com Danuza", cuja verve lhe rendeu um convite para escrever crônicas no "Jornal do Brasil". Dali para assumir a coluna social do "Caderno B" no lugar de Zózimo foi um pulo. Eu era uma pós-adolescente aspirante a jornalista ávida para fazer qualquer coisa, desde que não fosse coluna social. Mas alguém na redação viu em mim a dupla perfeita para a Danuza. Tentei resistir; ela me ganhou com um olhar que sei (ou tento) imitar até hoje. E lá fomos nós. Ainda bem.

Danuza gostava muito de trabalhar. Adorava jornalistas, talvez por causa da eterna admiração por Samuel (Wainer, pai dos seus três filhos), e assumiu o ofício disposta a ganhar a guerra – se bem que Danuza estava sempre disposta a ganhar qualquer guerra. Encontrar uma voz tão ímpar como colunista foi um dos seus grandes orgulhos. Ela inventou bordões, trouxe rostos anônimos para dividir as fotos com
figurões da sociedade, conseguiu imprimir a sua entonação ma-ra-vi-lho-sa ao texto, lançou campanhas vitoriosas, como a que mudou o nome do aeroporto Galeão para Tom Jobim. Lembro de Danuza eufórica no dia da cerimônia de rebatismo. Ah: ela fazia questão de usar a camiseta destinada à imprensa em todos os eventos que cobria, mesmo que fosse o baile de gala carnavalesco do Copacabana Palace.

Outra paixão era Paris. Não à toa Danuza começou a vida desfilando para o estilista Jacques Fath, época em que se envolveu com o ator Daniel Gélin – mais uma história saborosa, envolvendo altas doses de glamour e heroína, que adorava contar. Mais tarde, passou muitos anos se hospedando num hotel bem simples em Saint-Germain-des-Prés: gostava por ser barato, gostava por ser tratada como família – a madame Lêáô – e gostava por ficar ao lado de um bar bem trash que nunca fechava. Volta e meia, quando viajávamos juntas, ela telefonava para o meu quarto no meio da noite convidando para tomar um calvados. Soube recentemente que este mesmo bar era frequentado pelo escritor Julio Cortázar, que varava noites escrevendo no balcão. Acabei não contando isso para ela, que certamente me diria, só para ser do contra: "Ih, Bel, vamos precisar beber em outro lugar."

Seu charme e bom gosto se materializaram em todas as incontáveis casas que teve ao longo da vida. E Danuza estava sempre sonhando com a próxima. Quando morava num apartamento na Avenida Atlântica, ainda trabalhando no "Jornal do Brasil", se divertia ao deixar Geraldina, fiel escudeira de anos, vendo os fogos do réveillon de camarote enquanto ela percorria dezenas de festas, com o bloquinho na mão, para escrever no dia seguinte. Pouco depois, na época em que todas as casas ditas bacanas foram tomadas por sofás brancos, ela logo tratou de se mudar para um prédio gótico na Praia do Flamengo, cujos causos sabia em detalhes e adorava contar. Meses depois, me chamou para ver as novas mudanças que tinha feito no apartamento: "Enjoei de rococó: agora é tudo branco!"

Leonina generosa, era difícil sair da casa da Danuza sem uma peça de roupa incrível, com uma história mais incrível ainda, que ela tirava do armário para dar de presente. A regra era clara: "Se um dia eu me arrepender eu posso pedir de volta, tá?" Nunca pediu. Outra história: certa vez, um grande político que visitava a redação do "JB" passou na nossa salinha para dar um alô. Danuza o recebeu com festa, e bastou ele dar as costas para soltar: "Será que eu dei pra ele?" Ela imediatamente pegou o telefone e tentou tirar a teima com uma amiga francesa, que também não lembrava, mas cravou: "Conhecendo você, deve ter dado sim." Danuza – que se gabava de ter vivido um mundo depois da pílula e antes da Aids –
gargalhou muito naquela tarde.

Ontem, quando soube que Danuza estava de partida no hospital, corri para lá na vã esperança de me despedir. Falei umas besteiras ao seu ouvido e saí com a reconfortante certeza de que não vou me despedir dela nunca.

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