Tony Goes

Na guerra da audiência vespertina, Globo usa sua arma mais óbvia: novela

'O Cravo e a Rosa' devolve liderança à emissora, mas até quando?

O Cravo e a Rosa

Cena da novela "O Cravo e a Rosa" Divulgação/TVGlobo

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Desde o início da década de 1970, a Globo se acostumou a ser líder de audiência em todos os horários, sete dias da semana. Esta é uma situação totalmente anômala. Em todos os países onde existem canais de TV privados, concorrentes entre si, o normal é um deles lidere em determinada faixa, um outro em outro horário, e assim por diante. É o que acontece na Argentina ou nos Estados Unidos, por exemplo.

Ao longo deste meio século, a Globo enfrentou poucas ameaças à sua hegemonia. Houve as novelas "Pantanal", da extinta TV Manchete, que abalou os índices de "Rainha da Sucata" em 1990, e "Carrossel", do SBT, que incomodou "O Dono do Mundo" no ano seguinte. Também aconteceu a "guerra dos domingos" entre as décadas de 1990 e 2000, opondo Gugu Liberato e Fausto Silva, com a vitória final deste último.

Hoje a Globo enfrenta o crescimento das plataformas de streaming e o desinteresse das novas gerações pela programação da TV aberta. Mas também sofre com um problema à moda antiga, causado por uma concorrente direta: A Hora da Venenosa, o quadro de fofocas do Balanço Geral, exibido pela Record por volta das 14h. O sucesso da atração foi determinante para o fim do Video Show e feriu de morte seu substituto, o malfadado Se Joga.

Quando começou a pandemia, a Globo pareceu ter encontrado uma solução. O súbito interesse do público por informações sobre o novo coronavírus fez com que o Jornal Hoje ganhasse quase uma hora a mais de duração, indo ao ar das 13h25 às 15 horas. Deu certo por um tempo.

Com o avanço da vacinação e subsequente arrefecimento da pandemia, o JH passou a encher linguiça com reportagens regionais, de pouco apelo geral, e acabou mais uma vez sendo ultrapassado por A Hora da Venenosa. Foi então que a Globo decidiu lançar mão de sua arma mais certeira, mais óbvia e, de certo modo, mais preguiçosa: a reprise de uma novela de sucesso.

A escolhida para inaugurar a nova faixa foi "O Cravo e a Rosa", que marcou a estreia do autor Walcyr Carrasco na emissora. Exibida originalmente às 18h, entre 2000 e 2001, e já reprisada pelo Vale a Pena Ver de Novo e pelo canal Viva, a trama, que já era leve, sofreu alguns cortes para se adaptar ao novo horário.

O primeiro capítulo devolveu à Globo a liderança, alcançando uma média de 10,1 pontos na Grande São Paulo, com pico de 12 pontos. Mas não foi uma vitória consagradora: A Hora da Venenosa resistiu muito bem, marcando uma média de 9,4 pontos, praticamente colada à rival.

É possível que "O Cravo e a Rosa" melhore seus índices nos próximos dias. Se isto de fato acontecer, será reforçado um paradoxo: a Globo vai bem quando reprisa seus folhetins antigos, mas não consegue mais emplacar um fenômeno de audiência com suas produções inéditas.

"Um Lugar ao Sol", "Quanto Mais Vida, Melhor!" e "Nos Tempos do Imperador", os primeiros títulos 100% novos que estrearam desde o início da pandemia, vêm entregando números abaixo dos alcançados pelas reprises que os antecederam em seus respectivos horários.

Como se explica isto? Num momento tão cheio de incertezas como o atual, será que o público prefere revisitar o que já conhece? Ou as novelas "de antigamente" eram de fato melhores que as atuais?

Não há uma explicação simples. Existe um público mais velho, que cresceu e viveu assistindo a novelas da Globo; mas também existe uma garotada que não está nem aí para o gênero, preferindo séries e realities de pegação.

A teledramaturgia é o núcleo do DNA da Globo. Basta conferir as mensagens de fim de ano da emissora, em que há muito mais atores do que apresentadores ou jornalistas. Mas por quanto tempo mais este modelo vai se sustentar?

A Globo está "mudando a maneira como se relaciona com os talentos", em português claro, cortando contratos longos e salários estratosféricos. Está se aproximando da maneira como trabalham quase todas as emissoras de TV do mundo, que não têm grandes elencos fixos. Corre o risco de se aproximar também do que acontece nesses países, onde nenhum canal reina absoluto na audiência.

Neste momento, "O Cravo e a Rosa" é o remédio mais indicado. Tem custo baixo (a novela já foi paga há muito tempo), mexe com a memória afetiva de muita gente e ainda tem potencial de atrair novos espectadores para o gênero. O desafio é fazer com que esta solução caseira funcione a longo prazo.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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