Tony Goes

Em vez de processar Felipe Andreoli, Maurício Souza deveria imitar o exemplo do apresentador

Jogador salvaria sua imagem e talvez seu emprego se também evoluísse

Minas rescindiu contrato com central Maurício Souza
Minas rescindiu contrato com central Maurício Souza - Reprodução
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Muito já se falou sobre o caso do jogador de vôlei Maurício Souza, demitido do Minas Tênis Clube depois de não se retratar a contento por ter postado mensagens de cunho homofóbico nas redes sociais.

Revoltado com os danos à própria imagem e sentindo-se injustiçado por, segundo ele, apenas ter exercido sua liberdade de expressão, Maurício ameaça entrar com processos na Justiça.

Não contra o clube que rescindiu seu contrato nem contra a Fiat e a Gerdau, os patrocinadores que pressionaram por sua demissão. Mas sim contra o comentarista Carlos Casagrande e o apresentador Felipe Andreoli, que o criticaram no ar, e a TV Globo, a emissora onde ambos trabalham.

E assim, o caso promete se arrastar por mais algum tempo, gerando reações apaixonadas dos dois lados da questão. Em suas postagens em que pede desculpas a quem porventura se ofendeu, o jogador não só não demonstra nenhum arrependimento, como afirma que continua acreditando no que sempre acreditou. Ou seja, que a homossexualidade é errada e merece ser combatida.

Errado está ele. Em vez de processar Felipe Andreoli, Maurício Souza poderia se espelhar pelo exemplo do apresentador do Globo Esporte.

Na quinta passada (28), depois que Andreoli fez um comentário contundente no programa, apoiadores de Souza reviraram a internet em busca de postagens comprometedoras do jornalista. E acharam: diversas piadinhas homofóbicas, todas bem antigas. Algumas, com mais de 10 anos. Repostaram todas, acompanhadas pela hashtag #ExposedDoAndreoli.

Para alguns puristas, isto basta para comprovar a hipocrisia do apresentador. Só que ele não é mais o mesmo de uma década atrás. Andreoli inclusive veio a público dizer que não pensa mais daquele jeito, que aprendeu muito desde então e que ainda está aprendendo.

Não há nada de errado nisso, muito pelo contrário. Vivemos numa sociedade machista ao extremo, e absorvemos esses valores quase que por osmose, mesmo se não fomos educados desse jeito em casa.

Eu mesmo, que sou gay, cansei de contar piadas que alvejam bichas, pretos, gordos e portadores de deficiências. Hoje em dia penso várias vezes antes de reproduzir esse tipo de anedota. Piada boa é aquela que mira em quem está no poder, não em quem já é oprimido.

Felipe Andreoli, como muitos que convivem com homossexuais e têm o coração e a mente abertas, mudou de ideia. Maurício Souza também poderia mudar.

Sonhar não custa nada, mas acho improvável. O ex-central do Minas ainda usa um 17 em seu nome nas redes sociais. Faz parte do grupo (cada vez menor) que apoia incondicionalmente o presidente Bolsonaro, apesar do desastre da pandemia e do avanço da miséria e da inflação.

Maurício não quer para si a pecha de homofóbico —quase ninguém quer. Ele alega, em sua defesa, que não citou ninguém pelo nome. Só estava expressando sua opinião de que a homossexualidade é algo errado.

Esse conceito nasce de um outro equívoco, ainda bastante comum: o de que a homossexualidade seria uma escolha. Quem não é hétero, não o é por fraqueza moral ou por pouca força de vontade.

Pois então eu proponho um desafio para quem pensa assim. Prove que a homossexualidade é uma escolha. Vire gay ou lésbica por uma semana, e vá transar com alguém do seu próprio sexo. Depois, desvire. Quero só ver.

A sexualidade é inata, assim como a cor da pele, o tamanho do nariz e outras características físicas. Ela pode até mudar ao longo da vida, mas é um processo espontâneo, que não depende de nenhum esforço pessoal.

Por isto, a homofobia é tão grave quanto o racismo. Ambas acham "errado" alguma característica inata dos demais.

Não vou criticar Maurício Souza. Vou pedir para que ele reflita sobre o que disse e sobre o que ainda pensa. Para que converse com homossexuais (que, provavelmente, ele tem em sua própria família) e entenda a barra por que ainda passamos. Nunca é tarde para crescer, aprender e evoluir.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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