Tony Goes

Sikêra Jr. ostenta homofobia na TV às vésperas do Dia do Orgulho LGBTQIA+

Ao reagir contra campanha publicitária, apresentador ofendeu homossexuais

Apresentador Sikêra Jr., da RedeTV! - Instagram/sikerajr
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“A gente está calado, engolindo, engolindo essa raça desgraçada que quer que a gente aceite que a criança... deixe as crianças, rapaz!" Foi assim, expelindo ódio, ignorância e má-fé que Sikêra Jr. desqualificou todos os homossexuais do mundo em seu programa Alerta Nacional, exibido pela Rede TV! na sexta (25).

Imagine se o apresentador estivesse se referindo nesses termos aos negros ou mesmo a uma categoria profissional como os publicitários. Já estaria sendo, no mínimo, cancelado nas redes sociais –para não dizer processado ou mesmo punido pela emissora.

Mas, como estamos no Brasil de Bolsonaro, ele se sente autorizado a vomitar sua "opinião" difamatória. A homofobia já é crime no país, mas parece que essa é mais uma lei que não pegou por aqui.

Sikêra Jr. é reincidente. Diz que não se importa com o que as pessoas façam entre quatro paredes, mas não perde uma oportunidade para atacar os direitos igualitários e seus ativistas. Utiliza a tática habitual da extrema direita: associa a homossexualidade à pedofilia e diz que quer apenas “proteger as crianças”.

O que provocou o chilique do apresentador foi o comercial que a rede de fast food Burger King criou para o Dia do Orgulho LGBTQIA+, celebrado nesta segunda (28). Criado pela agência David e veiculado apenas na internet, o filme "Como Explicar" mostra filhos de casais homoafetivos contando como são suas famílias. As respostas são espontâneas.

Dá para perceber que todas essas crianças vivem em lares felizes e entendem perfeitamente que o amor é o que importa, mais nada. Mas, na cabeça torta dos homofóbicos, elas estão sendo abusadas –apenas por mostrarem que são saudáveis e que o convívio com pais gays não as prejudicou em nada.

A normalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo apavora o patriarcado porque as famílias que não se encaixam no modelo tradicional também escapam da opressão que o machismo quer impor.

Isso enlouquece figuras toscas como Sikêra Jr., que exprimem seu descontentamento de maneira incongruente. Dá para perceber como raciocínio é falho pela frase que abre este texto, reproduzida ipsis litteris.

Agora, Sikêra Jr. também sabe que ostentar homofobia repercute na mídia. O circo de horrores que é o Alerta Nacional costuma dar baixa audiência (porém satisfatória para os padrões da RedeTV!). Mas, quando causa polêmica nas redes sociais, como agora, o incentivo para mais homofobia explícita é enorme.

O que fazer, então? Ignorar, como sugerem alguns? É tentador, mas não adianta. Eu já penso justamente o contrário: expor, denunciar, pressionar os patrocinadores. Mostrar que, apesar dos trogloditas que saíram de suas cavernas nos últimos anos, o Brasil ainda tem jeito.

É lamentável que, em pleno ano da graça de 2021, a homofobia exploda de maneira tão acintosa na TV aberta brasileira. Ela também dá as caras de maneira sutil, disfarçada de “doisladismo”, como ocorreu recentemente no programa Vem Pra Cá (SBT), quando a apresentadora Patrícia Abravanel defendeu que os homofóbicos merecem “compreensão”.

Mas também há muito o que celebrar. Na Globo, por exemplo, hoje em dia é rara a novela que não tenha um casal gay ou um personagem trans. E não é só na dramaturgia: a emissora transmite nesta segunda (28), às 22h35, o especial “Falas de Orgulho”, com oito personagens da comunidade LGBTQIA+ contando suas histórias. É mais uma iniciativa entre muitas outras que a emissora vem realizando já há algum tempo.

Também há exemplos positivos na TV paga, como a série “Todxs Nós”, da HBO, e no streaming, como a recém-estreada “Manhãs de Setembro”, da Amazon Prime Video.

Logo mais, às 19 horas, eu vou conversar com Silvio de Abreu no canal Manual do Tempo no YouTube, na live “Visibilidade LGBTQIA+ na TV”. Autor de inúmeras novelas e ex-diretor de dramaturgia da Globo, Silvio enfrentou reações contrárias do público e da própria emissora quando introduziu personagens homossexuais em tramas como "A Próxima Vítima" (1995) e "Torre de Babel" (1998-1999).

Também esteve na linha de frente dos embates que desembocaram nos avanços dos últimos anos. Portanto, assunto não vai faltar.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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